A resposta curta é não. O índice ao produtor para madeira serrada de coníferas, do Bureau of Labor Statistics, avançou de 259,987 pontos em janeiro para 300,614 em julho, alta de 15,6%. No mercado físico, a Madison’s marcou US$ 529,75/MBF (Thousand Board Feet) em 21 de agosto. O valor recuou 4,4% no mês, mas ainda superava em 5,3% o de um ano antes, segundo a National Association of Home Builders.
Os números pedem interpretação, não euforia. Segundo a Reuters, a construção de casas unifamiliares nos EUA caiu 9,9% em julho e 15,7% em um ano, no menor ritmo desde novembro de 2022. Mesmo assim, o índice composto da Random Lengths atingiu US$ 535/MBF em julho, 23% acima de um ano antes. O Wall Street Journal atribuiu o descompasso principalmente à oferta: menor atividade de serrarias, problemas no suprimento de toras e redução das importações canadenses.
O aumento anual, portanto, não sinaliza um novo ciclo forte da demanda imobiliária. Mostra quanto o mercado ficou sensível a restrições de oferta. Para o exportador brasileiro de serrado de pinus, essa distinção é essencial. Preço elevado com construção fraca pode sustentar referências, mas não garante mais volume nem elimina a volatilidade de agosto.
A política comercial reforça essa leitura. Desde outubro de 2025, os EUA aplicam tarifa de 10% pela Seção 232 à madeira serrada de coníferas importada, inclusive do Brasil e do Canadá. Sobre o produto canadense somam-se direitos antidumping e compensatórios. Para o grupo “demais empresas”, eles chegam hoje a 35,16%, levando a referência combinada a 45,16%, embora as taxas variem por produtor.
Esse regime não deve ser confundido com o novo tarifaço de 50% sobre determinados produtos canadenses. A Casa Branca excluiu os itens já sujeitos à Seção 232. Assim, a madeira serrada canadense não recebe outros 50% sobre a cobrança setorial. Parte dos compensados, painéis e itens de maior processamento aparece nos anexos tarifários, conforme a classificação aduaneira.
Brasil: um cenário desigual
No Brasil, os dados apresentados por Marcelo Wiecheteck no episódio 29 do Podcast WoodFlow mostram desempenhos distintos. De janeiro a julho, o serrado de pinus alcançou 1,8 milhão de metros cúbicos exportados, 3% acima de 2025. Já os oito principais produtos de madeira, sem MDF, celulose e papel, somaram US$ 1,467 bilhão, cerca de US$ 275 milhões abaixo do ano anterior. O compensado de pinus embarcou quase 1,4 milhão de metros cúbicos, com queda de 17% no volume e 18% no valor, enquanto as molduras recuaram mais de 50%.
A concentração amplia o risco nos produtos de maior valor agregado: os EUA recebem 94% das molduras de pinus e 84% das portas de madeira exportadas pelo Brasil. Nesses segmentos, a leitura do serrado não pode ser aplicada diretamente. Especificações, canais, custos de transformação e enquadramento tarifário são diferentes. A alta da matéria-prima americana não se converte automaticamente em melhor margem ou demanda maior por produtos brasileiros.
Barreiras redesenham a concorrência
Há ainda um efeito menos visível. Diante das barreiras americanas, o Canadá trabalha para redirecionar cerca de 1 BBF (Billion Board Feet), aproximadamente 10% do volume antes destinado aos EUA, para Reino Unido, União Europeia e Oriente Médio, segundo o Financial Times. São mercados observados por fornecedores brasileiros na diversificação. A consequência provável não é abertura automática para o Brasil, mas concorrência mais acirrada em preço, prazo, especificação e logística.
A leitura prática é que o principal cliente continua relevante, mas deixou de ser o único termômetro. Os EUA combinam preço anual mais alto, demanda residencial fraca e proteção comercial crescente. Ao mesmo tempo, a reação canadense pode alterar o equilíbrio em destinos alternativos. É preciso acompanhar preços físicos e novas construções nos EUA, a decisão final sobre os direitos canadenses e o redirecionamento dessa oferta. Diversificar continua necessário, mas será um processo industrial e comercial, não apenas geográfico.



