Café da Manhã da AFRY: a nova geografia da celulose e os rumos do mercado global

O comportamento do mercado global de celulose e papel está mudando e o Brasil, mais uma vez, desponta como peça-chave nesse tabuleiro. Foi com essa perspectiva que João Cordeiro, Senior Principal da AFRY Management Consulting, conduziu a apresentação do Café da Manhã da AFRY, realizado na quarta-feira, 15 de outubro, no Octavio Café, em São Paulo.

Com uma leitura geopolítica ampla, o executivo destacou que a chamada “nova geografia da celulose” está sendo redesenhada por fatores estruturais, como o desaquecimento da economia chinesa, o envelhecimento da população e o aumento do custo da madeira nesse país. “O Brasil depende da China, mas a China também enfrenta limites físicos e econômicos que reduzem seu dinamismo. Isso abre uma janela importante para o Brasil consolidar sua liderança global”, afirmou Cordeiro, ao explicar o novo equilíbrio entre as economias emergentes e o Ocidente no comércio de fibras.

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“Na década de 1960, as economias ocidentais respondiam por 70% do PIB mundial; hoje, a China sozinha já representa cerca de 20% do comércio global, enquanto os Estados Unidos carregam uma dívida pública de 30 trilhões de dólares”, exemplificou ao relacionar as mudanças estruturais da economia mundial com a ascensão chinesa.

Ele ressaltou que, pela primeira vez, a China deve superar o Brasil em volume total de produção de celulose, mas a um custo significativamente maior, o que reforça a competitividade brasileira. “Em 2007, a China produzia 12 milhões de toneladas de celulose; hoje já são 27 milhões, e em 2025 o país deve alcançar o Brasil, com cerca de 30 milhões de toneladas”, observou.

Segundo Cordeiro, o desafio está em aproveitar o momento para diversificar mercados e agregar valor tecnológico à produção. “O Brasil é líder natural na bioeconomia, mas precisa transformar essa vantagem de recursos em inovação e inteligência comercial. O mercado não será o mesmo: o crescimento da demanda asiática dá lugar a uma competição mais sofisticada, em que sustentabilidade e eficiência serão determinantes”, analisou.

Ele lembrou ainda o papel central das exportações brasileiras na última década. “Em 2000, o Brasil exportava apenas 130 mil toneladas de celulose para a China; em 2023, foram 9 milhões, e em 2025 devemos passar de 10 milhões de toneladas: mais da metade de toda a nossa produção”, detalhou. “Isso mostra o quanto nossa cadeia está atrelada ao comportamento do mercado chinês”, completou.

Cordeiro destacou, no entanto, que o modelo chinês de crescimento dá sinais de fadiga. “A China cresceu com base em exportações e investimento estatal barato, sua taxa de juros está em torno de 3%, mas o consumo interno e a construção civil vêm desacelerando desde a pandemia”, observou.

Ao abordar a política industrial chinesa, ele lembrou que o novo plano quinquenal prevê reforço na autossuficiência produtiva. “O plano chinês aposta na revitalização rural e na segurança das cadeias produtivas, com apoio direto a indústrias como papel e celulose, a mesma lógica que fez o país responder por 60% dos carros elétricos e 80% das baterias de lítio do mundo”, destacou.

“Produzir celulose na China é o segundo mais caro do mundo: a madeira lá custa até quatro vezes mais que a brasileira, mas eles seguem produzindo porque o capital é barato e o Estado subsidia a expansão”, afirmou, ressaltando a vantagem competitiva do Brasil.

O executivo também apontou que a reorganização geopolítica global marcada por tensões comerciais e redistribuição de polos produtivos cria oportunidades para novos fluxos de investimento industrial. “Os custos crescentes da madeira e da energia na Europa e na China tendem a deslocar a expansão para regiões mais competitivas, como a América do Sul. O Brasil tem tudo para se consolidar como um hub de produção limpa, com base florestal sustentável e energia renovável”, disse, lembrando que o país reúne os fatores mais favoráveis entre os grandes produtores mundiais.

“A geografia da celulose mudou: a China se torna também produtora, e o Brasil precisa crescer em inteligência de mercado, não apenas em volume”, concluiu Cordeiro.

A programação seguiu com Thaís Dall’Agnol, consultora sênior da AFRY, que abordou o papel do Brasil na transição energética global. Ela apresentou um panorama sobre os biocombustíveis e destacou o potencial nacional para a produção do SAF (combustível sustentável de aviação), enfatizando que o Brasil tem condições únicas de competir nesse mercado em expansão.

Thaís detalhou as diferentes rotas tecnológicas de produção de SAF, como o HEFA, o ATJ e o PtL e explicou que o país se diferencia por sua diversidade de matérias-primas e infraestrutura já estabelecida na cadeia de biocombustíveis. Segundo ela, os investimentos em inovação e certificação sustentável serão decisivos para posicionar o Brasil como protagonista em energia limpa. “O desafio agora é integrar escala, custo e sustentabilidade. O mundo busca combustíveis neutros em carbono, e o Brasil tem os elementos para entregar essa solução”, afirmou.

Na sequência, Flávio Maeda, diretor de digitalização da AFRY, apresentou o papel dos dados e da inteligência artificial na competitividade industrial, destacando como as tecnologias digitais podem gerar ganhos financeiros, ambientais e operacionais. Um dos pontos altos de sua fala foi o projeto de benchmarking setorial desenvolvido em parceria com a ABTCP, que visa criar uma base de dados colaborativa para o setor de celulose e papel.

O sistema permitirá que as empresas participantes comparem indicadores padronizados de desempenho, de forma segura e automatizada, com o suporte da plataforma digital da AFRY. “A proposta é transformar informação em conhecimento setorial e acelerar a curva de aprendizado coletivo, com uso de inteligência artificial aplicada aos indicadores de processo e sustentabilidade”, explicou Maeda.

O encontro contou ainda com a participação de um economista do Itaú BBA, que compartilhou projeções macroeconômicas para 2026, destacando o impacto das eleições do próximo ano sobre o ambiente de negócios e o comportamento dos empresários.

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Thais Negri Santi

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