Uma das características que atravessam os 65 anos do Grupo Penha é a recorrência com que uma necessidade identificada ao longo da cadeia produtiva acaba se convertendo em uma nova frente de atuação. Foi assim, inclusive, no início da história.
Antes de se tornar um grupo industrial presente em quatro estados brasileiros, com fábricas de papel, unidades de embalagens, operações de recuperação de aparas, atividade agroflorestal, transporte e estruturas de apoio, a trajetória da companhia começou em 1961, fruto da união de 15 sócios de origem japonesa que acreditaram no potencial do mercado de embalagens de papelão. Naquele período, o Brasil vivia um intenso processo de industrialização, e as embalagens de papelão ainda eram um recurso escasso.
Na época, iniciou-se uma busca por fábricas que estivessem à venda no interior paulista. Em meio às oportunidades encontradas, uma empresa em Itapira-SP despertou o interesse: a Fábrica de Papel e Papelão Nossa Senhora da Penha, batizada em homenagem à padroeira do município. Em atividade desde 1948, o negócio reunia características atrativas, destacando-se pela localização estratégica e pelas boas condições de negociação, fatores que contribuíram para a decisão de compra.
A empresa adquirida era significativamente diferente daquela que se desenvolveria nas décadas seguintes. Produzia papel e papelão maciço e atendia, entre outras demandas locais, a atividades como a fabricação de malas e chapéus. Nos primeiros anos sob o novo controle, a operação gradualmente deixou o papelão compacto, ampliou a fabricação de papéis destinados a embalagens utilizando, naquele período, fibras provenientes do bagaço de cana, e começou a construir a especialização que definiria sua trajetória.
Em 1969, o direcionamento estratégico para o papelão ondulado se consolidou com a aquisição de sua primeira onduladeira da fabricante nacional Barban. A linha histórica do Grupo Penha identifica esse momento como o início de uma especialização que seria seguida, ao longo das décadas, por sucessivos ciclos de modernização, automação e ampliação de escala.
Carlos Edson Shiguematsu, CEO do Grupo Penha, integrante de uma das famílias acionistas e testemunha direta de boa parte dessa transformação, guarda na memória histórias que ajudam a dimensionar a distância entre aquela operação e a estrutura atual. Ele iniciou sua trajetória na empresa como estagiário, passou por diversas diretorias e, em 2012, assumiu o comando da companhia como CEO.

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A transformação da fábrica se confundiu, ao longo dos anos, com a própria relação construída com Itapira. Um dos símbolos mais singulares dessa proximidade é o tradicional “apito da Penha”, acionado pelo vapor da caldeira e usado durante décadas pelos moradores como referência para diferentes horários do dia e para as trocas de turno.
Em uma época em que a cidade era menor e a rotina industrial tinha presença ainda mais marcante no cotidiano local, famílias orientavam as crianças que brincavam nas ruas a retornar para casa quando o apito soasse à noite. Quando o antigo equipamento deixou temporariamente de funcionar e foi substituído internamente por uma sirene, a reação da comunidade surpreendeu até mesmo a empresa. Aquilo que havia começado como recurso operacional havia se transformado em parte da memória coletiva.
“A Penha recuperou o equipamento. O apito voltou a soar, e a história chegou a despertar o interesse da imprensa regional”, explica Shiguematsu. Entretanto, a dimensão atual é outra. Dados institucionais da companhia apontam mais de dez unidades presentes em São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Bahia e aproximadamente 2,6 mil colaboradores. A capacidade consolidada de produção de embalagens de papelão ondulado alcança hoje cerca de 360 mil toneladas anuais.
No entanto, entre a antiga fábrica em que chapas secavam ao sol e a estrutura industrial atual, não há uma trajetória linear. O crescimento foi marcado por decisões que, em diferentes momentos, exigiram da Penha investimentos elevados em relação ao seu porte, mudança de tecnologia, ampliação de competências e disposição para assumir riscos. Alguns desses movimentos foram arriscados, mas, ao mesmo tempo, seriam justamente eles que estabeleceriam as bases para os ciclos posteriores de crescimento.
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