Dia da Árvore: Como a madeira engenheirada conecta florestas e cidades rumo à descarbonização

Por Ana Belizário, diretora da Urbem, indústria brasileira de madeira engenheirada de larga escala, que atua no setor da construção civil, focada em oferecer produtos e serviços inovadores e sustentáveis.

No Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, é comum que a discussão sobre a conservação se concentre na necessidade de proteger as florestas e ampliar a cobertura vegetal. No entanto, diante da urgência climática e da necessidade de transformar a economia, existe outra dimensão dessa conversa que merece atenção: como utilizar os recursos da floresta de maneira responsável, mantendo sua capacidade de regeneração e, ao mesmo tempo, contribuir para uma economia de baixo carbono?

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Essa questão ganha relevância quando chega ao setor da construção civil. Edifícios, pontes, galpões e outras estruturas demandam grandes volumes de materiais e energia ao longo de seus ciclos de vida. Por isso, repensar os insumos utilizados nas obras tornou-se parte importante da agenda de descarbonização.

É nesse ponto que a madeira engenheirada estabelece uma conexão entre floresta e cidade. Produzido a partir de madeira proveniente de florestas plantadas e manejadas de forma responsável, o material transforma um recurso renovável em componentes estruturais capazes de atender a projetos de diferentes escalas. A discussão, portanto, não começa no canteiro de obras, mas sim nas florestas.

Ana-Belizario

Quando manejadas de forma responsável, as florestas plantadas podem desempenhar um papel importante em uma economia de baixo carbono. Durante o crescimento, as árvores retiram dióxido de carbono da atmosfera e armazenam carbono na biomassa. Ao mesmo tempo, áreas destinadas à produção florestal podem integrar paisagens produtivas planejadas, com ciclos de plantio, crescimento e colheita.

Isso não significa equiparar florestas plantadas a ecossistemas naturais. São funções distintas e a conservação das florestas nativas permanece indispensável. A questão é reconhecer que a produção florestal responsável pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de uso eficiente da terra, desde que respeite a legislação, critérios ambientais e boas práticas de manejo.

A origem da matéria-prima é, portanto, um dos pontos fundamentais quando se fala em madeira para construção. Certificações florestais, rastreabilidade e manejo responsável ajudam a estabelecer critérios para que o recurso renovável chegue à indústria dentro de uma cadeia produtiva controlada.

Nesse modelo, a árvore não é vista apenas como matéria-prima, mas como parte de um ciclo. O carbono capturado durante o crescimento permanece armazenado na madeira utilizada em produtos de longa duração, enquanto novas árvores podem ser plantadas para dar continuidade à produção.

A madeira engenheirada representa uma evolução importante na capacidade de utilizar esse recurso em aplicações estruturais. Diferentemente da madeira convencional utilizada diretamente em determinados produtos, os sistemas engenheirados combinam peças e lâminas por meio de processos industriais que permitem obter elementos com características estruturais específicas.

Entre as tecnologias mais conhecidas estão o CLT (Cross Laminated Timber), formado por camadas de madeira dispostas em sentidos alternados, e o glulam, produzido pela união de lâminas de madeira coladas. Esses sistemas ampliam as possibilidades de aplicação da madeira em projetos de maior porte e permitem maior precisão na fabricação dos componentes.

A industrialização também modifica a dinâmica do canteiro. Parte dos elementos pode ser produzida previamente em ambiente controlado e chegar à obra pronta para montagem. Isso pode contribuir para maior previsibilidade, redução de desperdícios e racionalização do processo construtivo.

O impacto ambiental, entretanto, precisa ser analisado de maneira abrangente. Não basta comparar materiais apenas pelo peso ou pela quantidade de energia utilizada durante a fabricação. É necessário considerar a origem da matéria-prima, os processos industriais, transporte, vida útil, manutenção e possibilidades de reutilização ou destinação ao final da vida da edificação.

É justamente essa perspectiva de ciclo de vida que coloca a madeira engenheirada no debate sobre construção de baixo carbono. As árvores absorvem carbono durante seu crescimento e, quando a madeira é transformada em produtos de longa duração, parte desse carbono permanece armazenada enquanto o material estiver em uso.

Essa relação cria uma conexão particular entre floresta e construção. Um edifício de madeira não representa apenas o resultado de um processo industrial, pois incorpora parte do carbono capturado pelas árvores que deram origem aos seus componentes.

É uma lógica que exige responsabilidade. O benefício climático não está simplesmente no fato de um produto ser feito de madeira, pois depende de uma cadeia que começa no manejo florestal e segue pela transformação industrial, logística, projeto, construção, manutenção e destinação final.

É por isso que falar em madeira engenheirada também significa falar em rastreabilidade, eficiência produtiva e planejamento. Quanto mais transparente for a cadeia, maior a capacidade de avaliar seus impactos e seus benefícios.

A expansão dessas soluções também provoca uma reflexão sobre o próprio conceito de desenvolvimento. Durante décadas, o crescimento urbano esteve associado a um modelo construtivo baseado em materiais de alta intensidade energética e em processos pouco industrializados. A transição para uma economia de baixo carbono exige repensar esse modelo e considerar o ciclo completo da construção: de onde vem o recurso, quanto é utilizado, quanto é desperdiçado, quanto tempo a estrutura permanece em uso e o que acontece com seus componentes depois.

Nesse contexto, a madeira engenheirada aproxima duas agendas que muitas vezes são tratadas separadamente: a conservação ambiental e o desenvolvimento econômico. De um lado, existe a necessidade de proteger florestas nativas, preservar a biodiversidade e combater o desmatamento. De outro, há uma demanda crescente por materiais renováveis e soluções construtivas com menor impacto climático.

Florestas plantadas manejadas de forma responsável podem ocupar parte desse espaço, fornecendo matéria-prima renovável para uma indústria que busca reduzir sua pegada ambiental, sem confundir produção florestal com conservação de ecossistemas naturais. A relação entre as duas frentes depende de planejamento territorial, critérios ambientais, rastreabilidade e uma visão de longo prazo sobre o uso dos recursos naturais.

No setor da construção, essa mudança de perspectiva faz com que a madeira deixe de ser vista apenas como um material tradicional e passe a ocupar espaço em uma discussão mais ampla sobre como as cidades podem ser construídas. A árvore que cresce em uma floresta plantada pode, décadas depois, estar presente em uma estrutura urbana, mantendo parte do carbono capturado durante seu crescimento e dando materialidade a uma cadeia que conecta produção, indústria e infraestrutura.

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