O livro impresso na educação

Fabio Arruda Mortara, presidente de Two Sides Brasil, destaca a preferência por livros impressos e a superioridade do papel na aprendizagem e memorização, frente ao digital

Frequentemente, a comunicação em papel tem sido alvo de campanhas pela sua substituição por alternativas digitais. A extinção do livro impresso já foi profetizada diversas vezes, desde o surgimento das primeiras versões eletrônicas, mas o que vemos hoje, em escala mundial, é o livro de papel firme e forte. Pesquisa recente de Two Sides, realizada em 2023, com mais de 10 mil consumidores, em 16 países, mostra que o livro físico continua sendo a principal escolha. No Brasil, 64% dos leitores responderam preferir os livros impressos.

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O renomado filósofo e escritor italiano Umberto Eco sempre acreditou na permanência do livro impresso como a principal plataforma de leitura. Segundo ele, trata-se de uma invenção perfeita nas suas características fundamentais – não tem como ser aperfeiçoado. Ele comparava o livro físico a ferramentas como a colher, o martelo ou a tesoura, afirmando que não seria possível criar algo diferente para cumprir melhor as mesmas funções.

O fato é que, do ponto de vista prático, o livro tradicional tem muitas vantagens – não depende de baterias ou de conexões com internet, é confortável para manusear, pode ser compartilhado, tem apelos sensoriais que estimulam o cérebro – como aroma e textura. Diversos estudos, inclusive com monitoramento de atividade cerebral em tempo real, demonstram que o cérebro prefere o papel. A leitura de um livro físico, em comparação com a leitura em tela, estimula mais regiões do cérebro e, por isso, favorece a concentração e a memorização. Ao lermos um livro impresso, nosso cérebro “mapeia” os conteúdos a partir de referências espaciais em relação ao volume total e também à página. O leitor pode “sentir” nas mãos o progresso da leitura.

Estudos específicos comprovam que o rendimento dos estudantes é melhor quando leem em papel e o mesmo vale para anotações à mão, em cadernos. Foi amplamente noticiada a decisão do governo sueco, em 2023, com relação a esse tema. Desde a década de 1990, a Suécia vinha avançando gradualmente na implementação da educação digital nas escolas, sendo o único país com meta de alcançar 100% de digitalização. No entanto, indicadores mostraram um decréscimo na performance dos alunos e, em consequência, o ministério da educação daquele país voltou atrás e determinou pesados investimentos para reintroduzir o livro impresso. Nas palavras da ministra das escolas da Suécia, Lotta Edholm, referindo-se a estudos realizados sobre o assunto:

“Aqueles que leram o texto impresso foram mais capazes de reproduzir os pontos principais, lembraram-se de mais partes e apresentaram melhor compreensão geral da leitura.”

Um desses estudos foi realizado em 2017, por pesquisadores da Universidade de Wurtzburgo, na Alemanha, com 3 mil estudantes da 1.ª à 6.ª séries. Os alunos foram separados em dois grupos para lerem diversos textos em papel e em telas. Segundo as autoridades suecas, os resultados mostraram que os que estudaram pelos dispositivos eletrônicos foram mais rápidos, mas com prejuízos na precisão da leitura. Ao serem avaliados, os que leram na tela tiveram um desempenho inferior aos que estudaram em papel.

Embora a aprendizagem em plataformas digitais possa ajudar a desenvolver outras capacidades também úteis, parece claro que a leitura em papel, que moldou até agora a transmissão do conhecimento nas nossas culturas, não pode ser de nenhuma maneira colocada em segundo plano sem graves consequências para a qualidade da educação.

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