Preço da celulose sustenta melhora sequencial, mas custos, câmbio e menor volume pressionam margens e alavancagem
A Suzano encerrou o segundo trimestre de 2026 com recuperação sequencial de receita e EBITDA, apoiada pela melhora dos preços da celulose e pelo avanço dos volumes vendidos. A comparação anual, contudo, expôs um quadro mais pressionado, marcado pela apreciação do real, menor volume comercializado de celulose e avanço dos custos de produção e logística.
A receita líquida consolidada alcançou R$ 11,59 bilhões, alta de 6% frente ao 1T26 e queda de 13% em relação ao 2T25. O EBITDA ajustado somou R$ 4,705 bilhões, avanço de 3% na comparação trimestral e retração de 23% em bases anuais, enquanto a margem EBITDA recuou para 41%, ante 42% no trimestre anterior e 46% um ano antes.
A geração de caixa operacional atingiu R$ 2,885 bilhões, crescimento de 14% frente ao 1T26 e queda de 30% na comparação anual. O lucro líquido ficou em R$ 1,807 bilhão, 58% abaixo do trimestre anterior e 64% inferior ao registrado no 2T25.
A forte variação do lucro refletiu, em grande medida, a mudança no resultado financeiro. O saldo passou de R$ 4,616 bilhões positivos no primeiro trimestre para R$ 10 milhões negativos no 2T26, em um período de menor efeito cambial sobre a dívida e os instrumentos derivativos.
No total, as vendas de celulose e papel somaram 3,303 milhões de toneladas, crescimento de 3% frente ao 1T26, mas retração de 10% na comparação anual. A celulose respondeu por 76% da receita líquida do período, seguida por imprimir e escrever, com 10%, papelcartão, com 8%, e demais papéis, com 6%.
Celulose avança sequencialmente, mas ganhos de preço encontram pressão de custos
As vendas de celulose chegaram a 2,897 milhões de toneladas no trimestre, 2% acima do 1T26, com maior participação de Europa e América do Norte. Frente ao 2T25, porém, os volumes recuaram 11%, principalmente pela menor alocação para a Ásia.
O preço líquido médio da celulose comercializada pela companhia atingiu US$ 599/t, avanço de 7% no trimestre e de 8% em 12 meses. No mercado externo, o valor realizado chegou a US$ 601/t.
Em reais, entretanto, o movimento foi menos favorável. O preço médio ficou em R$ 3.023/t, alta de 3% frente ao 1T26 e queda de 4% ante o 2T25, refletindo a apreciação cambial. A receita líquida do segmento avançou 5% sequencialmente, mas recuou 15% na comparação anual.
A dinâmica regional permaneceu heterogênea. Na China, novas capacidades integradas e a oferta elevada de fibra longa continuaram pesando sobre o sentimento do mercado. Ao mesmo tempo, a produção total de papel no país cresceu 13,8% na comparação anual e os estoques portuários permaneceram próximos de 2,7 milhões de toneladas.
Na Europa, a conjuntura mostrou maior suporte à fibra curta. O consumo avançou 5,2% frente ao 2T25, enquanto o de fibra longa recuou 4,8%. Estoques portuários permaneceram baixos, em torno de 1,3 milhão de toneladas, e a produção doméstica de celulose química branqueada caiu 7% frente ao trimestre anterior. Nesse ambiente, os preços de fibra curta medidos pelo PIX/FOEX subiram 3,4% na China e 13,8% na Europa em relação ao 1T26.
A melhora do ambiente de preços, entretanto, encontrou uma base de custos mais elevada. O custo caixa de produção de celulose sem paradas atingiu R$ 843/t, alta de 5% frente ao 1T26 e de 1% na comparação anual.
O trimestre concentrou pressões em insumos químicos e energéticos, madeira e logística. Gás natural, soda cáustica e dióxido de cloro ficaram mais caros, enquanto o custo da madeira foi impactado por maior raio médio de abastecimento, mix de fábricas e diesel. A elevação do Brent também afetou bunker e fretes entre fábricas e portos.
Nesse cenário, o EBITDA ajustado da celulose chegou a R$ 4,184 bilhões, 3% acima do trimestre anterior, mas 22% abaixo do 2T25. Por tonelada, o indicador avançou apenas 1% sequencialmente, para R$ 1.444/t, e recuou 12% em bases anuais.
A assimetria entre preço e rentabilidade é um dos principais sinais do trimestre. A Suzano capturou preços maiores em dólares, mas parte do benefício foi absorvida por câmbio e custos, limitando a expansão do resultado unitário.
O custo caixa também permanece no centro da leitura para o segundo semestre. O realizado de R$ 843/t ficou ligeiramente acima da faixa de R$ 830/t a R$ 840/t anteriormente projetada para o trimestre. No período, o Brent médio atingiu US$ 97/barril, ante a premissa de US$ 87 considerada pela companhia.
A Suzano manteve, porém, a projeção de custo caixa médio próximo de R$ 800/t em 2026, com premissas de câmbio médio de R$ 5,07/US$ e Brent de US$ 84/barril para o ano.
Papel recupera volume, mas margem segue em queda
O desempenho do negócio de papel reforçou outra característica do trimestre: avanço de volumes sem recomposição equivalente da rentabilidade.
As vendas atingiram 406 mil toneladas, aumento de 7% frente ao 1T26 e queda de 1% ante o 2T25. No Brasil, o volume chegou a 247 mil toneladas, com altas de 10% sequencial e 5% anual, sustentado por papelcartão, revestidos, cut size e tissue.
Nos mercados internacionais, a Suzano vendeu 159 mil toneladas, equivalentes a 39% do total do segmento. O volume aumentou 4% frente ao primeiro trimestre e caiu 10% em relação ao 2T25.
A retração internacional refletiu principalmente menores volumes de imprimir e escrever, diante das tarifas implementadas pelo governo norte-americano e da estratégia de alocação da companhia. No papelcartão, as operações da Suzano Packaging US também foram afetadas por problemas operacionais após a parada de manutenção realizada em maio.
No mercado brasileiro, a demanda por papelcartão cresceu 11% frente ao trimestre anterior e 8% na comparação anual. O avanço, entretanto, veio acompanhado por uma alta de 30% nas importações, principalmente de origem asiática, adicionando pressão competitiva em um mercado doméstico que apresentou expansão.
O preço médio líquido dos papéis ficou em R$ 6.974/t, alta de 1% sequencial e queda de 5% em 12 meses. A receita líquida do segmento alcançou R$ 2,834 bilhões, crescimento de 8% frente ao 1T26 e redução de 6% ante o 2T25.
A rentabilidade, contudo, permaneceu sob pressão. O EBITDA ajustado somou R$ 521 milhões, praticamente estável sequencialmente e 27% abaixo do resultado registrado um ano antes. Por tonelada, caiu 7% no trimestre e 26% na comparação anual, para R$ 1.281/t.
A margem EBITDA recuou para 18%, ante 20% no 1T26 e 24% no 2T25. A deterioração reflete principalmente maior CPV caixa, custos mais altos de produção, impacto das paradas de manutenção e avanço das despesas logísticas.
A evolução revela uma recuperação predominantemente comercial, ainda sem reflexo equivalente na geração de resultado. O crescimento de volume doméstico e a estabilização sequencial do EBITDA contrastam com uma margem seis pontos percentuais abaixo da registrada há um ano.
Caixa melhora, mas desalavancagem ainda depende de recuperação do EBITDA
O fluxo de caixa livre ajustado foi um dos indicadores mais fortes do trimestre, alcançando R$ 3,317 bilhões, ante R$ 586 milhões no 1T26 e R$ 2,622 bilhões no 2T25.
A recuperação teve suporte da menor concentração de pagamentos de juros, da ausência de prêmios de liquidação antecipada de dívida, da liberação de capital de giro, do maior EBITDA sequencial e de ajustes positivos com derivativos.
O efeito caixa dos derivativos foi positivo em R$ 824 milhões, dos quais R$ 147 milhões relacionados a hedge de commodities, reduzindo parcialmente o impacto da alta de custos energéticos.
Os investimentos de capital somaram R$ 2,539 bilhões, redução de 20% tanto frente ao 1T26 quanto ao 2T25. Para 2026, o guidance de Capex permanece em R$ 10,947 bilhões, incluindo R$ 7,255 bilhões destinados à manutenção.
A dívida líquida caiu para R$ 66,1 bilhões, 3% abaixo do saldo de março e 7% inferior ao registrado no 2T25. Em dólares, recuou 2% sequencialmente, para US$ 12,8 bilhões.
A alavancagem, porém, seguiu trajetória oposta. A relação dívida líquida/EBITDA ajustado em dólares aumentou de 3,3x para 3,4x no trimestre e permanece acima dos 3,1x observados um ano antes. Em reais, passou de 3,2x para 3,3x.
O movimento reforça que a trajetória de desalavancagem depende não apenas da redução da dívida, mas também da recuperação do EBITDA acumulado. A Suzano mantém como objetivo atingir dívida líquida de US$ 11 bilhões e alavancagem inferior a 2,5x ao longo de 2027 e 2028.
O ROIC segue na mesma direção. O indicador dos últimos 12 meses ficou em 10,3%, ligeiramente acima dos 10,1% do 1T26, mas 2,8 pontos percentuais abaixo dos 13,1% registrados um ano antes. No período, o EBITDA acumulado caiu 16%, enquanto o capital investido ajustado avançou 6%.
Kimberly-Clark amplia diversificação em meio à agenda de desalavancagem
O fechamento do trimestre antecedeu uma mudança relevante no perímetro de negócios da Suzano. Em 1º de julho, a companhia concluiu a aquisição de 51% da joint venture formada com a Kimberly-Clark para operações internacionais de bens de consumo, com foco em tissue.
A transação envolveu pagamento de US$ 1,3 bilhão, equivalente a aproximadamente R$ 6,7 bilhões. Na data do fechamento, a joint venture apresentava dívida líquida de aproximadamente US$ 1 bilhão, associada à estrutura de financiamento da operação.
O negócio reúne 22 unidades industriais em 14 países, além de marcas regionais e licenças para determinadas marcas globais da Kimberly-Clark. A multinacional norte-americana permanece com 49%, enquanto a Suzano conta com opção de compra da participação remanescente a partir do terceiro aniversário do fechamento, ou antes, em situações previstas no acordo.
Como a conclusão ocorreu após 30 de junho, seus efeitos ainda não aparecem nos números do 2T26. A partir dos próximos trimestres, entretanto, a consolidação do negócio adicionará uma variável relevante à análise da companhia, tanto pela maior participação de tissue e bens de consumo no portfólio quanto pelo impacto sobre capital empregado e endividamento.
A transação ocorre em um momento no qual a Suzano busca simultaneamente ampliar a diversificação do negócio e reduzir a alavancagem. A capacidade da nova plataforma de contribuir para geração de caixa, ao mesmo tempo em que a companhia avança em direção à meta de dívida líquida de US$ 11 bilhões, tende a ganhar peso na avaliação dos próximos resultados.
O 2T26 deixa, assim, uma recuperação sequencial mais clara do que uma retomada plena da rentabilidade. Preços de celulose e volumes avançaram frente ao início do ano, sustentando receita e EBITDA, enquanto o fluxo de caixa apresentou forte reação. Na comparação anual, porém, menor volume de celulose, câmbio, custos elevados e compressão das margens de papel continuam condicionando o desempenho.
Para o segundo semestre, o ponto central passa a ser a capacidade de transformar a melhora de preços em expansão efetiva de margem. A trajetória do custo caixa, a evolução das margens de papel, o comportamento da demanda asiática e a velocidade da desalavancagem devem determinar até que ponto a recuperação observada no 2T26 poderá ganhar consistência.



