O custo invisível da exaustão: o alerta ignorado pelas organizações

A exaustão silenciosa avança nas empresas e exige uma mudança urgente na forma como organizações lidam com saúde mental.

Caros leitores, mês passado abordei nesta coluna o tema gestão de crise. Hoje, quero puxar outro que também anda tirando o sono de muita gente – e não é força de expressão. Falarei sobre os transtornos mentais que, de forma silenciosa, têm levado cada vez mais pessoas a exaustão e ao afastamento do trabalho.

Dimensionando o tamanho do problema, o Brasil, em 2024, chegou à marca de quase meio milhão de afastamentos do trabalho ligados a questões de saúde mental – um recorde que revela o quanto o sofrimento psíquico saiu do campo invisível para se tornar uma realidade concreta nas empresas. É o maior número em mais de uma década. Estamos falando de quadros como ansiedade, depressão e a já conhecida síndrome de burnout, que deixou de ser tabu e passou a fazer parte do vocabulário no dia a dia em muitas empresas.

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Mas, o que está por trás desse colapso emocional coletivo? Um dos fatores – e que muitas vezes passa batido – é o uso excessivo da tecnologia. Estamos grudados nas telas. Basta observar à sua volta: filas, reuniões, almoços… todo mundo olhando para o celular. São notificações a cada cinco minutos, mensagens fora do horário, grupos de trabalho que nunca silenciam. O cérebro, sem trégua, entra num estado de alerta constante. O resultado? Mais estresse, mais ansiedade, menos energia.

E não dá mais para tratar essa questão como se fosse responsabilidade apenas do indivíduo. As empresas também têm um papel fundamental nesse cenário. A legislação já começou a apontar nessa direção. Com a atualização da NR-1 e a criação do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), o cuidado com a saúde mental passou a ser também uma obrigação legal das organizações. Isso agora deve fazer parte das boas práticas de compliance, que vão muito além de cumprir regras: envolvem uma cultura genuína de cuidado, prevenção e responsabilidade.

E, claro, isso tudo tem reflexo direto no cotidiano: funcionário adoecido não rende. O clima pesa, os erros se acumulam, a motivação desaparece. Dados da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) mostram que, todos os anos, a depressão e a ansiedade retiram da economia global cerca de 12 bilhões de dias de trabalho – um impacto que gira em torno de 1 trilhão de dólares em perdas produtivas.

Impossível fingir que isso não impacta o negócio. Pessoas esgotadas, desmotivadas ou emocionalmente no limite não conseguem sustentar um ritmo de entrega saudável. É efeito dominó: produtividade cai, as equipes se desorganizam, o ambiente se torna pesado. E tudo isso tem custo financeiro, estratégico e humano.

Por isso, está mais do que na hora de abandonar a ideia de que saúde mental é um “plus” de empresa bacana. Não é mimo nem luxo. É estrutura essencial para qualquer organização que queira ser relevante – e humana – no presente e no futuro. Cuidar de gente, hoje, é cuidar da própria estratégia de negócio.

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Rogério Parente
Graduado em Administração de Empresas, com MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), e especializações em Visão Estratégica, Planejamento e Controle Gerencial, Governança Corporativa, entre outras. Com 35 anos de experiência nas áreas de Tecnologia e Gestão empresarial, sendo 26 anos como executivo na Hewlett Packard. Hoje, Consultor em Gestão Empresarial, Docente em MBA, Coordenador do Grupo de Excelência em Administração Estratégica de Pessoas e Tecnologias (GEAPE Tech) no Conselho Regional de Administração de São Paulo (CRASP) e membro da Diretoria do Instituto Paulista Excelência da Gestão (IPEG).

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