Mal conseguimos compreender uma tarifa e logo surge outra. Em 22 de julho, entrou em vigor a sobretaxa de 25% dos Estados Unidos sobre milhares de produtos brasileiros. Dois dias depois, uma nova rodada, de 10% a 12,5%, passou a alcançar dezenas de parceiros, incluindo o Brasil. Para a indústria da madeira, o problema não está apenas nas alíquotas, mas na sucessão de regras, exceções e bases legais. Cada produto exige uma leitura própria, e o exportador precisa recalcular custos, contratos e margens quase em tempo real.
A incerteza já vinha cobrando seu preço. Segundo levantamento da WoodFlow, com dados do ComexStat, os dez produtos madeireiros acompanhados mensalmente registraram queda de 6% em volume e de 8% em valor no primeiro semestre de 2026. Foram US$ 855,2 milhões exportados, ante US$ 929,5 milhões no mesmo período de 2025. Os Estados Unidos responderam por 24,7% desse faturamento. Quando quase um quarto das vendas depende de um único destino, qualquer mudança em Washington atravessa o planejamento das fábricas brasileiras.
O impacto é ainda mais sensível nos principais produtos da pauta, como madeira serrada e compensado de pinus. Muitas indústrias foram estruturadas para atender padrões, medidas, certificações e aplicações específicas do mercado norte-americano. Não basta decidir hoje vender para outro país e embarcar amanhã. Adaptar linhas, homologar produtos, construir relacionamento comercial e conquistar confiança leva tempo.
Por isso, negociar a redução das tarifas é indispensável. Não podemos simplesmente abrir mão do nosso maior mercado consumidor. Governo, entidades e setor privado precisam manter presença técnica e política nos Estados Unidos, demonstrando a complementaridade da madeira brasileira e o custo que barreiras excessivas também impõem aos compradores americanos.
Mas seria um erro imaginar que toda a solução virá de fora. Precisamos fazer a tarefa de casa. A comparação com nossos vizinhos é inevitável e o Chie é um exemplo que ajuda a enxergar esse ponto.
Essa comparação não é perfeita, porque as economias têm escalas diferentes, mas é útil. O país vizinho construiu uma rede de 34 acordos comerciais com 64 economias, que cobre aproximadamente 90% de seu comércio exterior, segundo a Subsecretaria de Relações Econômicas Internacionais do Chile. Entre janeiro e maio de 2026, 96,85% das exportações chilenas seguiram para mercados com acordos vigentes. Essa inserção não elimina crises ou tarifas, mas amplia alternativas e facilita a abertura de novas rotas comerciais.
Há também uma diferença importante no financiamento. Enquanto o Banco Central do Chile mantinha a taxa básica em 4,5% em junho, o Banco Central do Brasil reduziu a Selic para 14,25%. Para uma indústria intensiva em capital, estoque e logística, juros altos encarecem modernização, capital de giro e novos produtos. Enquanto discutimos a tarifa que chega de fora, convivemos com uma espécie de “autotaxação” criada pelas nossas próprias ineficiências.
A dimensão desse peso é conhecida. A estimativa divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços calcula o Custo Brasil em R$ 1,7 trilhão, considerando entraves regulatórios, tributários, logísticos, financeiros e de infraestrutura. Ao mesmo tempo, o IEDI mostrou que a indústria de transformação brasileira caiu para a 69ª posição entre 90 países no primeiro trimestre de 2026, com retração de 0,1% ante crescimento mundial de 3,1%. O alerta vai muito além da madeira: estamos perdendo capacidade de competir.
A resposta precisa caminhar em duas frentes. Lá fora, negociação firme, diversificação de mercados e defesa comercial. Dentro de casa, redução de custos logísticos, crédito mais competitivo, produtividade, inovação e novos acordos. Também precisamos estimular o mercado interno e ampliar o uso da madeira na construção, na infraestrutura e em soluções de menor carbono.
Tarifas são decisões de outros governos e nem sempre estarão sob nosso controle. A competitividade brasileira, ao menos em parte, está. Se reduzirmos nossa autotaxação e ampliarmos as opções comerciais, estaremos mais preparados para atravessar o próximo tarifaço. Porque, no ritmo atual, ele pode chegar antes mesmo de terminarmos de entender o anterior.



