Congresso ABTCP 2026 coloca bioeconomia, inteligência artificial e produtividade no centro do debate técnico

Da inteligência artificial aplicada aos processos industriais ao desenvolvimento de novos produtos a partir da biomassa, a indústria de celulose e papel atravessa uma transformação que amplia o significado de eficiência, produtividade e geração de valor. Ao mesmo tempo em que novas tecnologias chegam às operações, questões como formação profissional, aproveitamento dos ativos existentes, mudanças climáticas e integração entre indústria e academia ganham peso na agenda técnica do setor.

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Esse cenário estará no centro das discussões do 58º Congresso Internacional de Celulose e Papel da Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP), que será realizado de 6 a 8 de outubro de 2026, no Transamerica Expo Center, em São Paulo.

Com o tema “O Fortalecimento da Bioeconomia de Base Florestal”, o encontro reunirá profissionais da indústria, pesquisadores, fornecedores, especialistas e estudantes para discutir avanços científicos e tecnológicos que percorrem diferentes etapas da cadeia produtiva do setor.

Biotecnologia aplicada ao desenvolvimento da base florestal, adaptação de materiais genéticos às mudanças climáticas, biorrefinarias, biopolímeros, lignina, micro e nanofibras, aproveitamento de resíduos, inteligência artificial, automação e eficiência operacional estão entre as frentes que dialogam com o tema desta edição.

Para Francisco Razzolini, presidente do Congresso ABTCP 2026, a escolha reflete um momento de transformação mais amplo da indústria.

“O tema central reflete um momento de transição importante, com avanços em biotecnologia, novos materiais e aplicação da inteligência artificial. Estamos vivendo uma nova fase, que alguns já chamam de ‘era da biologia’, e o Congresso será um espaço essencial para discutir essas transformações e as oportunidades que elas trazem”, afirma.

Além disso, segundo Razzolini, o papel do Congresso vai além da apresentação isolada de tecnologias. A presença simultânea de diferentes gerações de profissionais permite colocar em perspectiva mudanças relacionadas à eficiência operacional, segurança, confiabilidade, novos produtos, inteligência artificial e indústria 5.0 e observar como essas frentes começam a se incorporar à realidade das empresas.

Trabalhos técnicos refletem expansão da agenda de inovação

Parte desse movimento já aparece nos trabalhos técnicos submetidos ao Congresso.

Embora o processo de avaliação ainda esteja em andamento, Fernando José Borges Gomes, coordenador do Comitê Unificado de Avaliadores de Trabalhos Técnicos da ABTCP, professor adjunto e diretor do Instituto de Florestas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), identifica uma presença relevante de estudos relacionados à valorização de biomassas e resíduos.

“Ainda é uma fase preliminar, mas já podemos observar muitos trabalhos alinhados à temática do evento. Também vimos estudos sobre qualidade da madeira, processos industriais, uso de aditivos, tecnologias de monitoramento da qualidade do processo e da madeira, além de trabalhos voltados à inovação”, afirma Gomes.

Segundo ele, alguns estudos ultrapassam inclusive os limites tradicionais da produção de celulose e papel, utilizando diferentes usos das biomassas em aplicações de outras cadeias. Para o pesquisador, o movimento demonstra como conhecimentos desenvolvidos dentro da indústria florestal podem servir de referência para modelos mais amplos de aproveitamento de recursos renováveis.

A discussão remete diretamente ao avanço das biorrefinarias e ao desafio de utilizar de maneira cada vez mais integral a matéria-prima florestal. Lignina, cascas e subprodutos industriais estão entre as possibilidades que ainda demandam desenvolvimento tecnológico e construção de rotas economicamente consistentes para ampliar sua utilização em escala.

“Precisamos incrementar o uso racional e integral da biomassa. Temos que ter o mínimo possível de desperdícios”, resume Gomes.

IA avança, mas aplicação ainda é desigual entre áreas

A transformação digital representa outro eixo relevante entre os trabalhos apresentados.

Flavio Hirotaka Mine, especialista Pleno de Dados e Inteligência Artificial na Cenibra e membro do Comitê Avaliador, destaca as pesquisas relacionadas à inteligência artificial, transformação digital, automação avançada, eficiência energética e sustentabilidade.

Mais do que a presença desses temas, Mine identifica uma evolução na forma como aparecem nos estudos. “Um aspecto que chamou atenção foi o crescente nível de maturidade dos trabalhos. Observa-se uma evolução de abordagens predominantemente conceituais para aplicações com resultados comprovados em ambiente industrial, demonstrando ganhos operacionais, ambientais e econômicos”, afirma.

A leitura mostra uma mudança importante em relação aos primeiros ciclos de transformação digital da indústria. Sensores inteligentes, integração de sistemas, análises avançadas e modelos baseados em inteligência artificial vêm deixando de funcionar apenas como experimentos tecnológicos para assumir funções ligadas diretamente à eficiência dos processos e à tomada de decisão.

“A capacidade de transformar dados em conhecimento e conhecimento em ação tornou-se um fator importante para a competitividade e para a sustentabilidade de longo prazo das empresas do setor”, destaca Mine.

A disseminação, entretanto, ainda não ocorre de maneira uniforme. Afonso Pereira, gerente de Tecnologia na Ibase e também membro do Comitê Avaliador, chama atenção para uma lacuna específica entre os trabalhos que analisou na área de Recuperação e Utilidades.

“Especificamente sobre os trabalhos da área de Recuperação e Utilidades, senti falta daqueles que utilizam ferramentas de inteligência artificial, como data Minite, machine learning ou modelos preditivos avançados. Minha percepção é que em 2025 tivemos uma presença um pouco maior de artigos técnicos nessa linha”, relata.

O ponto é particularmente relevante porque Recuperação e Utilidades concentra grandes volumes de dados históricos de processo e, segundo Pereira, possui características que favorecem aplicações relacionadas à previsão de falhas, otimização de consumo específico e antecipação de desvios operacionais.

A percepção não contradiz necessariamente o avanço identificado por Mine no conjunto dos trabalhos, mas revela que a incorporação da inteligência artificial pode estar avançando em ritmos diferentes dentro da própria indústria. Para Afonso, isso representa também uma oportunidade para futuras pesquisas e aplicações industriais.

Bioeconomia além da celulose

A ampliação das possibilidades de uso da base florestal é outro ponto em comum nas avaliações dos especialistas.

Mine considera que a celulose continuará ocupando posição fundamental na indústria, mas vê espaço para ampliar a geração de valor por meio de biocombustíveis, biomateriais, química renovável, energia limpa e outras soluções de origem florestal.

Esse desenvolvimento tende a ganhar relevância à medida que empresas buscam combinar competitividade com redução de emissões e substituição de matérias-primas fósseis.

Na avaliação de Afonso, entretanto, o fortalecimento da bioeconomia brasileira não depende apenas da criação de novas rotas tecnológicas. Parte do desafio está em preservar vantagens que a indústria já construiu.

“A chamada bioeconomia está no cerne do nosso negócio. Partimos de insumos renováveis, com ciclos de crescimento únicos no mundo, o que nos dá uma grande vantagem competitiva em relação aos nossos concorrentes”, afirma.

Para ele, produtividade florestal, maior valorização dos subprodutos e ambiente regulatório adequado serão elementos determinantes para a manutenção dessa posição. “Regulação bem construída pode até reforçar a nossa posição; regulação mal calibrada nos tira exatamente a vantagem que levamos décadas para construir”, acrescenta.

A análise também coloca no debate o uso mais eficiente dos ativos industriais existentes.

Pereira aponta que fabricantes e fornecedores têm papel importante não apenas no desenvolvimento de novas tecnologias, mas também na elevação da disponibilidade dos equipamentos, redução do consumo específico de energia e insumos, recuperação e extensão da vida útil dos ativos e aumento da capacidade produtiva dentro de instalações já existentes.

“A lógica é buscar maior geração de valor com menor demanda adicional de recursos. Cada um desses movimentos aproveita melhor o ativo já instalado, que é, no fim das contas, o que a bioeconomia pede de nós”, ressalta Pereira.

Tecnologia não elimina desafios relacionados às pessoas

A transformação da indústria também começa a colocar novas questões para a organização das equipes.

Afonso chama atenção para a combinação entre escassez de mão de obra qualificada, estruturas mais enxutas e aumento do número de demandas que chegam aos profissionais.

“A indústria está cada vez mais pressionada, tanto pela escassez de recursos humanos qualificados quanto pela dispersão no foco das atividades de gestão. As equipes ficaram mais enxutas e, ao mesmo tempo, o volume de demandas concorrentes cresceu”, analisa.

Nesse ambiente, segundo ele, um dos desafios passa a ser garantir que profissionais técnicos consigam preservar tempo e foco para atividades diretamente relacionadas à geração de resultado, em vez de atuar permanentemente na resolução de urgências.

A discussão se conecta à própria transformação do perfil profissional esperado pela indústria.

Mine avalia que conhecimentos relacionados à engenharia, automação, sustentabilidade, dados, inteligência artificial e inovação precisam ser acompanhados por competências como colaboração, comunicação, capacidade de adaptação, resiliência e inteligência emocional. “A velocidade das mudanças exige disposição para o aprendizado contínuo e capacidade de adaptação a novos cenários”, afirma.

Para Pereira, uma base sólida de processos e fundamentos de engenharia continua sendo essencial, justamente porque ferramentas tecnológicas tendem a mudar com rapidez. “As ferramentas mudam, os fundamentos não”, resume.

O executivo também identifica um gap entre os objetivos das gerações mais experientes e as expectativas dos profissionais que começam a ingressar na indústria, diferença que poderá se tornar mais evidente conforme ferramentas de inteligência artificial alterem produtividade, atividades e modelos de trabalho.

Na avaliação dele, a adaptação será uma das principais competências para atravessar esse período de transição.

Aproximação entre indústria e academia

Nesse cenário de transformação tecnológica e profissional, a aproximação entre academia e setor produtivo ganha uma função particularmente importante.

Gomes avalia que universidades possuem capacidade científica e ferramentas analíticas para contribuir com diferentes desafios do setor, mas dependem da proximidade com as operações para compreender quais problemas precisam ser solucionados.

“A universidade tem uma grande capacidade técnico-científica e ferramentas analíticas avançadas, mas é importante que saiba quais são os reais desafios do dia a dia industrial para entender como pode auxiliar. Por isso, essa aproximação entre academia e indústria, que o Congresso possibilita, é fundamental”, afirma.

O fluxo ocorre nos dois sentidos. Enquanto os problemas industriais podem orientar pesquisas e desenvolvimento tecnológico, a aproximação também contribui para que universidades compreendam quais competências serão exigidas dos profissionais que chegarão às empresas nos próximos anos.

Para estudantes e recém-formados, essa interação permite observar possibilidades de carreira, acompanhar demandas técnicas da indústria e estabelecer contato com empresas e especialistas. Para profissionais que já estão no setor, experiências compartilhadas podem revelar soluções adotadas em outras operações para desafios semelhantes.

Afonso destaca justamente essa capacidade de comparar diferentes realidades como uma das características mais relevantes do encontro. “O Congresso da ABTCP segue sendo uma ferramenta de conexão dos profissionais do setor com as novas tecnologias e um espaço privilegiado para verificar como o setor está caminhando, não só no aspecto tecnológico, mas também no aspecto mais estratégico do nosso negócio”, afirma.

Segundo ele, concentrar em poucos dias experiências provenientes de fábricas, fornecedores e universidades permite que os participantes comparem essas referências com os desafios encontrados nas próprias operações.

“Para quem atua em processos produtivos que evoluem de forma contínua, essa troca direta com quem está enfrentando os mesmos desafios têm um valor que nenhuma outra fonte de informação substitui”, acrescenta.

Gomes também ressalta que a amplitude de áreas representadas no Congresso cria oportunidades diferentes conforme o estágio da carreira. “Você nunca volta da mesma forma, sempre adquire conhecimento. É uma possibilidade de ter visões de futuro”, afirma. “Além disso, você tem o networking, porque fazer essas conexões com pessoas de diferentes áreas da indústria, florestal, industrial, comercial e tecnologia, em um mesmo ambiente é raríssimo.”

Em um setor no qual avanços científicos, tecnologias digitais, aproveitamento de biomassa e mudanças na formação profissional passam a acontecer simultaneamente, o Congresso busca justamente colocar essas diferentes dimensões em uma mesma discussão.

Como sintetiza Mine, acompanhar essa transformação depende cada vez mais da capacidade de conectar conhecimento, tecnologia, inovação e pessoas.

Serviço

58º Congresso Internacional de Celulose e Papel – ABTCP 2026

Tema: O Fortalecimento da Bioeconomia de Base Florestal
Data: 6 a 8 de outubro de 2026
Local: Transamerica Expo Center
Endereço: Av. Dr. Mário Vilas Boas Rodrigues, 387 – Santo Amaro – CEP 04757-020 – São Paulo/SP – Brasil

Sessão de Abertura
6 de outubro – das 10h às 12h

Congresso
Credenciamento e retirada de material a partir das 8h
6 de outubro – das 13h às 17h
7 e 8 de outubro – das 9h às 17h

Condições de inscrição
– Inscrições realizadas até 15 de setembro recebem 10% de desconto
– A cada 10 inscrições pagas, a empresa tem direito a 1 inscrição gratuita, válida para os três dias
– Todas as inscrições pagas incluem almoço durante os dias do Congresso
– Participantes inscritos recebem acesso gratuito ao ABTCPFlix até dezembro de 2026

Inscrições:

https://inscricaoeletronica.app.br/abtcp2026/congresso/?lang=pt
avatar do autor
Fernanda Capo
Advogada formada na Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Jornalismo Digital pela Fundação Casper Líbero.

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