Entre crescimento e disciplina, indústria de base florestal entra em novo ciclo

Conferência da Fastmarkets expõe um mercado marcado pela resiliência da demanda, excesso de capacidade em alguns segmentos, pressão sobre custos e uma disputa cada vez mais intensa por competitividade

O mercado de produtos florestais atravessa uma fase de transição em que as oportunidades continuam existindo, mas já não podem ser dissociadas de uma equação mais complexa, ou seja, onde está a demanda, quanto custa atendê-la e quais ativos ainda conseguem gerar retorno em um ambiente de maior competição?

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Essa foi, em essência, uma das principais mensagens deixadas pela Fastmarkets Forest Products Latin America Conference 2026, realizada em São Paulo nos dias 11 e 12 de agosto. Ao longo dos dois dias, analistas da Fastmarkets, agência de divulgação de preços para precificação, notícias e análise de mercados de commodities, e executivos de diferentes elos da cadeia discutiram desde as perspectivas para celulose e papel até embalagens, tissue, fibras alternativas, madeira e os efeitos da reorganização das relações comerciais globais.

O cenário apresentado está longe de ser homogêneo. Enquanto a demanda por alguns produtos permanece resiliente e determinadas regiões continuam adicionando capacidade, outros mercados convivem com excesso de oferta, estoques elevados e taxas de operação abaixo dos níveis históricos.

Na celulose, a diferença entre fibra longa e fibra curta tornou-se ainda mais evidente. Em papéis gráficos, a queda estrutural da demanda continua exigindo fechamento de capacidades. Em embalagens, o crescimento existe, mas a pergunta passa a ser se ele será suficiente para absorver a oferta adicional. No tissue, a pressão de custos força fabricantes a buscar escala, diversificação, integração e maior sofisticação comercial.

Por trás de todas essas discussões há uma transformação ainda maior: a geografia do comércio mundial está mudando.

Rafael Barisauskas, head of analytics e research manager da Fastmarkets para a América Latina, mostrou que a China ampliou sua participação nas relações comerciais com a América Latina em 2025, enquanto a participação dos Estados Unidos recuou. A fatia chinesa chegou a 47,2%, três pontos percentuais acima do ano anterior, enquanto a norte-americana caiu para 52,8%.

Não se trata apenas de uma mudança estatística. É uma transformação que altera fluxos de produtos, investimentos, matérias-primas e estratégias empresariais.

Conforme o executivo da agência, o mundo caminha para uma configuração mais multipolar, na qual segurança de abastecimento, proximidade dos mercados e controle das cadeias de valor ganham peso diante da lógica de eficiência global que predominou nas últimas décadas.

É nesse ambiente que a indústria de papel e celulose precisa decidir onde crescer e, principalmente, onde não crescer. Na apresentação “Perspectivas Globais da Celulose: uma crescente divisão entre fibra longa e fibra curta (Global Pulp Outlook: A growing softwood-hardwood divide)”, Patrick Cavanagh, diretor de Market Insights, Pulp da Fastmarkets, mostrou que 2026 consolidou uma diferença cada vez mais acentuada entre os mercados de fibra longa e fibra curta. A indústria global de celulose de fibra longa Bleached Softwood Kraft Pulp (BSK), excluindo fluff, convive com uma deterioração estrutural da relação entre oferta e demanda.

Desde 2019, o gap entre capacidade e demanda de BSK para papéis cresceu 1,3 milhão de toneladas, chegando a aproximadamente 3 milhões de toneladas. A demanda vem sendo pressionada por fatores como o elevado custo da madeira, a integração em mercados consumidores, a retração dos papéis de imprimir e escrever e a substituição de fibra longa por fibra curta.

O desequilíbrio também aparece nos estoques. “Em maio de 2026, o excesso de inventário de BSK chegava a cerca de 620 mil toneladas, volume equivalente à produção anual de uma a duas fábricas médias de fibra longa”, apontou o diretor.

Neste sentido, Cavanagh indicou que a correção do mercado passa por mais do que uma recuperação pontual da demanda. “Novas interrupções ou fechamentos de capacidade devem ser necessários para que a indústria alcance uma condição mais sustentável a partir de 2027”, afirmou.

A perspectiva é que mais de 1,3 milhão de toneladas de capacidade de BSK para papéis e mais de 2,2 milhões de toneladas de oferta celulose de fibra curta Bleached Hardwood Kraft Pulp (BHK) estarão ausentes do mercado em 2026, considerando fechamentos, conversões, migrações de produto e outros movimentos de capacidade. No caso da fibra longa, os fechamentos são a principal fonte de redução; já para a fibra curta, o downtime econômico vem ajudando a equilibrar os estoques.

A consequência é uma indústria de BSK potencialmente menor, porém mais ajustada. No caso da fibra curta, entretanto, a história é diferente. A BHK continua recebendo novas capacidades, principalmente na Ásia. No último ano, a China adicionou 2,5 milhões de toneladas de celulose e em 2026 adicionará mais 500 mil toneladas de capacidade.

Para os próximos dois anos, a previsão é de outras 2,5 milhões de toneladas de capacidade de BHK, enquanto a Indonésia deverá incorporar outros 2,8 milhões de toneladas. Esse movimento coloca uma variável adicional no centro da discussão: a disponibilidade de madeira.

infografico fastmarkets
Fonte Dados da conferência da Fastmarkets

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Thais Negri Santi

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