A escalada das tensões no Oriente Médio ganhou um novo capítulo após autoridades iranianas afirmarem nesta semana que o Estreito de Ormuz foi fechado para navegação, uma das rotas marítimas mais estratégicas da indústria no comércio global. A declaração foi feita pelo general Ebrahim Jabbari, assessor do comandante da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, segundo a emissora estatal iraniana IRIB, que afirmou que embarcações que tentarem atravessar a região poderão ser atacadas.
A medida seria uma retaliação pela morte do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, e elevou as preocupações sobre possíveis impactos nas cadeias globais de suprimentos. Embora grande parte das análises iniciais esteja concentrada nos efeitos sobre os mercados de petróleo e gás, setores industriais intensivos em energia e logística, como a indústria global de celulose e papel, também podem sofrer consequências relevantes.
Localizado entre o Golfo Pérsico e o Mar Arábico, o Estreito de Ormuz é considerado um dos principais gargalos logísticos do comércio mundial. Segundo análise da consultoria ResourceWise, cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente, quase um terço do gás natural liquefeito (GNL) e aproximadamente 2% a 3% do tráfego global de contêineres passam pela rota, que conecta hubs estratégicos como Jebel Ali, nos Emirados Árabes Unidos, e Khor Fakkan.
Uma interrupção prolongada no fluxo de embarcações poderia provocar efeitos em cadeia no comércio internacional, pressionando custos logísticos, preços de energia e cadeias globais de matérias-primas, fatores diretamente relevantes para o setor de celulose e papel.
Logística marítima e comércio global de celulose
A indústria de celulose depende fortemente do transporte marítimo para conectar grandes regiões produtoras e consumidoras de fibra. Exportadores como Brasil, Canadá, Suécia e Finlândia abastecem principalmente mercados asiáticos, incluindo China, Índia, Japão e Coreia do Sul, onde se concentra grande parte da produção mundial de papel.
De acordo com a ResourceWise, um bloqueio ou restrição prolongada na navegação pelo Estreito de Ormuz poderia provocar atrasos logísticos e aumento significativo nos custos de transporte. Episódios recentes de interrupção em rotas estratégicas, como no Canal de Suez, chegaram a adicionar entre 10 e 12 dias ao tempo de viagem em algumas rotas marítimas.
Além disso, embarcações que operam na região do Golfo tendem a enfrentar aumento nos custos de seguro devido aos chamados prêmios de risco de guerra, elevando ainda mais o custo do transporte internacional.
Para empresas de celulose e papel, esse cenário pode resultar em fretes mais caros, maior imprevisibilidade logística e atrasos na entrega de matérias-primas e produtos acabados.
Energia mais cara e pressão sobre custos industriais
Outro fator relevante é o impacto sobre os preços da energia. A escalada do conflito já provocou alta no preço do petróleo nos mercados internacionais. Segundo dados citados pelo G1, a commodity acumula valorização de 27,5% em relação ao fim de 2025, quando era negociada próxima de US$ 60 por barril.
Para André Braz, coordenador dos índices de preços do FGV Ibre, quanto mais prolongado for o conflito e maior o risco para o fluxo global de petróleo, maior tende a ser a pressão de alta sobre os preços.
De acordo com a ResourceWise, um fechamento do Estreito de Ormuz poderia elevar o preço do petróleo para níveis entre US$ 100 e US$ 150 por barril, além de pressionar os preços do gás natural liquefeito.
Regiões dependentes de energia proveniente do Golfo, como China, Índia e parte da Europa, poderiam enfrentar aumentos expressivos nos custos operacionais das fábricas.
Além disso, insumos químicos relevantes para a produção de papel, como soda cáustica e metanol, frequentemente produzidos ou comercializados na região do Golfo, poderiam sofrer encarecimento ou interrupções de fornecimento.
Frete marítimo e logística global entram no radar do setor
Além da pressão sobre os custos de energia, analistas apontam que a instabilidade no Estreito de Ormuz pode gerar efeitos relevantes sobre o transporte marítimo global, um elemento central para a cadeia internacional de celulose e papel.
Segundo a ResourceWise, interrupções em rotas marítimas estratégicas tendem a provocar não apenas atrasos logísticos, mas também aumento significativo nos custos de frete. Em situações recentes de disrupção em corredores comerciais globais, como no Canal de Suez, o tempo médio das viagens marítimas chegou a aumentar entre 10 e 12 dias.
Além disso, embarcações que operam em regiões consideradas de risco geopolítico enfrentam aumento relevante nos prêmios de seguro marítimo, conhecidos como war risk premiums.
No caso do Brasil, os impactos logísticos podem se estender também ao transporte terrestre. O aumento no preço do petróleo tende a pressionar o custo do diesel, afetando diretamente operações mecanizadas nas florestas plantadas, transporte rodoviário de madeira e a logística de escoamento da produção até os portos, etapas essenciais da cadeia produtiva do setor.
Impactos por segmento do setor
No caso da celulose de mercado, exportadores podem enfrentar aumento nos custos logísticos e possíveis atrasos no envio de cargas para a Ásia, principal destino da fibra produzida por países como Brasil, Canadá, Suécia e Finlândia. Ao mesmo tempo, compradores asiáticos podem buscar diversificar fornecedores para reduzir riscos logísticos associados a rotas mais sensíveis no Oriente Médio, o que poderia ampliar a demanda por celulose proveniente de regiões como América do Sul, América do Norte e Escandinávia.
Para o segmento de papéis para embalagem, os impactos tendem a ocorrer principalmente por meio do aumento dos custos logísticos globais. A elevação do frete marítimo e eventuais gargalos no transporte internacional podem afetar cadeias de abastecimento que dependem de papelão ondulado, especialmente nos setores de comércio eletrônico, alimentos e bens de consumo. Ainda assim, a demanda por embalagens tende a permanecer relativamente resiliente por estar associada ao transporte e distribuição de produtos essenciais.
No caso do tissue e papéis sanitários, o impacto mais relevante deve ocorrer pelo lado dos custos de produção. A elevação dos preços de energia, transporte e insumos industriais pode pressionar as margens de fabricantes de produtos como papel higiênico, toalhas de papel e guardanapos. Por outro lado, a natureza essencial desses produtos tende a manter a demanda relativamente estável, permitindo que parte dos custos adicionais seja repassada ao consumidor.
Já o segmento de papéis gráficos pode ser um dos mais sensíveis a um cenário de inflação de custos. Categorias consideradas mais discricionárias, como papéis para impressão e mídia gráfica, tendem a sofrer mais em contextos de aumento de preços e desaceleração econômica, o que pode acelerar tendências de retração no consumo já observadas nos últimos anos.
Impactos indiretos para o Brasil
Para o Brasil, um dos principais exportadores globais de celulose, os impactos podem ocorrer principalmente por meio da logística internacional e do aumento de custos operacionais.
A elevação do preço do petróleo tende a pressionar o custo do diesel, afetando tanto o transporte rodoviário quanto as operações florestais.
Além disso, o encarecimento de fertilizantes pode impactar atividades agrícolas e florestais. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) citados pelo G1, adubos e fertilizantes químicos representaram 93,5% das importações brasileiras provenientes do Irã em janeiro deste ano.
Por outro lado, a relativa estabilidade climática e logística da América do Sul pode reforçar a posição da região como fornecedora estratégica de fibra para mercados internacionais em momentos de maior volatilidade geopolítica.
Oferta global e dinâmica do mercado
Ao mesmo tempo, o mercado global de celulose já vinha acompanhando preocupações com a disponibilidade de oferta.
Segundo análise da Fastmarkets RISI, mudanças recentes na política florestal da Indonésia podem afetar cerca de 1 milhão de hectares de plantações, o que poderia resultar em uma redução anualizada de aproximadamente 4 milhões de toneladas na oferta global de celulose.
Traders ouvidos pela consultoria afirmaram que grupos asiáticos como APP e APRIL já vêm adquirindo volumes significativos de celulose kraft de fibra curta branqueada (BHK) da América do Sul para revenda na China.
Analistas do Bradesco BBI apontam que as preocupações com a oferta têm sustentado o momentum positivo do setor e podem favorecer novas iniciativas de aumento de preços no mercado.



