Agenda climática amplia oportunidades para a indústria florestal

Mercado regulado de carbono, financiamento climático e bioprodutos reforçam as perspectivas para o setor de papel e celulose na transição para uma economia de baixo carbono

A agenda climática internacional entra em uma nova fase após a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Se nas últimas conferências o foco esteve na negociação de metas e compromissos, o momento agora é de acelerar a implementação das soluções já acordadas. Para a indústria brasileira de base florestal, esse cenário amplia as oportunidades de protagonismo, tanto pela capacidade de fornecer produtos renováveis quanto pelo potencial de contribuir para a descarbonização da economia. 

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Essa foi uma das principais mensagens debatidas durante encontro promovido pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil, a Amcham sobre os preparativos para a COP31. Entre os temas abordados estiveram a continuidade da Agenda de Ação lançada na COP30, a regulamentação do mercado brasileiro de carbono (SBCE) e o avanço do Tropical Forest Forever Facility (TFFF).

Além de discutir os preparativos para a COP31, a programação contou com painéis sobre o legado da COP30, mercado regulado de carbono, biocombustíveis, financiamento climático e estratégias empresariais para a transição de baixo carbono. De acordo com dados da Mordor Inteliggence, o mercado de créditos de carbono é avaliado em US$ 1,21 trilhões, e pode chegar até a US$ 5,91 trilhões em 2031, com o avanço das regulamentações, sinalizando um grande potencial econômico para o setor de base florestal.

Florestas plantadas ganham espaço na agenda climática 

Em entrevista ao Newspulpaper, Ana Toni, Diretora-Executiva da COP30 e uma das painelistas do evento, destacou que a COP30 representou uma mudança na forma como o setor florestal passou a ser tratado nas negociações climáticas internacionais.

“Historicamente, o debate florestal nas COPs sempre esteve muito focado em como reduzir o desmatamento, o que é absolutamente fundamental, mas começamos a mostrar que a gestão florestal, as florestas plantadas e os sistemas agroflorestais também são soluções climáticas. Acredito que conseguimos reposicionar esse debate”, destaca a executiva.

Diante desse cenário, essa mudança amplia o reconhecimento das contribuições do setor privado e reforça o papel da indústria florestal na oferta de soluções capazes de combinar conservação, produção e remoção de carbono.

Mercado de carbono entra em fase decisiva

O evento ocorreu enquanto o governo avança na regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Nesse sistema, é estabelecido um limite para emissões de gases de efeito estufa (GEE) e são distribuídos a agentes regulados, de forma gratuita ou
onerosa, ativos representativos do direito de emissão de 1 tCO₂e (uma tonelada de dióxido de carbono equivalente). Esses ativos são chamados de Cotas Brasileiras de Emissões (CBEs). Os agentes que emitirem menos do que suas cotas poderão vender as CBEs excedentes, e os que emitirem mais precisarão comprar esses direitos de emissão. Desse modo, geram-se incentivos econômicos para as empresas cumprirem compromissos ambientais e emitirem cada vez menos.

O SBCE está em fase de regulamentação e deve começar a ser implementado de forma gradual a partir de 2027. Como parte do cronograma de estruturação, o Ministério da Fazenda abriu, em 28 de julho, consulta pública para discutir a cobertura setorial inicial e o cronograma do Monitoramento, Relato e Verificação (MRV) das emissões de gases de efeito estufa. As contribuições podem ser enviadas até 28 de agosto.

Para Clara Cruz, Gerente Executiva de Sustentabilidade da Suzano, o momento é oportuno para que o setor privado ajude a construir o mercado regulado de carbono “Este é o momento de participar, construir junto, explicar ao governo quais são as especificidades de cada negócio e de cada setor. A regulação vai acontecer, e é importante que cada indústria se reconheça no sistema ao final desse processo”, aponta. 

No caso da indústria de papel e celulose, uma das principais preocupações é garantir que o modelo integrado entre floresta e indústria seja reconhecido pelo sistema regulatório, refletindo adequadamente as características do setor. “Buscamos entender quais são as oportunidades e os riscos desse sistema e como garantir que o nosso modelo de negócio – que integra floresta e indústria – seja reconhecido dessa forma dentro do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões”, reforça a gerente. 

A expectativa é que toda a regulamentação seja concluída até o fim do ano, permitindo a operacionalização do mercado brasileiro e ampliando sua integração com mercados internacionais.

Substituição de materiais fósseis amplia oportunidades

Os debates também apontaram que o mercado de carbono representa apenas uma das oportunidades para a indústria de base florestal.

Com o avanço de regulamentações voltadas à redução do uso de plásticos de uso único e à substituição de materiais de origem fóssil, produtos derivados da madeira e da celulose tendem a ganhar espaço em diferentes segmentos da economia.

“Vejo regulamentações internacionais capazes de impulsionar esse novo mercado e novos modelos de negócio, mas também regulamentações nacionais, principalmente relacionadas à redução do uso de plásticos de uso único”, observa Ana Toni.

Nesse contexto, as florestas plantadas passam a desempenhar um papel estratégico por fornecerem matéria-prima renovável capaz de armazenar carbono ao longo de seu ciclo produtivo e substituir insumos intensivos em combustíveis fósseis. 

“Além da conservação e do cultivo de florestas plantadas, temos produtos finais que contribuem para substituir materiais de origem fóssil. Essa combinação fortalece o posicionamento competitivo do setor, e acredito que devemos aproveitar cada vez mais essa característica”, completa Clara Cruz.

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TFFF busca ampliar financiamento para conservação

Durante o encontro também foram apresentados avanços do Tropical Forest Forever Facility (TFFF), mecanismo financeiro lançado durante a COP30 para ampliar os recursos destinados à conservação das florestas. O mecanismo já reúne cerca de US$ 6,7 bilhões em compromissos de financiamento e tem como meta alcançar US$ 10 bilhões em sua primeira etapa de captação. 

“É um instrumento econômico muito inovador e, como qualquer inovação, leva um pouco mais de tempo para que as pessoas entendam como funciona e de que forma poderão se beneficiar. Mas ele é extremamente importante porque utiliza recursos concessionais em um modelo blended finance, capaz de alavancar cerca de US$ 150 bilhões”, explica a diretora-executiva. “Esse é o grande diferencial do instrumento, não se trata de uma doação de países, mas de um investimento em conservação florestal. Até hoje não existia um mecanismo com essas características”.

Baseado em uma estrutura de blended finance, o TFFF combina recursos concessionais para mobilizar investimentos privados destinados à conservação das florestas, remunerando quem mantém a floresta em pé. O mecanismo é independente e não integra políticas específicas do governo brasileiro.

Nesse sentido, o mecanismo reforça o reconhecimento econômico das florestas como ativos climáticos. Para a indústria de base florestal, esse movimento fortalece a agenda de valorização das soluções baseadas na natureza e amplia o ambiente favorável para investimentos em bioeconomia, manejo sustentável e mercados relacionados ao carbono.

Brasil prepara transição para a COP31 

Dividida entre Turquia e Austrália, a COP31 acontece em novembro. Segundo Ana Toni, o Brasil tem oferecido uma “passagem de bastão” muito próxima. “Fizemos com eles aquilo que gostaríamos que tivessem feito conosco desde o início: compartilhar os acertos, os erros e os aprendizados do processo para que possam aproveitar essa experiência e desenvolver a própria trajetória”.

Conforme destacou a diretora-executiva da COP30, a expectativa é que a COP31 seja uma oportunidade para apresentar resultados concretos da agenda construída durante a presidência brasileira da conferência. Para a indústria de base florestal, isso significa ampliar a visibilidade de projetos relacionados à bioeconomia, ao mercado de carbono, às florestas plantadas e ao desenvolvimento de materiais renováveis, reforçando o posicionamento do Brasil como provedor de soluções climáticas. 

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Bianca Machado Jornalista
Bianca Machado é jornalista, pós-graduada em Gestão da Comunicação Digital e Mídias Sociais e desde 2021 escreve sobre os mercados de papel e celulose.

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