O modelo atual de produção de papel no Brasil é competitivo frente ao mercado internacional? Partindo desta questão, os membros da Comissão Técnica de Papel da ABTCP realizaram uma série de encontros e debates ao longo do ano sobre o futuro deste segmento. As principais conclusões foram apresentadas hoje na mesa-redonda sobre o tema durante o ABTCP-PI 2009. Participaram da mesa do evento, além do moderador e coordenador da Comissão Técnica de Papel, Julio Costa (SMI), Marcelino Sacchi (Fibria), Francisco Saliba (Bracelpa), André da Hora (BNDES), Rodrigo Kalinowski (BNDES) e o convidado Mauricio Porto.
Ficou claro que o segmento papeleiro ainda tem diversas barreiras a serem vencidas, como aspectos fiscais e financeiros (dentre eles o desvio de papéis imunes e os impostos e taxas que incidem em toda cadeia), questões relacionadas ao meio ambiente (principalmente a falsa imagem do papel como “devastador de florestas”), à oferta e demanda de energia, à logística, aos equipamentos (como máquinas concebidas para fibra longa) e à carência de mão-de-obra especializada.
“Dentre todos os desafios, os maiores estão relacionados às dificuldades de logística e à carga tributária. Para se ter uma idéia, hoje a carga de tributos sobre os investimentos chega a 17%”, aponta Saliba. Em relação à logística, Costa dá um exemplo intrigante: a Finlândia consegue viabilizar a entrega de papel na Argentina mais facilmente do que nós faríamos de Arapoti, no Paraná.
O consumo per capita de papel hoje no Brasil é outro ponto que merece atenção. De acordo com Saliba, nosso consumo anual é de 45 kg de papel. “No Chile este número está por volta de 60 kg. Se apenas atingíssemos este nível já aumentaríamos a demanda em 4 milhões de toneladas”, projeta o executivo.
Mas também há pontos positivos a serem destacados. “Nosso conhecimento na fabricação de papel 100% de fibra curta de eucalipto é uma fonte de competitividade muito importante”, destaca Costa. Ele também ressalta que, apesar das diversas barreiras existentes, nenhuma delas pode ser considerada intransponível.
E como fazer então para superar estes desafios, evidenciando os pontos fortes e colocando o Brasil em uma posição de destaque no mercado mundial de papel? A Comissão Técnica de Papel da ABTCP propõe, para este fim, a formação de um Arranjo Produtivo Internacional de Papéis no Brasil. Trata-se de uma proposta ousada, que demandaria uma análise criteriosa e a união de diversos players do mercado, inclusive estrangeiros. “Para operacionalizar este trabalho, a sugestão é que seja criado um Grupo Técnico-Executivo focado em fomentar o Arranjo Produtivo Internacional de Papéis no Brasil, liderado pelas entidades do setor”, destaca Costa.
O esforço será grande, mas o momento exige que uma ação do tipo seja tomada, a fim de que o Brasil não perca as oportunidades existentes. “Temos de mirar os mercados exportadores, já que o mercado nacional não tem capacidade nenhuma de absorver mais uma máquina de papel. Não podemos usar como desculpa o mito de que o mercado consumidor precisa necessariamente estar perto das fábricas. Basta vermos o caso da China, que é um dos maiores exportadores de papel do mundo. Se não fizermos isso, as empresas estrangeiras virão aqui e farão”, afirma Rodrigo Kalinowski, do BNDES.
Quanto ao apoio do Banco ao segmento, André da Horta é contundente: “O BNDES tem um papel secundário, mas estará pronto para novos investimentos a partir do momento em que aspectos como o aumento do consumo, a logística e a tributação forem tratados no segmento. E esperamos realmente que novos projetos de papel cheguem até nós”, afirma. “O Banco está em uma fase muito boa e tem recursos disponíveis, tanto para celulose quanto para papel, já que o orçamento não é limitado por setor da indústria”, completa Kalinowski.



