O setor de papel e celulose avança em 2026 em um ambiente de custos mais altos, marcado por fretes pressionados, energia volátil e maior incerteza logística. O conflito no Oriente Médio adicionou uma nova camada de complexidade ao cenário global, especialmente no transporte marítimo e no preço do bunker. Ainda assim, o impacto sobre o setor tem sido menor do que em outras cadeias porque a celulose depende menos de rotas concentradas no Golfo e opera com contratos logísticos mais diversificados. Além disso, trata-se de uma indústria intensiva em ativos, mas com menor exposição a insumos críticos provenientes da região.
Esses fatores ajudam a explicar por que o Oriente Médio funciona como um agravante — não como o elemento que molda o ciclo recente da celulose. A dinâmica global de oferta e demanda, e não a conjuntura geopolítica, é o que mais define o momento atual.
O mercado de papel segue pressionado pelos custos de energia e logística, mas mantém fundamentos sólidos. Segmentos como embalagens, tissue e papéis industriais continuam em expansão, impulsionados pelo e-commerce, pelo agronegócio, pelo consumo doméstico e por mercados emergentes. Associações internacionais registraram crescimento da produção e dos preços globais em 2025, e grandes fabricantes reportaram margens positivas e volumes recordes.
Porém, tratar “papel e celulose” como um único bloco não reflete a realidade. Na celulose de mercado, o cenário é distinto — e começou ainda em 2024, quando o preço da celulose branqueada de fibra curta (BHKP) recuou de US$ 745 para US$ 495 por tonelada, uma queda de 34% em pouco mais de um ano, segundo instituições como Rabobank, Fastmarkets e SunSirs. No fim de 2025, houve uma recuperação parcial para cerca de US$ 540 por tonelada, mas ainda distante dos níveis anteriores. Esse movimento antecede a escalada geopolítica e tem duas origens principais.
A primeira é a entrada em operação de grandes capacidades globais de celulose, que ampliaram a oferta de forma significativa a partir de 2024. Projetos greenfield de grande escala adicionaram milhões de toneladas ao mercado internacional, aumentando a disponibilidade de fibra curta em um ritmo superior ao crescimento da demanda.
A segunda é a transformação profunda da indústria chinesa. Desde 2021, fabricantes de papel na China vêm instalando suas próprias linhas de produção de celulose, aproveitando excedentes de madeira e buscando reduzir a dependência de importações. Até 2027, o país deve acrescentar 5 milhões de toneladas de BHKP produzidas internamente, substituindo compras externas e reduzindo a demanda por celulose de mercado.
O movimento de queda dos preços, iniciado em meados de 2024, reflete um descompasso claro: a oferta global cresceu mais rápido do que a demanda conseguia absorver. Esse desequilíbrio elevou a pressão sobre os custos industriais. Em 2026, o custo caixa global da BHKP está entre US$ 430 e US$ 470 por tonelada para produtores mais eficientes — cerca de US$ 40 a US$ 60 acima dos níveis de 2024 — enquanto regiões de maior custo superam US$ 500 por tonelada.
Nesse ambiente, empresas com estruturas mais competitivas tendem a atravessar o ciclo de preços baixos em posição mais sólida, enquanto produtores de maior custo enfrentam risco crescente de redução ou fechamento de capacidade. O conflito no Oriente Médio intensificou esse quadro ao elevar o preço do Brent, que acumula alta superior a 25% em 2026, e dos fretes marítimos, que subiram entre 18% e 30% em diversas rotas globais. Esses custos afetam energia, bunker, insumos químicos e equipamentos industriais, mas funcionam como agravantes — não como causa da queda estrutural dos preços da celulose.
Esse diagnóstico tem implicações diretas para a gestão industrial. Se o desafio fosse apenas conjuntural, como a volatilidade logística decorrente do Oriente Médio, bastaria aguardar a normalização dos fretes. Contudo, diante de um movimento de mercado mais profundo e competitivo, a resposta também precisa ser de longo prazo.
Portfólios de projetos devem ser reavaliados com foco em custo de produção por tonelada, e não apenas em Capex. Paradas programadas e modernizações tornam-se instrumentos essenciais de eficiência operacional. Decisões de expansão de capacidade precisam ser calibradas com o ciclo de recuperação projetado para 2027. Já as operações de papel, com fundamentos positivos, podem avançar com mais segurança.
Em operações de grande contrato — com ciclos longos de investimento, paradas críticas e fornecedores internacionais —, a capacidade de ajustar prioridades com base no diagnóstico correto é o que separa gestão reativa de gestão estratégica. É nesse ponto que engenharia e gestão de projetos assumem papel decisivo: são elas que transformam volatilidade em planejamento, pressão de custos em produtividade e incerteza em resiliência operacional. Em um setor intensivo em capital, a qualidade da execução e da governança técnica é tão determinante quanto o próprio ciclo de mercado.
A pressão atual sobre os preços da celulose decorre principalmente do excesso de oferta global e da rápida evolução produtiva chinesa. Conflitos geopolíticos afetam custos e aumentam volatilidade, mas não explicam sozinhos o redesenho do mercado internacional. Reconhecer essa dinâmica — e agir com base nela — é o ponto de partida para decisões industriais mais eficientes, estratégicas e sustentáveis no setor florestal.



