Uma tecnologia patenteada pela startup Hardera, empresa-filha da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), amplia a resistência e a durabilidade de espécies de madeira de reflorestamento, como pínus e eucalipto, conferindo a elas características comparáveis às madeiras nobres, hoje protegidas por legislação ambiental em inúmeros países e não mais exploradas comercialmente.
“Trata-se de uma solução química que não é agressiva ao meio ambiente e é capaz de densificar as células da madeira, aprimorando as propriedades físicas de tipos de madeira com oferta abundante e plantio controlado, resultando em uma performance similar à de madeiras de lei, como o mogno, que não podem ser extraídas da natureza”, traduz o engenheiro de software Francisco Gomes, um dos sócios-fundadores da Hardera, que hoje está à frente das operações da empresa.
Sediada em Redwood City, na Califórnia, Estados Unidos, a startup é voltada ao mercado externo, com foco no atendimento a países onde a madeira é amplamente utilizada na construção civil. “Nossa estratégia é atender às exigências regulatórias por materiais ambientalmente sustentáveis. Nos Estados Unidos e na Europa, principalmente nos países escandinavos, existem metas para que até 70% das construções utilizem madeira. A nossa tecnologia é adequada a esse movimento global de construção verde”, contextualiza Gomes.
Na entrevista a seguir, o sócio-fundador da Hardera demonstra o passo a passo do processo de desenvolvimento, amplia os esclarecimentos dos meios pelos quais o método é colocado em prática e aborda o potencial dos desdobramentos comerciais previstos.
O Papel – Como e em que contexto surgiu a startup Hardera?
Francisco Gomes, engenheiro de software e um dos sócios-fundadores da Hardera – A Hardera nasceu com uma ambição explícita: resolver um problema global de sustentabilidade, ao substituir madeiras nobres, protegidas e de oferta crítica, por madeiras de reflorestamento com desempenho equivalente ou superior. Em 2018, a equipe formada por mim e pelo Ricardo Cotrin Teixeira, PhD pela Unicamp, foi selecionada para o programa SU Ventures, da Singularity University, no Vale do Silício, Califórnia – Estados Unidos.
Este marco consolidou a tese tecnológica e o nosso modelo de negócio, uma vez que o processo seletivo exigia a comprovação do P&D contínuo, patente depositada/IP, business plan, business case, além de um racional claro de escalabilidade e impacto ambiental positivo.
O Papel – Hoje, qual é o posicionamento estratégico da empresa e como se dá sua atuação?
Gomes – A Hardera se posiciona como uma empresa de P&D e licenciamento de tecnologia (lab-to-market), e não como uma madeireira verticalizada. A estratégia central da empresa é atingir seus mercados-alvo, que incluem países com legislação ambiental exigente e metas de green building, nos quais a madeira certificada já é ou será protagonista na construção. Estados Unidos e Europa, com destaque aos países escandinavos, que projetam metas agressivas de participação da madeira em edificações, estão entre esses mercados-alvo.
Também temos a estratégia de licenciar o processo e a formulação proprietária para parceiros industriais, como serrarias, plantas de tratamento e fabricantes de componentes. Isso reduz o CAPEX da Hardera, acelera capilaridade global e permite adaptar a tecnologia a espécies locais e normas regionais. Na prática, a nossa proposta de valor é entregar madeira de reflorestamento, incluindo pínus e eucalipto, com características físico-mecânicas, biocidas e de segurança semelhantes ou superiores às de madeiras nobres, sem metais pesados e com baixo impacto ambiental no processo.
O Papel – Quais foram as etapas que marcaram o processo de desenvolvimento da solução que transforma madeira de reflorestamento em um material com propriedades físicas comparáveis às madeiras nobres?
Gomes – Em resumo, passamos por três etapas principais, que levaram ao desenvolvimento da solução. A primeira delas diz respeito ao processo de pesquisa e formulação, na qual passamos por um ciclo de P&D multianual para chegar a uma formulação química proprietária, capaz de transfigurar fibras celulósicas.
Essa formulação manipula a hemicelulose e promove nucleação e crescimento entre as cadeias de celulose, tornando-as mais hidrofóbicas, interconectadas e sinérgicas. Como resultado, tem-se a densificação e a maior rigidez e tenacidade, com barreira biológica intrínseca.
A segunda etapa foi marcada pela validação do método e pelo processo de propriedade intelectual. Patente depositada e documentação técnico-econômica foram requisitos para a seleção na Singularity University. A industrialização do método, por fim, somou quatro fases operacionais: limpeza e classificação por diâmetro (homogeneidade de tratamento); preparo da solução (IP Hardera) e imersão calibrada ao perfil e à espessura das peças, sem geração de efluentes, já que a solução é consumida no processo; secagem natural em um período de três a sete dias, quando ocorre a engenharia microestrutural (nucleação/crescimento 3D), e embalagem e logística, padronizadas de acordo com a integração em linhas de parceiros licenciados.
O Papel – Quais são os benefícios e as vantagens competitivas oferecidas pela solução? A quais mercados ela atende?
Gomes – Começando pela performance estrutural e de impacto, ensaios laboratoriais e comparativos indicam que a solução oferece medida de resistência oferecida pela madeira aos esforços de flexão (MOR) de até 95% superior ao mogno. Já a energia específica até ruptura (EE) é igual ou superior a 50% em comparação ao mogno, demonstrando alta resiliência e retorno à forma sem deformação estrutural.
As madeiras que levam a solução ainda apresentam uma tenacidade superior, tolerando cargas elevadas até o breakpoint. Em comparativos, apenas poucas nativas, a exemplo do ipê, superam levemente certos parâmetros. Estendendo as vantagens ao aspecto de flamabilidade, também temos diferenciais relacionados à segurança contrafogo, com uma redução de 50% de propagação de chama em comparação ao mogno.
Já sob o aspecto de durabilidade e bioproteção, apresentamos uma vida útil maior do que 25 anos (considerando ensaios acelerados ASTM G53), além de alta resistência a cupins, absorção mínima de água e baixa variação dimensional. A microestrutura ainda tem a capacidade de atuar como isolante, reduzindo trocas de calor e contribuindo para eficiência energética em envoltórias de edifícios.
O portfólio técnico da Hardera contempla segmentos como construção (paredes, coberturas e vigas), arquitetura (decks e playgrounds), mobiliário (acabamentos premium e usinabilidade) e infraestrutura (postes, cercas e peças críticas).
O Papel – Quais são os motivos que tornam esses diferenciais relevantes ao contexto atual e futuro?
Gomes – A pressão regulatória ligada aos critérios ESG, somada a metas climáticas e políticas urbanas pró-madeira, exige materiais de alto desempenho e baixa toxidade de ciclo de vida. Neste contexto, a proposta da Hardera remove gargalos que historicamente impediam o pínus e o eucalipto de substituir nativas em aplicações estruturais e de longa vida.
Ao deslocar demanda das nativas para reflorestamento, a tecnologia protege os biomas e estabiliza a oferta, reduzindo o incentivo à extração ilegal. Ainda vale mencionar que materiais com isolamento intrínseco e vida útil longa reduzem OPEX (custos de climatização e manutenção, por exemplo), aspecto cada vez mais valioso em construções de madeira massiva, modular e off-site.
O Papel – A solução é aplicada em qual etapa do processo fabril? Na prática, como o método funciona?
Gomes – A integração é feita de forma in-line em plantas licenciadas. Ou seja, o método acontece antes da expedição e da comercialização da peça tratada, a montante do canteiro de obras, e pode ser acoplado à serraria ou linha de tratamento do parceiro.
As etapas fabris envolvem um pré-processo, no qual os troncos e as peças que chegam passam por limpeza (remoção de resíduos) e classificação por diâmetro, garantindo homogeneidade de impregnação e parâmetros de processo. Em seguida, a formulação proprietária é preparada pela equipe técnica e as peças são imersas por tempo calibrado à espessura, até o consumo integral da solução (sem efluentes).
Na etapa de secagem, ocorre a modificação da matriz celulósica, com resultados de densificação, hidrofobicidade e interconexão das fibras. Já na etapa de embalagem, inclui-se controle de qualidade, embalagem para proteção contra umidade e transporte, e expedição global. A operação é licenciada, com a Hardera provendo know-how de processo, parâmetros de controle e qualificação técnica para que o parceiro rode o método em escala.
O Papel – Qual é o status da tecnologia e quais são os próximos desdobramentos previstos?
Gomes – Atualmente, a Hardera avança no patenteamento nos Estados Unidos e em certificações e ensaios com espécies norte-americanas de características diferentes das brasileiras. A expectativa é concluir etapas cruciais no primeiro semestre de 2026 e, então, ampliar o licenciamento internacional da patente, com vantagem competitiva adicional por conta da formulação menos agressiva (melhor fit regulatório em países de alta exigência ambiental).



