2025 testa a resiliência da madeira brasileira e redefine estratégias

Entre pressão externa e ajustes internos, o setor atravessa um ano duro e se prepara para um 2026 de reorganização, cautela e oportunidades seletivas

O ano de 2025 ficará marcado como um dos períodos mais desafiadores da última década para o setor madeireiro brasileiro. Entre tarifas comerciais, entraves regulatórios, conflitos geopolíticos e limitações logísticas, as exportações de madeira foram fortemente pressionadas, exigindo das empresas elevado grau de adaptação e disciplina estratégica.

De acordo com os dados consolidados de exportação analisados pela WoodFlow, que concentram os principais produtos madeireiros, de janeiro a novembro de 2025, o Brasil registrou queda de 2% nos valores negociados com clientes externos, passando de US$ 1,59 bi em 2024 para US$ 1,55 bi, em 2025, no acumulado dos 11 meses (os dados com o consolidado do ano serão divulgados em janeiro de 2026).

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Desafios que exigiram resiliência em 2025

O mercado norte-americano foi o principal vetor de retração ao longo do ano. A adoção de tarifas adicionais sobre produtos brasileiros provocou uma reação imediata dos compradores, resultando em cancelamentos, renegociação de contratos e forte redução dos volumes embarcados. O impacto foi particularmente severo nos segmentos historicamente dependentes dos Estados Unidos, como portas, pisos, molduras de pinus, compensado de pinus e madeira serrada de pinus.

Notamos que a reação inicial dos importadores dos Estados Unidos foi de paralisia: pedidos foram suspensos, embarques retirados de portos e decisões postergadas. Ao longo do segundo semestre, parte da demanda retornou, mas de forma seletiva, com volumes menores e margens mais comprimidas.

Os valores de negociação com os EUA, dos produtos acompanhados pela WoodFlow, apresentaram uma redução, no período de janeiro a novembro, de 9%, na comparação com o mesmo período do ano passado. Porém, quando olhamos os produtos isolados, mercados como o de moldura de pinus viram suas vendas reduzirem significativamente e empresas fecharam em decorrência da falta de mercado.

O resultado foi uma queda da participação dos EUA na compra dos produtos brasileiros. Para exemplificar, selecionei dois mercados. Em março tivemos um pico de embarques para lá, somando cerca de 38% do compensado de Pinus sendo negociado para os EUA; em novembro, foi apenas 7%. Já a madeira serrada de pinus saiu de 43% de participação, em março, para apenas 19%, em novembro.

Na Europa, o setor enfrentou dois entraves relevantes. O primeiro foi a ameaça regulatória do EUDR, que gerou insegurança operacional mesmo para produtos oriundos de florestas plantadas. O segundo foi a investigação antidumping aberta pela União Europeia contra o compensado de pinus brasileiro, que adicionou uma camada extra de risco comercial justamente sobre um dos produtos mais representativos da pauta nacional. A combinação desses fatores contribuiu para a retração das negociações, aumento da cautela dos compradores e revisão de estratégias por parte das indústrias exportadoras.

Somam-se a esse cenário os conflitos geopolíticos em curso, que continuam a redesenhar fluxos globais de comércio, pressionar custos logísticos e afetar a previsibilidade dos mercados. Para um setor altamente dependente do comércio internacional, como o madeireiro, os efeitos foram diretos, seja na volatilidade da demanda, seja na elevação do custo total das operações.

Aprendizados de 2025 e o caminho para 2026

Apesar das adversidades, 2025 também evidenciou a maturidade do setor madeireiro brasileiro. Empresas trabalharam arduamente para ajustar seus portfólios, diversificar mercados, reduzir a exposição excessiva a destinos específicos e, principalmente, reforçaram práticas de governança, compliance e gestão de risco.

Em um ano de margens comprimidas, eficiência operacional deixou de ser diferencial e passou a ser condição de sobrevivência.

Por aqui, os desafios logísticos brasileiros seguiram como um fator estrutural de pressão. Custos elevados, limitações portuárias e gargalos de infraestrutura impactaram a competitividade das exportações justamente em um momento em que o mercado exigia maior precisão operacional. Já tem alguns anos que erros logísticos passaram a ter impacto direto na viabilidade econômica dos negócios.

Olhando para 2026, a expectativa do setor não é de uma retomada acelerada, mas de um ano de reorganização e acomodação. Ainda temos uma penumbra na relação com os Estados Unidos, mas o adiamento do EUDR e a definição do processo de antidumping na Europa acenderam uma luz verde para a volta das negociações com os países do bloco.

Acredito que no próximo ano, o mercado internacional tende a operar em um novo patamar de normalidade, com compradores mais seletivos, maior rigor regulatório e decisões cada vez mais orientadas por risco e previsibilidade.

Ao mesmo tempo, surgem oportunidades claras para empresas preparadas. A diversificação de mercados, o foco em produtos com maior valor agregado, a profissionalização das estruturas comerciais e o investimento em rastreabilidade e conformidade regulatória devem diferenciar quem conseguirá crescer em meio a um cenário ainda complexo.

Se 2025 foi o ano do teste, 2026 será o ano da execução. O setor madeireiro brasileiro entra no próximo ciclo com menos espaço para improviso, mas com mais clareza estratégica. Resiliência, eficiência e visão de longo prazo serão os pilares para transformar um período de pressão em base sólida para a próxima fase de crescimento.

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Gustavo Milazzo
Gustavo Milazzo é empresário, formado em Comércio Exterior pela Universidade Tuiuti, Pós-Graduado em Negócios Internacionais pela FAE e com MBA em Gestão Exponencial da Xpeed. Possui mais de 28 anos atuando no setor de comércio exterior, dos quais 25 anos são dedicados a compra e venda de madeira no mercado externo. É fundador da GCM Trade e CEO da WoodFlow, uma plataforma que faz a integração do ecossistema da madeira, conectando compradores do mundo todo e vendedores brasileiros. Sua missão é disseminar e promover a madeira brasileira pelo muito através de informação e tecnologia.

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