Papel e celulose no Brasil em 2026: ajustes, pressão e reorganização

O mercado brasileiro de papel e celulose começa 2026 com sinais mistos. De um lado, a normalização das exportações de proteína animal após os choques tarifários de 2025 que devolveu força à demanda por embalagens, sobretudo na cadeia de papelão ondulado atrelada à frigorífica. Do outro, a concorrência de importações asiáticas, especialmente no papel cartão, a volatilidade cambial e o custo elevado do crédito seguem limitando a recuperação do consumo doméstico, sendo desafios importantes para todos os setores de papel, incluindo aqui tissue e gráficos.

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No nosso último Latin America Pulp & Paper Forecast, projetamos que a demanda total por produtos de papel no Brasil crescerá 0,8% em 2026, no agregado. O avanço será puxado, sobretudo, pelo segmento de embalagens, sustentado pela resiliência do consumo de alimentos e pela expansão da capacidade logística nos corredores de exportação. Já os segmentos de tissue, as margens apertadas seguem como o principal desafio para produtores, apesar da projeção de alta na demanda. No setor de papéis para impressão, a demanda secularmente estagnada (ou em ligeira queda), junto com margens apertadas, revela-se como desafio duplo.

O setor papeleiro também reflete uma tendência mais ampla de integração vertical. Empresas do setor, incluindo brasileiras, têm intensificado investimentos em ativos downstream à cadeia (plantas de conversão, centros logísticos, distribuição) buscando proteger margens e reduzir exposição a choques externos. A fusão entre Suzano e Kimberly-Clark é um exemplo claro de como os grandes players estão reorganizando suas cadeias de valor para ganhar escala e controle.

Além disso, o Brasil tem jogado sua própria partida no xadrez regional, a despeito dos movimentos globais. A integração com o Paraguai, via relocalização de manufaturas em zonas francas, e com o Uruguai, em serviços logísticos e financeiros, mostra que a reorganização das cadeias de valor não é apenas uma resposta às pressões externas, mas também uma estratégia ativa de inserção regional e tentativa de melhoria na eficiência empresarial. Essa movimentação intralatino-americana adiciona resiliência e opcionalidade às operações do setor papeleiro, especialmente em um momento de fragmentação regulatória e incerteza geopolítica global.

A pressão por cadeias mais limpas e rastreáveis também começa a se refletir no setor. Fabricantes brasileiros que exportam para mercados exigentes, como os dos Estados Unidos e da Europa, estão sendo forçados a revisar seus processos e certificações, especialmente quanto à rastreabilidade de fibras, às emissões e à conformidade ambiental, apesar de mais um adiamento da EUDR. Isso tende a elevar os custos no curto prazo, mas também pode abrir espaço para contratos de longo prazo com menor risco de interrupção, desde que o País avance na previsibilidade regulatória e institucional.

Em um cenário de reconfiguração das cadeias globais, o setor de papel e celulose brasileiro tem espaço para crescer, mas precisará combinar eficiência operacional com capacidade de adaptação. A previsibilidade institucional, a diversificação de mercados e a capacidade de antecipar riscos regulatórios e comerciais serão os diferenciais de quem liderar a próxima fase do setor. O jogo está em andamento, e o Brasil tem peças importantes no tabuleiro.

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Rafael Barisauskas
Rafael Barisauskas ingressou na Fastmarkets em 2019 como economista para a América Latina, analisando os mercados regionais de celulose, papel e embalagens, além da cobertura econômica para a região. Rafael trabalha com projeções econômicas desde 2013, acumulando um vasto conhecimento em comércio de commodities e organização industrial. Além disso, Rafael também atua como professor universitário de economia na FECAP (Brasil). Ele é mestre em Economia pela universidade KU Leuven, na Bélgica, focando sua pesquisa em análise das cadeias globais de valor na indústria de papel e celulose. Rafael Barisauskas joined Fastmarkets in 2019 as the Latin America economist, analyzing the regional pulp, paper, and packaging markets as well as the local economies. Having worked on economic forecasts since 2013, Rafael has a deep understanding of the global commodities trade and industrial organization. Rafael also works as an Economics Professor at FECAP University (Brazil), and he has a Master's degree in Economics from KU Leuven in Belgium, focusing his research on global value chain analysis in the pulp and paper industry.

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