Entre ciclos e oportunidades: o macrocenário da celulose e papel

Após um ano marcado por volatilidade geopolítica, ajustes de oferta e desafios macroeconômicos, a indústria global de celulose e papel chega a 2026 com sinais moderados de recuperação. O ciclo de preços ainda atravessa um período de baixa, pressionado pela entrada recente de novas capacidades produtivas e pela instabilidade comercial internacional e agora a Guerra no Irã. Ao mesmo tempo, fatores estruturais como competitividade florestal, infraestrutura logística e novos investimentos industriais reforçam o protagonismo do Brasil no cenário global.

No balanço de 2025, analistas e autoridades do setor convergem em um diagnóstico: foi um ano desafiador, mas que evidenciou a resiliência da indústria e o papel estratégico da fibra brasileira no comércio internacional.

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Para Andrés Padilla, analista do departamento de Pesquisa e Análise Setorial do Rabobank Brasil, com foco nos mercados de bebidas, laticínios e papel e celulose, a instabilidade já era esperada. “O que vimos em 2025 foi a confirmação de um ano de muitos obstáculos. Houve um aumento importante de oferta global vindo de projetos inaugurados na América do Sul e na Ásia, o que naturalmente trouxe volatilidade para os preços”, afirma o analista.

Padilla destaca que a geopolítica intensificou esse cenário. A adoção de tarifas comerciais pelos Estados Unidos, inclusive contra parceiros tradicionais, ampliou a incerteza nos mercados. “Todas essas tarifas criaram uma grande incerteza para diversos setores. Mas, ao mesmo tempo, o episódio mostrou a resiliência da indústria brasileira, que continua sendo um exportador estratégico”, diz.

Segundo ele, as tensões comerciais também geraram efeitos indiretos positivos para a América do Sul. “A disputa entre Estados Unidos e China acabou favorecendo os exportadores da região, porque a tarifa entre os dois países se manteve enquanto o acesso da nossa celulose permaneceu praticamente zerado”, explica.

Padilla acrescenta que, apesar dos desafios estruturais da economia chinesa, como o elevado endividamento interno, as dificuldades do setor imobiliário e o alto desemprego entre os jovens, os indicadores de crescimento continuam relativamente sólidos, acima de 4%. Para ele, a economia do país tem demonstrado resiliência ao diversificar seus mercados de exportação, reduzindo gradualmente a dependência de destinos tradicionais como os Estados Unidos.

Na avaliação da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), a perspectiva de investimento para o setor de celulose e papel no Brasil permanece positiva, sustentada principalmente pela expansão da produção, pelo crescimento das exportações e por novos projetos industriais previstos para os próximos anos.

Os números de 2025 reforçam esse movimento: a produção brasileira de celulose atingiu 29,4 milhões de toneladas, alta de 6,9% sobre 2024, enquanto as exportações somaram 20,7 milhões de toneladas, avanço de 11,6%, ambos recordes históricos. Em valores, as exportações totais do setor de árvores cultivadas para fins industriais e de restauração alcançaram US$ 14,9 bilhões, o equivalente a 4,3% da balança comercial brasileira e 8,8% da balança do agronegócio.

No caso do papel, a produção brasileira ficou praticamente estável, em 11,3 milhões de toneladas, com crescimento de 4,8% nas exportações e de 2% nas vendas domésticas, sinalizando uma demanda mais resiliente em alguns nichos, apesar do ambiente macroeconômico mais apertado.

Para Adriano Scarpa, gerente de Políticas Florestais e Sustentabilidade da entidade, o avanço recente da base florestal, especialmente em áreas degradadas no Mato Grosso do Sul, e a concentração de novos projetos industriais indicam que a cadeia continua encontrando no Brasil condições favoráveis para crescer com competitividade.

Além da expansão produtiva, a indústria planeja investimentos expressivos no Brasil, estimados em cerca de R$ 105 bilhões até 2028, destinados à construção de novas fábricas, ampliação de plantas e melhorias logísticas.

Para Marcello Collares, diretor de Inteligência de Mercado da empresa de informação e análise especializada na indústria de celulose, papel e produtos relacionados TTOBMA, 2025 foi marcado pela combinação entre incertezas comerciais e aumento da produção chinesa, o que pressionou os preços da commodity.

“Foi um ciclo de baixa relativamente agressivo, com preços abaixo do histórico. A demanda continuou boa, mas as incertezas afetaram decisões de investimento e de consumo”, contextualiza.

Como exemplo dos impactos da instabilidade comercial, Collares cita o caso das exportações brasileiras de tissue para os Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil vinha ampliando embarques para o mercado norte-americano, mas a imposição de tarifas próximas de 50% praticamente interrompeu esse fluxo. Parte desse volume acabou sendo redirecionada para a Europa, evidenciando como mudanças tarifárias podem reorganizar rapidamente o comércio internacional.

Collares observa ainda que a expansão da produção chinesa cria um limite natural para a recuperação dos preços. “A capacidade de produção de celulose na China acaba funcionando como um regulador do mercado. A produção interna tem sua taxa de operação elevada quando vantajosa, limitada pela disponibilidade de madeira”, explica.

Segundo estimativas da TTOBMA, o país produziu cerca de 27 milhões de toneladas de celulose no último ano, apesar de possuir capacidade instalada próxima de 34 milhões de toneladas. A diferença, explica Collares, decorre principalmente da limitação na disponibilidade de madeira.

Apesar das perspectivas positivas de investimento no setor de árvores cultivadas, o ambiente industrial brasileiro em 2025 foi marcado por desaceleração. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a produção industrial cresceu cerca de 0,6% no ano, resultado significativamente inferior à expansão de 3,1% registrada em 2024.

Indicadores como faturamento real da indústria, horas trabalhadas e utilização da capacidade instalada também perderam dinamismo ao longo do segundo semestre, refletindo um cenário macroeconômico mais restritivo. Na avaliação da entidade, fatores como juros elevados, demanda interna mais fraca e aumento das importações limitaram o desempenho da indústria de transformação, cujo faturamento praticamente ficou estável no período, com variação próxima de 0,1%.

Dentro desse contexto, o setor de celulose e papel, que integra a indústria de transformação, manteve uma dinâmica distinta da média industrial brasileira. A combinação entre competitividade florestal, perfil exportador e novos investimentos permitiu ao segmento sustentar crescimento em um ambiente em que outras cadeias industriais mostraram perda de fôlego.

Vale destacar ainda que, segundo análise do FGV-IBRE, apesar do cenário internacional mais incerto, a balança comercial brasileira já apresenta melhora no primeiro bimestre de 2026, com superávit de US$ 8 bilhões, impulsionada principalmente pelo aumento das exportações para a China e pelo crescimento do volume exportado de commodities. Esse movimento ajuda a reforçar o papel do setor florestal como um dos vetores de sustentação da inserção externa brasileira.

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Thais Negri Santi

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