O segundo dia da conferência da Fastmarkets de 2026 seguiu reunindo líderes da cadeia produtiva de papel e celulose latino-americana, nesta quarta-feira, 12, em São Paulo. Com uma programação voltada para insights sobre o mercado de embalagens de papel e as tendências macroeconômicas que impactam essa indústria, a audiência ouviu sobre os diferentes cenários que se apresentam adiante.
A América Latina apresenta um panorama de crescimento estável, segundo dados da Fastmarkets, com a demanda impulsionada por tissue e embalagens, apesar da queda de papéis gráficos, com estimativa de chegar a 33,2 milhões de toneladas até 2030. O setor de celulose, por sua vez, indica uma demanda resiliente no curto prazo.
As três forças que estão moldando o futuro
Durante a apresentação de Stuart Evans, Chief Analytics Officer da Fastmarkets, sobre as macrotendências do setor de commodities, foi indicado que três forças centrais estão moldando o setor – segurança, meio ambiente e crescimento. Nesse sentido, a segurança aborda as tensões tarifárias, controle de exportações e como os fluxos das cadeias globais estão se movendo e como isso impacta nos custos. O meio ambiente, por sua vez, é dirigido pelas novas regulamentações que podem impactar a competitividade; enquanto o crescimento aborda a relação regional que ainda está progredindo.
Na avaliação do especialista, entre 2022 e 2024, os principais vetores do mercado eram o ambiente e o crescimento, mas, ante o panorama político e econômico atual, o mercado de movimentou imputando mais peso à segurança. Isso se traduz nas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil – que, apesar de isentar a celulose de mercado, teve impacto na celulose solúvel e papéis – e nas tarifas de 30-35% do México no mercado de caixas de papelão, redirecionado fluxos globais.
Na esteira do crescimento, a relação do Mercosul com a União Europeia tem adicionado demanda, principalmente em relação a caixas de exportação de proteína animal. Já o meio ambiente observa o avanço do mercado regulado de carbono, com o avanço do SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa) e EUDR (EU Deforestation Regulation).
Evans reforçou que existem três possíveis cenários considerando as variáveis anteriores: um retorno ao panorama anterior, um mundo mais fragmentado, ou o meio ambiente à frente. Na avaliação da audiência da conferência, a segunda opção é a mais provável.
Pressão do consumo vs. demanda
A apresentação de Rafael Barisauskas, head of analytics e research manager da Fastmarkets para América Latina, também reforçou o cenário multipolar do mercado internacional, que segue ampliando seus elos para uma cadeia mais segura. Na América Latina, isso representa um avanço da relação bilateral com o mercado chinês, que cresceu três pontos percentuais em 2025 ante 2024, alcançando 47,2% – contra 52,8% dos EUA, que recuou.
Para o especialista, a fricção geopolítica tem pressionado as companhias a buscar maior controle e estabilidade nas cadeias de valor, promovendo estratégias de nearshoring.
Adicionalmente, enquanto a inflação apresenta uma acomodação, o consumo das famílias tem apresentado uma desaceleração “como se fosse um mercado maduro, sem ser”, conforme Barisauskas. O endividamento das famílias na América Latina tem pressionado esse fator, com uma taxa de até 30% da renda comprometida do consumidor brasileiro, contra 5,6% no México e 11,9% no Chile; embora as taxas de dívida de cartão de crédito seguirem próximas – com 5,6% no Brasil, 3,5% no México e cerca de 7% no Chile.
Apesar desse desafio, as projeções indicam um leve crescimento na demanda de papéis, de 1,4% na América Latina, 1,5% na América Central e 1,3% na América do Sul em 2027, sustentado principalmente por papelão ondulado, enquanto os papéis não-corrugados têm desacelerado nos últimos dois anos. No entanto, de acordo com as perspectivas da Fastmarkets, o crescimento desse segmento projetado para 2027 deve ser de 1,1% para a América Latina, 1,9% na América Central e 0,6% na América do Sul.
Capacidade, produção e importação
Brasil e México continuam liderando a capacidade em containerboard na região, com 43% e 32% respectivamente, e na demanda, com 32% e 33% na mesma ordem, mas enfrentam uma fragmentação maior quando o mercado observa a origem das importações. Nessa linha, os Estados Unidos seguem liderando tanto para containerboard reciclado quanto de fibras virgens, com 55% e 78% do mercado, por cada segmento respectivamente.
Nesse contexto, o produto brasileiro é importado em apenas 1% do reciclado e 13% do papel virgem. O mercado de alimentos continua sendo o principal motor de crescimento do setor de embalagens, sendo responsável por 65%.
Já em boxboard, Brasil e México têm capacidade de 49% e 23% respectivamente, apresentando demanda de 34% e 32%, respectivamente. Por outro lado, as importações da região ainda possuem grande presença dos EUA (31%) e China (20%), reduzindo a fatia brasileira para 8%. Os principais destinos na região são México (42%), Costa Rica (12%), Brasil (8%) e Colômbia (7%).
Incertezas geram panorama mais cauteloso
Outras movimentações políticas e econômicas foram pontuadas, como o uso do yuan como moeda de negociação entre países do BRICS, bem como em outras moedas que não incluem dólar americano e euro. Vale ressaltar também a criação – ainda em testes – de um formato de pagamento semelhante ao Pix na Europa.
Adicionalmente, a China apresentou um plano de cinco anos em que reforça a intenção de reduzir a dependência de commodities latino-americanas, especialmente alimentos. Há, ainda, um gap de conhecimento técnico e tecnologia que favorece a América Latina nesse contexto.
Os riscos e oportunidades nesse mercado fragmentado não indicam um “lado vencedor”, segundo Rafael. Com a redefinição das cadeias, limitação das exportações e taxa de importações afetando o mercado, o singelo crescimento da demanda levanta o questionamento de onde ela se sustentará, pois depende de um cenário econômico mais sólido.
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