Meirelles fez essas declarações durante sua palestra “Crescendo e Investindo no Brasil”, realizada no Painel de CEOs, promovido pelo Instituto Brasileiro de Executivos Financeiros (Ibef) em março último. O evento reuniu presidentes de empresas de diversos segmentos, todos em busca de um denominador comum que definisse o Brasil atual e suas oportunidades de negócios para o futuro.
A entrevista deste mês foi feita com base nos debates realizados durante o evento, com destaque às questões mais relacionadas ao cenário econômico e ao setor brasileiro de papel e celulose. Ao lado de Meirelles estiveram presentes Antônio Maciel, presidente da Suzano; Fernando Alves, presidente da consultoria PricewaterhouseCoopers; Marcos De Marchi, da Rhodia; e Ricardo Pelegrini, da IBM Brasil, entre outros.
Painel de CEOs – Segundo os senhores, quais são as perspectivas dos setores?
Antônio Maciel (Suzano) – Neste ano teremos investimentos importantes, pois consideramos que o mundo todo, particularmente a Ásia, terá maior demanda de produto. Não paramos de investir no ano passado, com 36% a mais de recursos do que em 2008, o que nos permitiu ganhar mercado, tanto na América Latina quanto fora deste contexto. O ambiente de negócios no Brasil ainda tem muitas deficiências, mas melhorou muito, com revoluções importantes, como o fim da inflação, privatizações, abertura para o comércio exterior, regulação de agências e nossa autossuficiência em petróleo. Ainda temos, porém, um gargalo tremendo em infraestrutura. Se quisermos exportar, por exemplo, precisamos de porto próprio para garantir competitividade, mas acreditamos que o ambiente é propício para a melhora nos negócios e o ambiente internacional para o caso da celulose está ainda mais forte. Por conta disso, temos dois grandes empreendimentos planejados: uma fábrica no Piauí e outra no Maranhão, somando R$ 8 bilhões de investimentos nos próximos anos. Nossa capacidade de utilização já está chegando ao limite. Estamos trabalhando com patamares pré-crise e temos o menor custo de produção de celulose do mundo.
Ricardo Pelegrini (IBM Brasil) – Os segmentos de serviços não foram muito afetados pela crise. O ramo industrial foi o que mais puxou o PIB para baixo durante a crise, mas isso não quer dizer que todas as empresas não aproveitaram bem o ano passado e que não puderam tirar resultados positivos. Vários pontos influenciaram na capacidade dessas empresas de se superarem, como o poder de investimento de capital, a disponibilidade desse capital, o modelo de negócios e a inteligência em geri-lo. Muitas empresas, no entanto, não estavam preparadas para decidir em quais áreas deveriam cortar gastos. Na falta de processos e ferramentas, voltamos para algo da década de 1980, quando um gestor dizia que todas as áreas precisariam ter corte de 10%, e os gerentes faziam isso sem critério. No ano passado vimos muitas empresas investindo em ferramenta de gestão, pois os cortes de custos precisam ser feitos de forma inteligente. Hoje, se uma empresa demite pessoas, depois paga caro para readmiti-las e treiná-las.
Marcos De Marchi (Rhodia) – A indústria química no Brasil representa 3,1% do PIB e 11,2% da indústria de transformação. É considerado o setor que alimenta outras indústrias e sofre muito a consequência do que acontece nas fábricas em geral. Hoje, o setor químico representa US$ 120 bilhões, é o maior da América Latina e o nono do mundo. No ano passado, a indústria brasileira em geral sofreu queda de 5%, motivo pelo qual as vendas de produtos químicos para o mercado interno caíram 6%. Ao mesmo tempo, nossa produção cresceu 3% e ganhamos participação de mercado – principalmente nos vizinhos latino-americanos. Em um ano difícil, conseguimos crescer em volume de produção.
Fernando Alves (PricewaterhouseCoopers) – Pela primeira vez na história do Brasil se vê otimismo de forma tão generalizada e presente nos diversos segmentos da economia. Em 35 anos, o medo de perder emprego não é a preocupação central dos indivíduos das classes C e D, o que mostra que essa perspectiva positiva também está presente nas camadas da sociedade menos favorecidas. Do lado estrutural, ainda temos conjunção de fatores que nos favorece. O Brasil sempre foi chamado de “país do futuro”, e agora isso começa a se apresentar como realidade, pois temos permeabilidade e alcance de exportações, além de sermos destaque na autossuficiência de energia e termos a maior reserva agrícola do mundo. Soma-se ainda a tudo isso a elevação dos preços das principais commodities que exportamos.
Painel de CEOs – Quais são os desafios atuais para a indústria no Brasil?
Antônio Maciel (Suzano) – Toda empresa exportadora precisa de infraestrutura, ainda mais se demanda investimento de longo prazo, como é o caso do setor de celulose e papel. A infraestrutura deve ser a principal limitação de tudo o que debatemos neste painel, pois envolve rodovias muito congestionadas, portos e energia, além de falta de aeroportos e questões do cotidiano, como uma chuva, que atualmente para qualquer cidade no Brasil. Eu vou para a China a cada cinco meses e não há uma vez em que não chego lá e não percebo uma mudança radical na infraestrutura. O país está focado em construções de ferrovias e tem 21 portos em ampliação. No Brasil, ainda existe o problema de se achar que a iniciativa privada fará tudo, mas temos de desenvolver modelos de parceria e gestão mista desses ativos. Quando existe infraestrutura, o investimento da indústria aumenta. Precisamos usar este ciclo virtuoso da economia para custear a melhoria de nossa infraestrutura.
Marcos De Marchi (Rhodia) – Energia ainda é um desafio. Neste ano provavelmente não teremos racionamento por causa das chuvas, o que, no curto prazo, nos livra de problema maior. Se, porém, formos analisar a situação, o Brasil ainda tem consumo per capita de energia muito baixo, de 2,3 GW por hora/ano. Como comparação, esse número é de 8 GW hora/ano na Europa e de 11 GW hora/ano nos Estados Unidos. Basta um ano sem chuva para termos problemas. Se levarmos em conta só o crescimento da economia, temos necessidade de 36 GW instalados até 2020, mas, somando todos os projetos atuais, possuímos apenas 12 GW! O delta é muito grande e não há possibilidade de ser suprido de última hora. No aspecto da distribuição, a situação não está muito melhor. Temos muitas fragilidades no sistema, provadas pelos últimos apagões, e precisamos transformar 60 milhões de medidores hoje analógicos em digitais para ter um sistema de inteligência sobre nossas redes. Em relação ao custo para a indústria, a energia brasileira vale o dobro do que na Europa; nossa energia é cara.
Painel de CEOs – Que lições a indústria brasileira tirou da crise?
Marcos De Marchi (Rhodia) – Em tempos de crise, muitas empresas ficam tentadas a cortar custos de forma indiscriminada. As contas fecham e o problema parece ter acabado, mas isso deixa enormes sequelas. No nosso caso, decidimos que não íamos demitir ninguém, pois levamos sete anos para formar um bom operador! Sabíamos que a crise iria passar. Outra área que muitos pensam primeiro em cortar é a de pesquisa e desenvolvimento, porém precisamos continuar apoiando nosso cliente a enfrentar desafios e decidimos que também não podíamos fazer isso. Então, cortamos reuniões, viagens e convenções. Fomos ao limite nesse tipo de coisa e sabíamos que essas atividades poderiam ser retomadas posteriormente. A verdade é que entender seu modelo de negócio é fundamental para não perder nada que seja essencial.
Fernando Alves (PricewaterhouseCoopers) – A crise trouxe mais transparência e governança corporativa. Nos momentos de crise, há tendência de o governo aumentar a regulação do mercado, definindo novas regras. Essa é uma resposta clássica para se resolver a crise, mas hoje não se permite mais que empresas alavanquem valores 50 vezes acima do patrimônio, como acontecia. Boa parte dos nossos clientes já tem planos de investimentos. Contudo, hoje há muito mais discussão sobre riscos financeiros, moedas e taxas de crescimento sustentáveis.



