Avanço Na Carreira

Um novo ponto de partida

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Uma vida dedicada às fábricas de celulose e papel. Há quase 44 anos o engenheiro mecânico Francisco Fernandes Campos Valério – um associado mais que especial e fiel da ABTCP – vem construindo sua sólida carreira no setor. Neste novo ponto de partida, após terminar seu ciclo executivo na Diretoria da Fibria, ele se sente muito realizado tanto profissional quanto pessoalmente e está pronto para atuar como consultor da empresa, conforme falou em entrevista a O Papel

Por Patrícia Capo

O Papel – Como se preparou para este momento?
Francisco Valério – A chegada deste momento não é algo novo para mim. Na realidade já venho trabalhando esse processo há muito tempo. A própria ex-VCP – quando entrei há quase 16 anos – já tinha um processo de RH que previa que o diretor teria sua aposentadoria aos 62 anos. E a atual Fibria manteve esta política. Não era algo obrigatório, mas existia como uma diretriz, que coloquei para mim como uma orientação de tempo.

Pessoalmente, desde que me formei já comecei a me preocupar sobre como seria o futuro quando eu me aposentasse. Até porque vim de uma família simples, em que tudo era muito controlado. Tive a sorte de ter meu primeiro emprego como estagiário em uma empresa americana e meu chefe era americano. Nem todos eram, mas o meu era e eu o percebia sempre muito tranqüilo sobre o futuro. Então, eu me lembro que perguntei a ele como eles faziam nos Estados Unidos.

Ele me disse que lá eles faziam fundo de pensão para garantir certa estabilidade financeira quando se aposentassem. Pensei: puxa, que diferença da experiência brasileira! Então, decidi fazer um fundo daqueles também e começar o meu preparo financeiro logo cedo na carreira. Porém, estas atitudes baseadas em uma educação financeira não são tudo, quando se fala em parar. Elas representam apenas uma parte. Eu diria que a mais fácil até de planejar e lidar.

O difícil é você se desligar daquilo tudo que você está fazendo e mudar sua atividade. Não é parar totalmente, mas diminuir o ritmo e mudar sua rotina. Comecei então lá atrás a pensar e trabalhar comigo sobre como seria esta mudança e percebi que a vida tem ciclos. E é fundamental você fechar os ciclos. Deixar ciclos abertos é uma coisa muito ruim. Você sempre fica pensando que não acabou nada.

Da mesma forma que na carreira, esses ciclos acontecem também em nossa vida pessoal. Você conhece alguém, namora, depois decide casar, ter filhos… depois chegam os netos e assim por diante. E hoje estou iniciando um novo ciclo como consultor após encerrar o ciclo da minha carreira executiva e estou muito feliz por isso.

O Papel – Como iniciou sua carreira e como ela foi caminhando paralelamente à sua vida pessoal?
Francisco Valério – Eu posso dizer que felizmente nunca precisei procurar um emprego para começar minha carreira. As coisas aconteceram naturalmente – da universidade à empresa – pelo meu primeiro estágio.

Naquele tempo não havia processo seletivo de trainee, mas nós tínhamos os estágios de férias na Universidade Federal de Santa Catarina. Então, em julho de 1969 comecei meu primeiro estágio na Olinkraft, onde também consegui meu primeiro emprego.

Mais um fator da minha carreira é que eu não pulei etapas. Não pulei de uma função para outra sem atravessar os níveis necessários para ser promovido a outros cargos mais altos. E esta forma de crescer te dá uma solidez de carreira muito grande.

Quando eu me formei, comecei a trabalhar – noivamos no dia da minha formatura – e depois me afastei da minha noiva. Fui embora trabalhar longe (naquele tempo). Eram estradas ruins para ir de ônibus – ninguém quase tinha carro – por isso, eu vinha me encontrar com ela a cada dois meses. Depois nos planejamos e acabamos nos casando praticamente depois de um ano que eu já estava trabalhando. Mas também foi tudo planejado.

Agora quando falo em fechar ciclos, acho fundamental fazê-lo. Primeiro, porque as pessoas têm de entender que tem oportunidades; segundo, porque você também precisa entender que não é eterno. Se não der oportunidade para as pessoas, como elas irão crescer? E como a própria empresa irá crescer? Como você mesmo irá crescer? Portanto, eu sempre fui um apoiador de pessoas nesta realidade.

Hoje tenho uma rotina muito forte; tenho as plantas; tenho viagens; uma série de coisas. Agora vou continuar nesta minha nova etapa trabalhando em outro espaço. Saio da minha cadeira, desta sala –, ninguém mais vai me ver aqui (já tenho meu outro espaço para ficar) – e serei um consultor da Fibria.

A empresa quer que eu continue por mais uns dois anos nesta função, atuando, não apenas para dar suporte ao novo líder (Paulo Silveira), mas também dando apoio em outras áreas. Terei uma carga horária menor de trabalho. Eu defino o quanto vou trabalhar agora e qual será meu plano de progressivamente ir reduzindo estas horas dedicadas até este meu novo ciclo se encerrar também.

Minha atuação será com o objetivo de garantir a estabilidade operacional, a eficiência, enfim, em todos os itens necessários a esta transição, mas não liderarei mais. As pessoas terão a liberdade de me consultar, mas como um aconselhador delas. Acredito que será muito bom viver esta nova fase, pois terei condições de dedicar mais tempo a minha família.

O Papel – Quem será seu sucessor? Você o escolheu, ou como foi o processo?
Francisco Valério – A escolha do sucessor na Fibria não é uma escolha minha. Nós temos processos de RH bem-definidos, o que é uma vantagem. Ele inclui avaliações de desempenho, feitas por todos os diretores – cada nível tem sua hierarquia de avaliações –, por isso, há as avaliações de gerentes, diretores, entre outros. E nestas avaliações você identifica pessoas com potencial para ser um sucessor.

Além disso, é feita uma análise sobre a viabilidade de fazer a promoção com pessoas da própria empresa antes de buscar alguém no mercado. Dependendo do caso, poderá se optar por fazer os dois processos simultaneamente. No meu caso, já havia sido identificadas as pessoas com potencial para assumir a minha função. E estas pessoas passaram por um processo seletivo específico e por uma assessoria externa com diversos preparos, para que o escolhido se sentisse fortalecido para assumir a nova função.

Após todos os processos e aprovação da Diretoria, a indicação foi levada para um comitê de pessoas e remuneração que reporta ao Conselho de Administração da Fibria; depois os representantes dos acionistas aprovaram e, por fim, o indicado é levado para aprovação do Conselho de Administração que validará a escolha.

Quem irá me substituir no cargo de diretor é o atual gerente geral da unidade de Aracruz, Paulo Silveira, que já foi apresentado ao mercado e participou comigo da reunião de Conselho de Administração da Fibria no dia 24 de abril passado.

A transparência é uma das vantagens da Fibria. Todos os candidatos que participaram da seleção receberam feedback. O substituto do Paulo Silveira também passou pelo mesmo processo que ele passou no nível gerencial e receberam os feedbacks.

E eu fiz todos os feedbacks olho no olho com cada candidato que participou do processo seletivo. Não há nada de errado em não ser escolhido. Já é um mérito participar do processo, pois é sinal de que você tem o potencial. Mas há lugar apenas para um. O que posso garantir é que se trata de um sistema muito profissional.

O Papel – Além do trabalho como consultor da Fibria, você gostaria de fazer qual atividade?
Francisco Valério – Eu pretendo ter um tempo maior para mim e para minhafamília. Será um tempo muito bom, pois em toda minha carreira minha esposaacabou sendo mãe e pai dos meus filhos durante muitos anos. Houve época, como ade implantação do projeto Bahia Sul, que minha esposa teve de ficar em SãoPaulo com meus filhos, enquanto eu ficava longe, em outro Estado. Então,reconheço que meus filhos são fruto da administração dela.

 

Mas sempre as decisões de carreira, de ir para longe, entreoutras necessidades, quase sempre foram tomadas em consenso entre todos.Acredito que o mais resistente em ir para o Projeto Bahia Sul fui eu, por ter apreocupação de deixá-la sozinha em São Paulo. E no fundo foi ela, com os dois filhosmais velhos, que me incentivaram a ir, dizendo que era a minha carreira e queeu deveria ir.

 

Nesta época eu tive uma lição do meu filho mais velho – quejá está hoje com 40 anos – ele me disse: nós já moramos em núcleo residencialquando o senhor trabalhava na Aracruz e nós éramos pequenos; você saia muitocedo e voltava muito tarde e quase não nos víamos. E você achou que sempreesteve muito junto, mas na realidade não foi assim. Então agora, quando osenhor vier para casa, que a meia ou uma hora que estiver com a gente, seja dequalidade. Ou seja, me deu uma lição de moral. Não foi fácil, mas naquelemomento eu aprendi para o resto da carreira.

 

Nestes mais de 40 anos de carreira eu passei momentos muitodifíceis, trabalhando em projetos distantes, em lugares sem infra-estruturaalguma. A comunicação daquele tempo nem se compara a tudo que temos hoje paranos comunicar. Antigamente a comunicação era pelo rádio; para fazer uma ligaçãotinha de percorrer até outra cidade e esperar completar a chamada.

 

E eu digo para o pessoal aqui que depois de um tempomelhorou quando chegou o telex. E eles olham para mim, pensando: Telex? Quebicho era esse? Depois veio o Fax! Enfim, foram fases que só quem as viveu sabecomo foi atravessar todo este desenvolvimento. As novas gerações não imaginamcomo foi todo este processo de desenvolvimento até chegar ao que temos hoje.

O Papel – Você poderia fazer um balanço resumido dos principais momentos de sua carreira?
Francisco Valério – Bem, vou começar, recordando-me dos tempos da Olinkraft Celulose e Papel Ltda. (SC)…

Eu cheguei a esta primeira empresa do setor de celulose e papel como estudante universitário na condição de estagiário, sem nenhuma vivência em indústrias. Era tudo novo para mim em um ambiente de produção de celulose fibra longa e de produção de papel. Hoje esta planta pertence ao Grupo Klabin (na época era de um grupo americano). O primeiro contato foi de cultura em um ambiente de empresa, na qual conviviam pessoas com muita experiência prática que haviam feito a empresa crescer e uma equipe mais técnica, como a que eu integrava ao lado do meu chefe, que era americano; o diretor industrial e o presidente que também eram estrangeiros, além de alguns engenheiros também da equipe técnica.

Era um tempo em que também estava se iniciando no país uma mudança de cultura no setor de celulose e papel, entre outros, com a entrada de mais técnicos e engenheiros brasileiros. Ao mesmo tempo em que crescia o número de profissionais contratados mais tecnicamente capacitados entre 1969 e 1970, a indústria de celulose e papel também vivia um tempo de expansão, como a própria Olinkraft era prova deste movimento.

Eu morava na casa de hóspede e, por isso, mantive muito contato com estes profissionais norte-americanos e também com as equipes de engenharia que estavam atuando no projeto de expansão da empresa. Foi uma experiência muito engrandecedora em conhecimento para mim.

Além do crescimento da planta, a própria matéria prima do setor estava mudando – da Araucária (Pinheiro do Paraná) – para o aumento do cultivo do Pinus que vieram dos próprios americanos. A Olinkraft foi a primeira empresa a produzir celulose fibra longa 100% de Pinus (ilhotes e taeda, posteriormente). Eu participei deste processo de mudança ao lado do meu hoje grande amigo Carlos Aguiar, que integrava outra equipe. Foi uma experiência fantástica…

Em seguida, na própria Olinkraft, acabei vindo para São Paulo, a fim de atuar em um projeto da empresa, chamado Braskraft, que acabou não prosseguindo. A Olinkraft vendeu a parte dela para outro grupo americano – Continental Forest –e criou-se uma polêmica muito grande sobre impacto ambiental e, portanto, acabou sendo cancelado. Mas nesta época em meio a esta indefinição eu já tinha recebido um convite para ir para a Aracruz e acabei aceitando…

Na Aracruz Celulose (ES)… Era início de 1979 quando fui para a Aracruz, que tinha acabado de partir sua primeira planta no dia 4 de setembro de 1978, e eu cheguei praticamente três meses depois deste start up. Foi uma experiência muito interessante também, porque eu tinha saído de uma cultura americana e fui para uma empresa, cuja cultura era de um ambiente europeu – quem tinha a transferência tecnológica para a Aracruz eram os escandinavos, basicamente os suecos, da Bilerud, então, paralelamente nós íamos absorvendo os detalhes desta tecnologia e acompanhando a aplicação na planta.

Meu chefe era um sueco, inclusive, e aos poucos ele e outros engenheiros foram se afastando e deixando que nós assumíssemos a planta. Meu cargo era o mesmo que eu tinha na Olinkraft – chefe da área de Recuperação e Utilidades de produtos químicos. Depois fui promovido a gerente de produção, depois geral de produção de outras áreas e enfim gerente de operações.

Até que em setembro de 1991 fui para o Projeto Bahia Sul Celulose, no extremo Sul da Bahia. O projeto estava em andamento, mas cheguei antes ainda da fase de comissionamento e start up e na seqüência entrou a fase da máquina de papel, na qual tive a felicidade de colocar o primeiro trilho em outubro de 1991, e depois partimos a planta de celulose em março de 1992, em Mucuri. E em fevereiro de 1993 nós partimos a máquina de papel.

Não foi fácil trabalhar nestes projetos, porque lá não tinha absolutamente nada na cidade. Quando digo nada era nada mesmo. Para ter ideia, o médico que nos atendia ficava em Teixeira de Freitas, cidade próxima a Mucuri; para poder fazer uma ligação telefônica, tínhamos de ir até outra cidade, enfim, a infraestrutura teve de ser construída do zero. Enquanto trabalhava no projeto, fiquei um tempo morando em um hotel em Pedro Canário, cidade da região, próxima ao Espírito Santo. Até que em novembro de 1997, vim trabalhar no Grupo VCP…

Na VCP (atual Fibria)… A experiência na VCP foi totalmente nova, pelo fato de eu deixar integralmente a fábrica, onde até então eu permanecia o tempo todo, e passar a atuar no escritório. Quando eu vim para a VCP, eu tinha a responsabilidade das operações e da engenharia corporativa, mas eu não ficava mais no dia a dia da fábrica. Eu estava sempre visitando as plantas produtivas, mas havia outro responsável em cada unidade pelo dia a dia da fábrica.

Então, foi uma experiência muito interessante de acoplar a estratégia e a operação com os projetos novos – tivemos o P 2000 de Jacareí, entre outros projetos grandes da então VCP – durante esta experiência de gestão nova para mim. Foi uma época marcada por uma grande produção de papel e de diversos tipos, como o papel de imprimir e escrever (cut size) não revestido feito na unidade de Luiz Antonio; em Piracicaba produzíamos base para carbonless, papel térmico e um pouco de couché; uma produção parecida era gerada em Jacareí de papel de imprimir e escrever e um pouco de papel revestido para rótulos e uma série de produtos; e em Mogi das Cruzes tínhamos dois papéis que eram os carros-chefe da fábrica: o “bullet” para embalar sabonete com fungicida, etc. (éramos os únicos produtores aqui na América Latina e exportávamos para diversos clientes mundiais) e o “finnish foil”, que é um papel para fórmica, para piso; ele imita piso.

Portanto, foi uma experiência fantástica poder acompanhar a produção de todos esses papéis e também acoplar a produção de celulose, já que a VCP também produzia celulose de mercado. Neste contexto da celulose, fui acompanhando a substituição no processo do uso da fibra longa pela fibra curta de eucalipto – espécies brasileiras, como o Eucalyptus grandis e o urograndis.

Naquele tempo havia um mito de que fazer papel apenas com celulose fibra curta de eucalipto não gerava resistência. Mas tudo isso foi acabando à medida que a tecnologia dos fornecedores de máquinas solucionou os desafios.

No caso específico da oportunidade de vir para a VCP, hoje Fibria, eu não vim substituir algum profissional; vim para assumir atividades que estavam nas mãos dos acionistas. Quando começou a mudar a governança corporativa, eu assumi o que estava sendo conduzido pelo presidente, ou por pessoas da própria família. Isso incluía gestão das unidades de produção e da área florestal; pesquisa e desenvolvimento e engenharia corporativa. E agora estou aqui, iniciando meu novo ciclo como consultor…

O Papel – Em sua análise, quais suas principais contribuições ao desenvolvimento do setor de celulose e papel?
Francisco Valério – Meu maior e principal trabalho – que gosto e faço – foi desenvolvido com as pessoas. Entendo que elas precisam ter oportunidade, e você, como líder, precisa apoiar, e as pessoas precisam entender que você as está apoiando.

Em determinadas situações, eu não era a pessoa técnica mais capaz para resolver certos problemas; mas quem estava ali era. E você como líder precisa apoiá-las. As pessoas precisam entender que estão sendo apoiadas e assumindo a responsabilidade como líder junto com elas.

Sempre digo para as pessoas que hoje é muito cômodo você entrar no computador – hoje nem de computador eu preciso, basta eu pegar meu iPad – e vejo todas as fábricas online em tempo real. Há 43 anos não havia nada disso; você precisava ir às fábricas para conversar com as pessoas; passar pelas áreas e tomar pé da situação de cada processo. A automação era reduzida, mas era grande a interação com as equipes. Mas hoje as informações estão todas disponíveis para a liderança acessar quando quiser.

Quando digo para os gestores que eles precisam conversar mais com as pessoas, eles dizem que o problema é não ter tempo. Claro que ele tem tempo; se gastar meia hora para ir a campo conversar com as pessoas, não será perda de tempo fazer isso. Então, conversar com as pessoas continua sendo muito importante, pois elas sentirão o seu apoio como líder.

Você não vai resolver todos os problemas, mas se houver um problema a ser resolvido pela equipe, as pessoas vão se sentir seguras para tomar atitudes necessárias para resolver os problemas. As pessoas vão errar? Claro que sim. Mas é somente errando que aprendemos. Nós podemos errar, mas não podemos permanecer no erro. Esta é a diferença.

Como líder é preciso assumir a responsabilidade junto com a equipe e conversar com as pessoas. Não posso falar muito, mas quem trabalha comigo conhece bem a minha sigla de MBA chamada “TBC” – Tire o…. da Cadeira! (risos)

Mais uma postura importante do líder é arriscar um pouco na escolha das pessoas para sua equipe. Nem sempre pegar pessoas prontas, experientes garante alguma coisa. Mesmo com um bom currículo, você não saberá quem é realmente a pessoa. Só irá saber a realidade um ano depois, talvez. Agora se é alguém de dentro da sua empresa que tenha potencial, você saberá como investir no desenvolvimento desta pessoa. Por isso, é preciso ter mobilidade na empresa. As pessoas precisam entender que há oportunidade para elas na empresa.

Como profissional, não compartilho da postura de você ter que morrer trabalhando. Eu quero morrer vivendo. Não significa que vou parar de trabalhar, mas não permanecerei na mesma intensidade, na mesma velocidade que à medida que o tempo passa, e nós envelhecemos, torna-se um martírio. Houve fases quando mais jovem que eu tive de trabalhar muito mesmo. Mas é preciso se preparar nestes tempos para quando chegar o futuro.

É preciso fazer o que gosta e fazer com amor. É preciso ter brilho nos olhos. Sempre disse às pessoas com as quais trabalhei que quando eu sentisse que havia perdido o brilho nos olhos, porque alguma situação havia me deixado chateado, ou porque as mudanças não me agradaram mais, eu não iria esperar ninguém para me mandar embora; eu mesmo pegaria minhas coisas e sairia, para não contaminar o ambiente. Isso é ser profissional.

O Papel – Qual sua postura para lidar com os momentos difíceis?
Francisco Valério – Em primeiro lugar, acho que é necessário ter humildade.Saber ouvir e perceber que há pessoas, que podem te ajudar e querem te ajudar.Mas você precisa aceitar ajuda; dar abertura para receber ajuda das pessoas.

Humildade é uma palavra que eu sempre explico, mas as pessoas confundemhumildade com humilhação e não tem nada a ver. Humildade é ter a mente aberta. É preciso ter respeito também. O dia que acabar o respeito fica muito difícilseguir em frente.
E essas duas posturas: humildade e respeito são atitudes quenós podemos ter diante das dificuldades. Está em nossas mãos tomar estasatitudes. Achar que você está sempre certo não é certo. Uma frase que já ouvimilhões de vezes e que levo para mim é: você quer ter razão, ou você quer serfeliz? Eu quero ser feliz.

O Papel – Alguma decisão tomada em sua vida profissional lhe causou arrependimento?
Francisco Valério – Não me arrependo. Apenas em uma das minhas mudanças deempresa, eu acho que não compartilhei bem com a minha família e, por isso, acabou criando certo trauma, pelo risco que eu estava tomando para todos aodecidir sozinho.

Meu erro foi que: preocupado em não deixá-los preocupados, eutomei a decisão sozinho. Se eu tivesse compartilhado, teria sido mais fácilpara mim e também para eles terem compreendido. Tanto que mais adiante eu tiveoutra decisão até mais difícil de tomar – e compartilhei com eles – e foi muitomais fácil. Aí eu é que estava resistente e preocupado com eles. Mas funcionoumuito bem dividir o que estava se passando dentro de mim naquele momento emtermos de preocupações.
Portanto, arrependimento eu não tenho. Mas a forma que eutomei aquela decisão lá atrás é que fez a diferença. A questão é: eu tenho defazer; mas o como vou fazer é que faz toda diferença.

O Papel – Quanto a ABTCP contribuiu e fez parte de sua carreira?
Francisco Valério – Puxa vida… a ABTCP… Meu relacionamento com a ABTCPsempre foi muito interessante. Naquela época era ABCP, mas havia uma questão donome ser igual a da ABCP – Associação Brasileira de Cimento Portland. Então,fizemos uma reunião e colocamos o “T” de técnica para diferenciar a nossaentidade.

Sou associado há mais de 40 anos da ABTCP e desde oprincípio eu fiz questão de ser associado individual. As empresas que eutrabalhei – todas eram associadas –, mas eu sempre tive por princípio serassociado individual. Sou hoje associado honorário, recebi homenagem noCongresso, enfim, nossa história é muito interessante.

Como antigamente o acesso à informação era muito difícil, eujá entrei na então ABCP, fazendo parte de uma comissão técnica de recuperação eutilidades. O Brasil era fechado, e nós sentíamos necessidade de trocar ideias,por isso, era muito importante participar das reuniões de grupo.

Então, nós nos reuníamos na sede da ABCP, lá na rua Ximbó,165, na Aclimação; não tínhamos sala especial e nem muitas salas, por isso,nossa reunião acontecia na garagem… O presidente da ABCP, João Alfredo Leon,ia lá nos visitar… Então, sempre participei ativamente da ABTCP, que foi e éimportante para mim.

Passei por crises complicadas, mas superamos tudo junto comnossos parceiros de Diretoria, como o Gabriel José, o Dr. Gastão Campanaro, oMaurício Szacher e outros diretores até chegar aqui.

Posso dizer que hoje a ABTCP e suas atividades, produtos eserviços estão no mesmo nível das associações internacionais. Tudo é dealtíssimo nível. Sempre defendi a manutenção da ABTCP independente da Bracelpa.Fiz um trabalho neste sentido, por ela ser técnica. Mas ela precisa trabalharjunto com a Bracelpa, que é institucional.

Defendi isso aqui dentro da minha própria empresa. Portanto,temos de apoiar a manutenção da ABTCP pela importância que ela tem para odesenvolvimento técnico do setor. A ABTCP está no meu coração; não apenas hojecomo membro do Conselho Diretor, mas como profissional, e estará sempre.

O Papel – Quais seus planos futuros, após terminar seu novo ciclo como consultor da Fibria? O que pessoalmente você gostaria de fazer?
Francisco Valério – Sempre pensei em como poderia fazer alguma atividade filantrópica, ou seja, sem remuneração pelo meu trabalho. Às vezes, é difícil, porque as pessoas querem certa dedicação sua em termos de tempo e ficará complicado administrar meu tempo com minha família. Mas eu recebi tanto da vida que eu preciso retribuir. Certamente encontrarei este novo caminho no momento certo.

O Papel – Uma mensagem para todos os seus amigos e conhecidos…
Francisco Valério –A gente não cresce sozinho. Os outros é que nos ajudam a crescer. Não tenho dúvidas de que se eu consegui chegar aonde cheguei é porque tive o apoio de muitas pessoas – em primeiro lugar da minha família – e isso é que me ajudou a crescer. Mas tive apoio de toda a turma que trabalhei e que trabalha comigo em diversos lugares, onde passamos alegrias e dificuldades, que no final se transformaram em oportunidades. Quero agradecer a todos por estar participando e trabalhando até agora com o apoio deles!

Carreira em resumoNome: Francisco Fernandes Campos ValérioIdade: 65 anos
Formação Acadêmica:

•    Engenharia Mecânica – Centro Tecnológico da Universidade Federal de Santa Catarina (1970)

Experiência Profissional:

•    Diretor Industrial, Engenharia e Suprimentos – Fibria Celulose S.A. (atual, desde setembro/2009)
•    Diretor Técnico e Industrial– Votorantim Celulose e Papel (de novembro/1997 a setembro/2009) 
•    Diretor Industrial – Bahia Sul Celulose S.A. (de setembro/1991 a novembro/1997)
•    Gerente Geral de Operações – Aracruz Celulose S.A. (de abril/1985 a setembro/1991)
•    Gerente da Fábrica de Celulose – Companhia Suzano de Papel e Celulose (de junho/1984 a abril/1985)
•    Gerente de Produção – Aracruz Celulose S.A. (de junho/1981 a junho/1984)
•    Gerente de Utilidades/Recuperação – Aracruz Celulose S.A. (de janeiro/1979 a junho/1981)
•    Superintendente de Utilidades/Recuperação – Braskraft Florestal e Industrial (de dezembro/1976 a janeiro/1979)
•    Superintendente de Utilidades/Recuperação – Olinkraft Celulose e Papel Ltda. – Igaras (de dezembro/1970 a dezembro/1976)
•    Estagiário na Olinkraft Celulose e Papel Ltda. (julho/1969, janeiro e julho/1970)

Clique aqui e confira também a matéria Carreiras sobre o executivo publicada na edição de maio/2013 da Revista O Papel.

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