Como os créditos de carbono estão reposicionando os ativos florestais e a indústria de papel e celulose?

POR GABRIEL REIS

A atividade econômica global tem sido marcada por uma expansão sem precedentes da demanda por energia, bens e infraestrutura. Esse crescimento, embora tenha sustentado ganhos expressivos de produtividade e bem-estar, também ampliou a pressão exercida sobre o sistema climático do planeta. Nesse contexto, o mercado de carbono ganha centralidade e, a partir dessa edição, vamos examinar como ele vem redefinindo o valor da cadeia florestal.

O clima sob pressão
O desafio climático não decorre das atividades de um único setor ou de uma decisão isolada, mas da soma de escolhas repetidas ao longo do tempo. A velocidade com que a atividade humana passou a emitir gases causadores do efeito estufa (GEE) redefiniu, em poucas gerações, um equilíbrio climático construído ao longo de milênios.

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As variações naturais na concentração de dióxido de carbono sempre fizeram parte da dinâmica climática do planeta. Ainda assim, a ciência é clara ao identificar as emissões humanas de gases de efeito estufa como a principal causa do aquecimento global. Cerca de 75% das emissões globais de GEE se originam nos setores de energia, que incluem a geração de energia elétrica, transportes, produção industrial e construção civil. Os demais 25% se dividem entre as atividades agrícolas, processos químicos, gestão de resíduos e atividades florestais.

A grande questão é que esse volume inédito de emissões supera em muito a capacidade dos mecanismos naturais do planeta em estocá-los, elevando a concentração de dióxido de carbono na atmosfera para os maiores níveis que se tem conhecimento. Esse fato, por sua vez, traz consequências que podem ter impacto direto à manutenção dos ecossistemas e biodiversidade na Terra, como o aquecimento global, acidificação dos oceanos e mudanças bruscas dos padrões de clima.

De acordo com o Climate Action Tracker, uma organização sem fins lucrativos dedicada às pesquisas em ciências climáticas, a temperatura média global já está cerca de 1,3 °C acima dos níveis registrados antes da primeira revolução industrial.

A resposta global
Com a compreensão do problema e intensivos esforços diplomáticos, os países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) assinaram em 2015 o Acordo de Paris, um tratado emblemático cujo objetivo pode ser definido como a construção de pontes entre o desenvolvimento econômico e a ampla redução de emissões de GEE.

Os países signatários definiram metas para limitar o aquecimento global a uma temperatura média idealmente inferior aos 1,5 °C até o final do século 21. Apesar de se tratar de número arbitrário, ele representa uma linha de defesa contra um cenário em que a ocorrência de eventos climáticos extremos se torna cada vez mais frequente ao redor do planeta.

Embora avanços tenham sido feitos desde 2015, estima-se que as políticas climáticas atualmente em vigor, somadas às que ainda estão em discussão, seriam suficientes apenas para limitar o aquecimento global a cerca de 2,6 °C nessa mesma métrica, muito acima do limite considerado seguro e evidenciando a necessidade urgente de novas políticas e ações climáticas.

O desafio das emissões
Em geral, é muito mais barato e eficiente evitar emissões de GEE do que removê-las da atmosfera. Ainda assim, beira a ingenuidade esperar que todas as indústrias, em escala global, substituam sua matriz energética e seus maquinários apenas em resposta aos incentivos e penalidades do movimento de descarbonização, seja por limitações financeiras, técnicas ou pela inércia dos próprios processos produtivos. Os casos em que essa transição se mostra inviável por razões econômicas ou tecnológicas são comumente classificados como pertencentes aos chamados setores de difícil descarbonização.

Existem diversas tecnologias promissoras para a captura e armazenamento de GEE diretamente da atmosfera. Em seu estado atual, essas iniciativas demandam altos investimentos e custos operacionais, além de operarem com eficiência limitada.

Como forma realista de equilibrar o impacto negativo desses segmentos, surgem as iniciativas que extraem o dióxido de carbono (CO2) presente no ar. Entre essas, estão as soluções baseadas na natureza, Nature-based solutions (NBS), em inglês, bem como projetos de reflorestamento de áreas desmatadas e na conservação de vegetação nativa presente em áreas onde exista pressão por desmatamento, como por exemplo, causada pela expansão da pecuária ou pelo desenvolvimento urbano.

As iniciativas de NBS são reconhecidas como o caminho de maior efetividade em termos de custo-benefício para a mitigação das mudanças climáticas. Dentro desse ecossistema, os projetos de carbono de base florestal se destacam pelo seu potencial de proporcionar remoções comprováveis com diversos cobenefícios, afetando positivamente a biodiversidade e as comunidades locais.

Países com vastas florestas tropicais, como é o caso do Brasil, são centrais nesses esforços, oferecendo ampla cobertura florestal e a profundidade institucional necessária para escalar seu desenvolvimento.

Mercado de carbono
A partir dessas diferentes respostas ao desafio climático idealiza-se o mercado de carbono: um mecanismo de coordenação econômica que busca atribuir valor monetário à compensação de emissões por meio de incentivos financeiros para as atividades que contribuam para a mitigação das mudanças climáticas. Esse mecanismo assume formas distintas, refletindo diferentes níveis de intervenção pública e de participação da iniciativa privada.

Mercados voluntários
Amparados pelas diretrizes do Acordo de Paris, os mercados voluntários de carbono surgiram a partir da iniciativa privada, conectando compromissos climáticos corporativos a projetos com impacto climático positivo. Nesse modelo, a negociação de créditos responde à crescente pressão de investidores e consumidores por metas climáticas mensuráveis.

Há ainda um componente estratégico de gestão do risco regulatório, no qual a antecipação de obrigações futuras assegura acesso a fontes de compensação que podem se tornar mais caras e limitadas em um eventual cenário regulado.

Mercados regulados
Em contraste com o modelo voluntário, o mercado regulado funciona sob supervisão direta do poder público, habitualmente organizado em torno de dois instrumentos principais.

Em sua versão mais simples, o imposto sobre o carbono se destaca por atribuir um preço explícito por volume de GEE emitido, internalizando o custo climático da atividade econômica de uma empresa.

Outra abordagem adotada é o sistema de comércio de emissões (ETS), também denominado Cap-and-trade. Este instrumento estabelece um limite máximo de emissões por agente, permitindo que o mercado determine o preço do carbono por meio da negociação de permissões.

Este último é o formato central adotado pelo Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o mercado regulado de carbono aprovado em 2024 no País. Embora ainda em desenvolvimento, espera-se que sua maturidade e adoção plena sejam alcançadas até 2030, quando as empresas responsáveis pelos maiores volumes de emissões de GEE serão obrigadas a reduzir ou compensar dentro desse sistema.

É importante entender que nem todo crédito de carbono é igual. Historicamente, critérios como origem, aceitação de mercado e integridade têm favorecido aqueles provenientes de projetos de base florestal, embora existam créditos originados em projetos nos setores de agricultura, energias renováveis, gestão de resíduos e diversas outras. O ponto-chave que unifica esses créditos é sua equivalência a uma única tonelada de dióxido de carbono equivalente, ou tCO2e.

As florestas do Brasil
À medida que a demanda global por soluções baseadas na natureza acelera, as iniciativas brasileiras de carbono florestal vêm ganhando tração como uma nova fronteira de investimento com impacto climático positivo.

De acordo com dados da Fastmarkets, o engajamento das florestas do Brasil em projetos deste tipo cobre cerca de 3,5 milhões de hectares, refletindo seu papel vital na estratégia de mitigação climática global. Mais de 3 milhões de hectares da Amazônia brasileira já estavam comprometidos com projetos ativos de carbono florestal em 2025, e cerca de 7,8 milhões de hectares de projetos de conservação e outras iniciativas de desmatamento evitado encontram-se em desenvolvimento nesse mesmo bioma. Essas são áreas que futuramente poderão ser incorporadas à matriz nacional de projetos de base florestal ativos.

É notável o engajamento de gestores de terras florestais em outros biomas e regiões do País. O Centro-Oeste, conhecido como o principal polo de desmatamento do Brasil, apresenta uma modesta área agregada de 235 mil hectares de projetos ativos nesta categoria, majoritariamente sob protocolos de conservação. Esse contraste evidencia o potencial do mercado de carbono como fonte de financiamento alternativo para fomento da restauração ecológica e do uso sustentável da terra.

Ainda assim, há nuances além dos aspectos positivos. Os volumes de emissão de créditos têm crescido a um ritmo bem mais lento e linear do que sua extensão territorial. As áreas florestais comprometidas com projetos ativos de carbono cresceram a uma taxa anual de 19% ao longo dos últimos dez anos, enquanto as emissões correspondentes de seus créditos avançaram a apenas 7%, atingindo um total de 81 milhões de créditos de carbono florestal até o final de 2024.

Uma parte relevante dessa morosidade pode ser atribuída à lentidão das etapas de verificação e registro dos projetos e de suas emissões, que envolvem crivos altamente técnicos, realizados por uma mão de obra escassa. Processos ineficientes e fluxo de caixa incerto, por sua vez, são alguns dos maiores pesadelos de qualquer gestor, o que justificadamente pode criar sobrecautela e aversão.

Do papel e celulose ao carbono
A otimização de plantios florestais para o sequestro de carbono e para a produção industrial de madeira seguem agendas bastante distintas, embora ambas derivem da mesma base territorial. Enquanto uma busca ampliar o potencial de ação climática das florestas em pé, a outra procura maximizar a produtividade de fibra e biomassa por meio de intervenções silviculturais intensivas. Nesse contexto, a intersecção entre a indústria brasileira de papel e celulose e o crescimento dos projetos de carbono de base florestal constitui um desenvolvimento louvável tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico.

Contudo, existem casos em que plantações de eucalipto que antes eram integralmente direcionadas à produção industrial agora foram reinterpretadas como potenciais fontes de ação climática. Empresas brasileiras como Suzano e Klabin têm sido pioneiras na integração de projetos de carbono a parte de sua produção industrial, reconhecendo que florestas de rápido crescimento podem sequestrar quantidades significativas de carbono quando cultivadas sob condições específicas e com práticas sustentáveis.

Um excelente exemplo é o projeto ARR Horizonte, uma iniciativa de grande escala de reflorestamento desenvolvida pela Suzano em parceria com a desenvolvedora de projetos de carbono WayCarbon, abrangendo mais de 15 mil hectares dedicados principalmente ao plantio de eucalipto.

O projeto, desenvolvido em Mato Grosso do Sul, tem como objetivo a restauração e revegetação de áreas degradadas por atividades de pecuária.

Ainda que haja expectativa de retorno econômico vindo da comercialização dos créditos de carbono, as áreas plantadas permanecem produtivas, e a empresa continua a extrair sua matéria-prima para o abastecimento de suas fábricas na região.

Sob uma perspectiva qualitativa, o projeto ARR Horizonte se mostrou um grande desafio à percepção erroneamente difundida de que projetos de carbono resultam em áreas inoperáveis.

Registrado junto à Verra em 2023, um dos mais respeitados registros internacionais de projetos de carbono, a iniciativa já emitiu e aposentou créditos em nome de grandes empresas, como os bancos Itaú Unibanco e Standard Chartered, além de parcerias em projetos específicos, como a compensação das emissões associadas à fabricação de embalagens para a farmacêutica Merck e o Grupo Boticário, uma das maiores redes de beleza e cosméticos do País.

O futuro além da compensação
Enquanto uma parcela da economia ainda enxerga o mercado de carbono como um custo de conformidade imposto pelo ativismo ambiental, lideranças visionárias já o percebem como uma nova classe de ativos estratégicos.

Para o setor de papel e celulose, o amadurecimento desse ecossistema vai além da simples compensação, oferecendo uma nova camada de valor intrínseca à base florestal, trazendo a oportunidade de consolidação do seu papel como pivô da transição sustentável. A madeira colhida e transformada em produtos de longo ciclo de vida retém o carbono sequestrado da atmosfera, estendendo o benefício ambiental para muito além das porteiras das florestas e dos portões das fábricas de papel e celulose.

Mais do que ver o tempo passar, cabe aos protagonistas da indústria fortalecer os alicerces dessa nova economia, convertendo sua própria vocação “verde” na extensão de sua vantagem competitiva global.

Gabriel Reis – Responsável pelas análises dos mercados de carbono florestal na Fastmarkets e palestrante internacional. Reúne experiência no desenvolvimento de projetos de carbono em diversos países da América Latina e na gestão de investimentos florestais de grande escala. É autor do relatório North American Forest Carbon Profiles e colabora regularmente com outras publicações e projetos de consultoria. Possui MBA pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com foco em gestão florestal. E-mail: [email protected]

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