CNI aponta financiamento climático como prioridade da indústria brasileira na COP31

Documento da Confederação Nacional da Indústria reúne diretrizes do setor produtivo para as negociações climáticas, com foco na redução do custo de capital, descarbonização industrial e atração de investimentos

A viabilização do financiamento climático e a redução do custo de capital para projetos de descarbonização estão entre as principais prioridades da indústria brasileira para a 31ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP31). Às vésperas do encontro, que será realizado entre 9 e 20 de novembro, em Antália, na Turquia, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou o documento Visão da Indústria para a COP31, com as diretrizes do setor produtivo para as negociações internacionais sobre a agenda climática.

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O documento destaca que a transformação das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris em resultados concretos depende da ampliação dos recursos internacionais e da estruturação de mecanismos financeiros eficientes.

Para o presidente da CNI, Ricardo Alban, a descarbonização industrial está diretamente relacionada à segurança dos investimentos e à construção de um ambiente internacional equilibrado. Segundo ele, a indústria brasileira tem papel central na transição para uma economia de baixo carbono, e a COP31 deve avançar na implementação de medidas práticas e mensuráveis.

O superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da entidade, Davi Bomtempo, também ressalta a importância da articulação multilateral para viabilizar os compromissos climáticos. A CNI defende o fortalecimento de iniciativas que contribuam para a redução de emissões e a adaptação dos setores industriais, além da construção de consensos para impulsionar a implementação do Acordo de Paris.

Financiamento climático: como viabilizar as metas do Acordo de Paris?

Uma das principais discussões previstas para a COP31 envolve o financiamento climático. A meta estabelecida na COP29 prevê a mobilização de US$ 300 bilhões anuais até 2035, com a ambição de alcançar US$ 1,3 trilhão por ano.

As negociações, no entanto, enfrentam divergências sobre a origem desses recursos. Enquanto países em desenvolvimento defendem o acesso a financiamento público e doações, conforme previsto no Artigo 9.1 do Acordo de Paris, economias desenvolvidas buscam ampliar a participação do capital privado.

Diante desse cenário, a CNI defende uma abordagem equilibrada, baseada em três frentes:

  • Cumprimento do Artigo 9.1: mobilização de recursos públicos e doações pelos países desenvolvidos, considerados compromissos legais que não devem ser substituídos por investimentos privados.
  • Diversificação das fontes de financiamento: atração complementar de capital privado por meio de instrumentos financeiros brasileiros, como EcoInvest Brasil, BIP e Fundo Clima.
  • Redução dos custos para a indústria: eliminação de barreiras burocráticas, mitigação de riscos e redução do custo de capital para viabilizar os investimentos necessários à descarbonização do parque fabril brasileiro.

Outros cinco pilares da indústria brasileira para a COP31

Além do financiamento climático, o documento Visão da Indústria para a COP31 apresenta diretrizes para outros cinco eixos considerados estratégicos pelo setor produtivo.

1. Adaptação climática: infraestrutura e cidades preparadas

A COP30 aprovou 59 indicadores globais para mensurar a adaptação aos eventos climáticos extremos. Entretanto, as divergências sobre o financiamento das medidas, cujas necessidades podem chegar a US$ 387 bilhões anuais, transferiram a discussão para a COP31.

A CNI defende que as metodologias considerem as particularidades dos setores produtivos e propõe que o Brasil lidere a aplicação prática dos indicadores. A iniciativa prevê a integração das métricas ao Plano Clima e à plataforma IndicaClima, acompanhada de capacitação e suporte financeiro internacional.

2. Programa de Trabalho de Mitigação: descarbonização sem penalidades

O Programa de Trabalho de Mitigação (MWP) foi criado para acelerar a redução das emissões, com caráter voluntário, não prescritivo e soberano. Segundo a CNI, as discussões no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) têm enfrentado impasses.

A indústria brasileira defende a manutenção do caráter não punitivo do programa e a vinculação de eventuais metas a incentivos efetivos de financiamento e transferência de tecnologia. Também propõe uma transição energética gradual e economicamente viável, que valorize soluções já consolidadas no país, como os biocombustíveis, e evite a criação de novas barreiras comerciais.

3. Comércio e clima: combate ao protecionismo ambiental

O avanço de legislações unilaterais, como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia (CBAM) e a lei antidesmatamento europeia (EUDR), gera preocupações entre países em desenvolvimento devido ao aumento dos custos de conformidade e ao risco de restrições comerciais às exportações.

Nesse contexto, a CNI defende maior transparência e o reconhecimento do princípio da interoperabilidade, para que as políticas ambientais brasileiras sejam consideradas internacionalmente sem discriminação. A entidade também propõe fortalecer o Subcomitê do Acordo União Europeia-Mercosul, com o objetivo de assegurar o reconhecimento da indústria e da agricultura de baixo carbono.

4. Balanço Global: transformar compromissos em ações concretas

A COP31 marcará o início do segundo ciclo do Balanço Global (GST2), processo que avaliará, até 2028, o avanço da implementação do Acordo de Paris. A discussão ocorre diante do alerta do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) de que a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C não deverá ser alcançada no curto prazo.

Para o setor produtivo brasileiro, o GST2 deve contribuir para destravar fluxos financeiros que permitam cumprir os compromissos climáticos. A CNI também defende o reconhecimento de diferentes trajetórias tecnológicas, da coexistência de fontes renováveis de energia e da valorização econômica da floresta em pé.

5. Agenda de Ação e SB COP: ampliar compromissos empresariais

A Agenda de Ação da COP31 reúne governos e setor privado em torno de metas voluntárias até 2035. Uma das iniciativas é a rede Sustainable Business COP (SB COP), presente em mais de 120 países e com alcance de 55 milhões de empresas.

No âmbito dessa articulação, o setor produtivo estabelece compromissos em três frentes:

  • Industrialização verde: elevar para 15% a taxa de utilização circular de materiais até 2035.
  • Transição energética: ampliar para 35% a participação da eletricidade no consumo industrial final até 2035.
  • Mecanismo BRIDGE: expandir a estruturação de carteiras de projetos sustentáveis preparados para receber investimentos (finance-ready).

CNI terá espaço dedicado à indústria na COP31

A Confederação Nacional da Indústria participará da Blue Zone da COP31 com o Implementation Hub Pavilion, espaço destinado à realização de painéis e encontros entre lideranças empresariais, representantes governamentais, instituições financeiras e organizações internacionais. A programação terá como foco o compartilhamento de experiências, a discussão de oportunidades e o fortalecimento de parcerias para a transição a uma economia de baixo carbono.

O pavilhão é promovido pela CNI, em correalização com o Conselho Nacional do SESI, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e a World Climate Foundation (WCF). A iniciativa também conta com o apoio do Instituto Amazônia+21, da Facility de Investimentos Sustentáveis (FAIS), do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e da U.S. Chamber of Commerce.

Entre os patrocinadores estão a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Samarco, Aegea, MBRF, Vale, Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), Volkswagen Truck and Bus e Ambev.

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