Outubro de 2026: aparas estáveis, com coleta restringida pelas chuvas e importação de aparas de ondulado em alta

O conjunto de dados referente a outubro de 2026 mostra um mercado de aparas com preços estáveis e a atenção concentrada no lado da oferta. Em setembro, o ondulado I e o ondulado II avançaram apenas 0,2%, depois de altas de 1,1% e 1,4% em agosto, e as aparas brancas recuaram pelo segundo mês consecutivo nas três categorias. Os estoques nas fábricas ficaram no mesmo patamar do mês anterior, enquanto as chuvas restringem a coleta de material. Pelo lado da demanda, os dados do IBGE de agosto indicam recuo da indústria, queda interanual da produção de bens de consumo e varejo praticamente estável na margem, com retração forte em eletrodomésticos

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Indústria (IBGE)

A indústria geral recuou 0,6% em agosto frente a julho, com ajuste sazonal. Na comparação com agosto de 2025, o setor registrou queda de 1,2%, e o acumulado do ano ficou em alta de 0,8%, abaixo dos 1,1% apurados até julho. A produção de bens de consumo, indicador mais diretamente ligado à demanda por embalagens à base de papel, caiu 1,5% na variação mensal e 3,4% na comparação interanual, com acumulado do ano em alta de 0,3%, ante 0,8% até julho. Dentro do grupo, os bens duráveis cresceram 2,8% frente a agosto de 2025, enquanto os semiduráveis e não duráveis, que reúnem os produtos embalados de consumo corrente, recuaram 4,5%. O acumulado do ano de bens de consumo, que antes mostrava alta modesta, se aproxima da estagnação. Para a cadeia de papel e aparas, o dado de agosto aponta uma demanda industrial por embalagens sem tração, com a produção de bens finais abaixo do nível do ano anterior.

Comércio Varejista (IBGE)

O volume de vendas do varejo em agosto de 2026 ficou 0,4% acima do registrado em agosto de 2025, desaceleração frente à alta de 1,2% de julho, e praticamente estável na comparação com julho (0,1%, com ajuste sazonal). Entre os geradores de aparas marrons, hipermercados e supermercados avançaram 0,6% na comparação interanual, ritmo bem inferior ao de julho (2,9%). O segmento farmacêutico cresceu 4,8%, mantendo desempenho positivo. Eletrodomésticos recuaram 10,1%, segunda queda interanual consecutiva e agora em dois dígitos, depois de recuo de 3,6% em julho. No segmento de aparas brancas, livros, jornais, revistas e papelaria cresceram 1,1% na comparação interanual, após queda de 1,7% em julho. Combustíveis e lubrificantes, que servem como indicador de custo logístico e não como gerador de aparas, subiram 0,8%. A perda de força de supermercados e a queda de eletrodomésticos no varejo de agosto tendem a se refletir na geração de aparas ao longo dos próximos meses, dada a defasagem natural entre a atividade no varejo e a disponibilidade de material na cadeia, e não nos preços de setembro, que já ocorreram.

Indicadores aparas

Varejo por Estado (acumulado do ano)

No acumulado do ano de 2026 até agosto, o varejo brasileiro cresce 1,7% frente ao mesmo período de 2025, ante 1,8% até julho e 1,9% até junho. Entre os principais polos geradores de aparas, São Paulo segue sem crescimento, com variação de 0,0% no acumulado, mesmo patamar de julho (0,1% até junho), e registrou queda de 0,3% em agosto na comparação com agosto de 2025. Minas Gerais é o único polo da lista com avanço gradual do acumulado, de 0,1% até junho para 0,3% até julho e 0,4% até agosto, ainda bem abaixo da média nacional. O Rio de Janeiro cresce 1,4% (1,9% até julho) e o Rio Grande do Sul 0,7% (1,0% até julho), ambos abaixo da média do País e em desaceleração. Paraná e Santa Catarina seguem como destaques, com altas de 3,4% e 4,1%, mas também com acumulado menor que o de julho (3,7% e 4,4%). Na comparação do próprio mês de agosto com agosto de 2025, Rio de Janeiro (queda de 1,8%) e Rio Grande do Sul (queda de 1,5%) ficaram no negativo, assim como São Paulo, enquanto Paraná (1,6%), Santa Catarina (1,8%) e Minas Gerais (1,1%) seguiram em alta. O Sul continua crescendo acima da média nacional, mas o ritmo vem diminuindo mês a mês, e São Paulo, principal centro consumidor de aparas, permanece sem crescimento no acumulado.

Aparas Marrons

As aparas marrons praticamente não variaram em setembro. O ondulado I foi negociado em média a R$ 1.199,17 por tonelada FOB depósito, com alta de 0,2% frente a agosto, e o ondulado II a R$ 1.098,73 por tonelada FOB depósito, também com alta de 0,2%. É a sexta alta mensal consecutiva desde abril, porém no menor ritmo do período: o ondulado I subiu 2,7% em julho e 1,1% em agosto, e o ondulado II, 4,6% e 1,4% nos mesmos meses. Em relação ao piso de março, o ondulado I acumula valorização de 11,3% e o ondulado II de 14,4%, mas ambos seguem abaixo dos preços de setembro de 2025, com quedas interanuais de 3,4% e 2,7%, respectivamente. Os estoques nas fábricas se estabilizaram no mesmo patamar de agosto, sem alteração relevante no nível de oferta. O ponto de atenção está na coleta: as chuvas vêm restringindo a disponibilidade de material, e a menor oferta de aparas pode pressionar os preços das marrons nos próximos meses, caso a restrição persista.

Aparas Brancas

As aparas brancas recuaram pelo segundo mês consecutivo em todas as categorias. A branca I foi negociada em média a R$ 2.475,13 por tonelada FOB depósito, com recuo de 0,1%, variação que na prática indica estabilidade. A branca II registrou preço médio de R$ 1.476,67 por tonelada, com queda de 0,6%, e a branca III foi comercializada em média a R$ 1.142,50 por tonelada, com recuo de 0,4%. Na comparação interanual, a branca I está 4,9% abaixo de setembro de 2025 e a branca II está 0,7% acima, enquanto a branca III, que partia de patamar baixo (R$ 1.034,65 em setembro de 2025), mostra alta de 10,4%. No acumulado do ano, as três categorias estão abaixo do fechamento de 2025, com quedas de 4,7%, 4,2% e 5,6%, respectivamente. A celulose de fibra branqueada foi negociada em setembro a R$ 4.650,00 por tonelada, com queda de 1,8% frente a agosto, segunda baixa mensal consecutiva e continuidade da trajetória de queda do segundo semestre. Com a fibra virgem mais barata, diminui o incentivo das papeleiras a substituí-la por aparas brancas – cenário coerente com o recuo contínuo do segmento.

Exportações de Kraftliner

As exportações de kraftliner totalizaram 51.150 toneladas em setembro, volume acima da média mensal de 2026, de 49.387 toneladas, e o maior desde março (53.397 toneladas). Frente a agosto (46.076 toneladas), a alta foi de 11,0%, e frente a setembro de 2025 (43.570 toneladas), de 17,4%. A média mensal de 2026 permanece acima da de 2025, de 43.222 toneladas, o que mantém o mercado externo como canal relevante de escoamento do papel ao longo do ano. Vale observar que a variação dos embarques, para cima ou para baixo, não permite concluir sobre a disponibilidade de material no mercado interno, uma vez que a produção do período pode ter acompanhado o movimento. A leitura mais precisa do efeito sobre a oferta doméstica dependeria do acompanhamento conjunto dos volumes produzidos.

Papel Miolo

O papel miolo foi negociado em setembro em média a R$ 4.526,57 por tonelada FOB depósito, com recuo de 0,1% frente a agosto, na prática estabilidade, pelo segundo mês consecutivo de pequena queda (0,2% em agosto). Na comparação interanual, o preço está 1,1% acima de setembro de 2025 e, no acumulado do ano, 0,7% acima do fechamento de 2025. O comportamento é compatível com o das aparas marrons, que subiram 0,2% no mesmo mês: miolo e ondulado operam em patamares estáveis.

Comércio Exterior de Aparas

A importação de aparas superou a exportação pelo quarto mês consecutivo em setembro, repetindo o movimento iniciado em junho. No mês, as importações totalizaram 3.609 toneladas, contra 1.180 toneladas exportadas, resultando em saldo negativo de 2.428 toneladas, o maior de 2026. A importação cresceu 41,1% frente a agosto (2.558 toneladas) e atingiu o maior volume mensal do ano, enquanto a exportação recuou 8,0% (1.283 toneladas em agosto). Na comparação com setembro de 2025, a importação mais que dobrou (alta de 138,4%) e a exportação caiu 15,1%. Pela tabela acumulada por tipo, a importação de aparas de ondulado passou de 9.761 toneladas até agosto para 13.370 toneladas até setembro. No acumulado do ano, as exportações somam 13.608 toneladas (alta de 17,5%) e as importações 14.240 toneladas (queda de 13,9%), e o saldo, que era positivo até agosto, passou a negativo em 632 toneladas. A entrada de aparas de ondulado importadas ocorre no mesmo mês em que as chuvas restringem a coleta doméstica e os preços das marrons ficam estáveis, e consolida o tema como ponto de atenção para os próximos meses.

A leitura integrada dos dados aponta para um mercado de aparas em acomodação de preços, mas com fatores de oferta em movimento. As marrons seguem em alta marginal, as brancas recuam pelo segundo mês, a celulose continua em queda e os estoques das fábricas estão estáveis. Do lado da demanda, a indústria e o varejo de agosto perderam fôlego, com queda interanual de bens de consumo e retração de eletrodomésticos, o que, pela defasagem natural, tende a aparecer na geração de aparas nos próximos meses e não nos preços de setembro. Do lado da oferta, a coleta restringida pelas chuvas e o avanço das importações de aparas de ondulado atuam em direções opostas sobre a disponibilidade de marrons, e os embarques de kraftliner voltaram a patamar acima da média do ano. O quadro é coerente com o padrão de fim de ano, de menor pressão de alta nos preços, e os pontos a acompanhar nas próximas leituras são a evolução da coleta e o ingresso de material importado sobre os preços das marrons.

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Filipe Brumatti de Souza
Engenheiro de Alimentos formado pela UNESP e com MBA em Gestão de Projetos pelo SENAI. É sócio fundador da MAPA.SA Consultoria e Análises Socioambientais e coordenador do Projeto Conexões. E-mail: [email protected]

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