Nesta terça-feira (11), a COP30 teve como destaque para o setor de florestas plantadas o painel “The forest continuum and Brazil´s leading role in the global climate agenda with economic development” (O contínuo florestal e o papel de liderança do Brasil na agenda climática global com desenvolvimento econômico, em tradução livre), realizado no Special Events Room 1, na chamada Blue Zone.
O principal ponto do evento foi o lançamento da publicação “O protagonismo das florestas brasileiras na agenda climática global”, uma produção conjunta da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura com o Instituto Arapyaú e parceiros como a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) e a Suzano.

A publicação destaca o papel do Brasil como um país florestal por excelência, que detém cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, o que equivale a quase 60% do território nacional distribuídas em diferentes biomas.
O país é líder em silvicultura de alta produtividade, especialmente com eucalipto e pinus, que contribuem para o desenvolvimento econômico, inovação e serviços ambientais. Essa diversidade forma o chamado “contínuo florestal”, que integra restauração e conservação de florestas nativas conservadas à plantios comerciais, além de sistemas agroflorestais que combinam produção de alimentos, fibras e energia.
Para Roberto Waack, membro do conselho do Instituto Arapyaú e Beto Veríssimo Cofundador e Pesquisador Associado Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazôniado (Imazon), essa visão do contínuo, apoiada por tecnologia, monitoramento público e certificações, posiciona o Brasil entre os países mais competitivos para conservar, restaurar e plantar em escala, com impacto direto sobre o clima.
O documento sublinha que as florestas brasileiras armazenam vastos estoques de carbono, regulam regimes de chuva e ciclos hídricos, que são fundamentais para a segurança hídrica, a geração de energia através de hidrelétricas e a produção agropecuária e abrigam uma das maiores biodiversidades do planeta.
A conservação das florestas nativas está intrinsecamente ligada aos povos originários e ao robusto arcabouço de áreas protegidas (Terras Indígenas e Unidades de Conservação). De acordo com a pesquisa, o Brasil tem capacidade de reduzir o desmatamento de forma significativa para alcançar o desmatamento ilegal zero até 2030.
Para que se possa alcançar esta meta é imprescindível combinar políticas de comando e controle à instrumentos de mercado como REDD+ jurisdicional e fundos do tipo Tropical Forests Forever (TFFF), sem que haja conflito com a expansão do agronegócio, graças ao potencial do setor de árvores plantadas para produzir e restaurar o grande volume de áreas desmatadas e subutilizadas existentes no Brasil.
Na dimensão econômica e industrial, a publicação destaca a silvicultura no Brasil como a mais competitiva do mundo, com ganhos de produtividade baseados em melhoramento genético, mecanização, gestão de riscos climáticos e digitalização do monitoramento de incêndios por sensores e VANTs ao controle de pragas e à medição digital de madeira.
Para Malu Paiva, vice-presidente executiva de Sustentabilidade, Comunicação e Marca da Suzano, o setor vive uma fase de grande evolução, alinhando produtividade a impacto positivo mesmo diante de eventos extremos: “Em 2024, enfrentamos uma das piores ondas de incêndios da história, mas com a integração entre empresas, governos, brigadas locais (inclusive indígenas) e tecnologia de detecção precoce, reduzimos em 61% os incêndios em áreas de plantio”. Paiva também destacou o equilíbrio entre desenvolvimento econômico, inclusão social e mitigação climática.
Na mesma linha, José Carlos da Fonseca Jr., membro do Conselho Diretivo da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), ressaltou o papel estratégico do setor na transição de baixo carbono: “O setor de árvores cultivadas planta cerca de 1,8 milhão de árvores por dia, resultado de décadas de pesquisa, melhoramento genético e inovação, sempre com foco em sustentabilidade e produtividade. Esse é um verdadeiro caso de sucesso do Brasil, um exemplo de como é possível conciliar competitividade com responsabilidade socioambiental”.
Fonseca também lembrou que o setor florestal brasileiro é um dos mais avançados do mundo em tecnologia de monitoramento, manejo e gestão de risco. “Temos orgulho de liderar esse movimento. Nossa missão agora é ampliar a cooperação com outros atores como o setor de restauração, as universidades, entes do governo e da sociedade civil, para fortalecer o papel das florestas como solução climática global”, concluiu.
Já a restauração florestal com espécies nativas desponta como nova fronteira econômica, intensiva em capital e com forte impacto territorial, capaz de atrair investimentos privados via mercado voluntário de carbono e projetos de alta integridade, com benefícios socioambientais.
O Instituto Arapyaú descreveu dois cenários para 2035: um cenário base, que implicaria perda de cerca de 1% do estoque de carbono com desmatamento nos níveis médios atuais, e um cenário potencial, com ganho de 1% do estoque ao combinar desmatamento zero, alinhado a NDC brasileira, proteção de florestas secundárias e expansão de restauração e silvicultura.
Para destravar escala, segundo o estudo, o país precisa de financiamento adequado ao ciclo florestal, ajustes regulatórios e tributários, segurança fundiária, fortalecimento da cadeia de suprimentos e mercados compradores, além de inclusão produtiva de agricultores familiares e povos e comunidades tradicionais.
Para Carolle Alarcon, membro do Coalizão Brasil, a COP30 exige que o Brasil apresente soluções concretas e em larga escala em florestas, agricultura e clima. “É hora de elevar a ambição e mostrar soluções já em curso, projetando uma visão de futuro que coloca o país como protagonista climático, ao mesmo tempo em que identifica os desafios para ampliar sua contribuição”, afirmou.
Na mesma linha, para Waack e Veríssimo as florestas conservadas, manejadas e restauradas estão entre as soluções climáticas mais escaláveis e custo-efetivas disponíveis, responsáveis por cerca de um terço da absorção anual das emissões globais, e enfatizam “Sem árvores em pé não há Acordo de Paris”.
A mensagem central da publicação, reiterada pelos participantes do evento é que o Brasil reúne condições únicas para liderar a transição climática global, combinando base florestal, inovação e políticas públicas consolidadas. O estudo estima que o país tem potencial para ampliar sua cobertura florestal em uma área equivalente a duas vezes o território da Suíça, sem competir com a produção de alimentos, uma oportunidade decisiva para aumentar os estoques de carbono, gerar empregos verdes e expandir a bioeconomia.



