Sem decisões formais nesta quarta-feira (19), após o cancelamento da coletiva da noite, a COP30 consolidou o dia como um marco de implementação. Em Belém, governos, agências multilaterais e atores não estatais impulsionaram iniciativas voltadas à adaptação, recuperação de terras degradadas e fortalecimento das comunidades mais vulneráveis, especialmente mulheres e agricultores familiares. O pano de fundo foi o Evento de Alto Nível de Ação Climática Global, que convocou um “mutirão internacional” para transformar compromissos em resultados concretos, eixo que vem se tornando definidor da conferência.
No plenário Tocantins, a presidência da COP, o secretariado da UNFCCC, Climate High-Level Champions e delegações reforçaram que a década pós-Paris será medida pela capacidade de entrega. Ana Toni, CEO da COP30, destacou que compromissos assumidos em conferências anteriores já começam a gerar resultados tangíveis, como o financiamento de US$ 1,7 bilhão para povos indígenas e comunidades locais anunciado na COP26, montante integralmente mobilizado um ano antes do prazo, além do reforço de US$ 1,5 bilhão a US$ 2 bilhões até 2030. Ana também citou o Plano de Ação de Saúde de Belém, que reúne 30 países, 50 organizações e já atraiu a sinalização inicial de US$ 30 bilhões para fortalecer sistemas de saúde frente aos extremos climáticos.
O secretário-executivo da UNFCCC, Simon Stiell, afirmou que a agenda de ação climática global deixou de ser uma “vitrine paralela” para se tornar parte estrutural da implementação do Acordo de Paris. Ele apontou avanços como uma carteira estimada em US$ 1 trilhão para redes e armazenamento de energia limpa, a meta de quadruplicar combustíveis sustentáveis de aviação e uma pipeline projetada de US$ 1 trilhão em adaptação até 2028, com participação crescente do setor privado. Stiell reforçou que “cada atraso custa caro” e que a prioridade agora é converter ambição em execução.
Dan Ioshpe, COP 30 Climate High-Level Champion, apresentou a visão de cinco anos da agenda global como um “motor permanente de implementação”, integrado a sistemas de energia, uso da terra, agricultura, cidades, finanças e desenvolvimento social. Ele lembrou que 117 planos foram apresentados em Belém para acelerar soluções e que a nova arquitetura, registrada no portal NASCA, estabelece indicadores claros, responsáveis definidos e prazos de entrega.
Países como União Europeia, Reino Unido, Holanda e Austrália elogiaram o esforço brasileiro em consolidar iniciativas e conectá-las ao texto negociado, reforçando a expectativa de que a transição energética, incluindo o redirecionamento de fluxos financeiros e a redução da dependência de combustíveis fósseis, esteja refletida nas decisões finais.
A vulnerabilidade dos países mais afetados pela crise climática também marcou as intervenções. Vanuatu classificou o limite de 1,5 °C como “condição de sobrevivência”, pedindo que o financiamento seja ampliado e se torne mais acessível. Madagascar destacou o paradoxo entre sua capacidade de absorção de carbono e sua alta exposição a eventos extremos, defendendo uma transformação profunda no financiamento climático. Já a ONU Mulheres alertou que ações climáticas sem igualdade de gênero “não são apenas injustas, são ineficazes”, pedindo indicadores específicos em adaptação, perda e dano e proteção social.
Em paralelo ao evento de alto nível, foi divulgado o lançamento da Aliança pela Implementação dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs), que acorreu ontem (18), iniciativa liderada pela Presidência da conferência, ONU, Alemanha e Itália para coordenar o ecossistema de financiamento e acelerar ações de adaptação em larga escala. O PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) alertou sobre as necessidades atuais de financiamento serem de 8 a 14 vezes maiores do que os recursos hoje disponíveis, um déficit que ameaça a segurança de milhões de pessoas.
O diretor de adaptação da UNFCCC, Youssef Nassef, resumiu a urgência: “Se adaptação não for paga em dinheiro, será paga em vidas.” O Brasil apresentou seu processo de elaboração do NAP, que identificou 560 municípios altamente vulneráveis, reforçando a centralidade do tema para a região amazônica.
Também nesta quarta, o Brasil oficializou o lançamento da iniciativa RAIZ (Agricultura Resiliente para Degradação Zero de Terras) apoiada por nove países e baseada em experiências brasileiras que já mobilizaram cerca de US$ 6 bilhões e recuperaram 3 milhões de hectares de pastagens degradadas. Com 1 bilhão de hectares de terras agrícolas já degradadas no mundo, segundo a FAO, a iniciativa busca escalar soluções de restauração, criar mecanismos de coinvestimento público-privado e mapear áreas com maior potencial de produtividade.
Por fim, o dia destacou a dimensão social da adaptação com o avanço do Protocolo Nacional para Mulheres e Meninas em Emergências Climáticas, apresentado na Agenda de Ação. O documento reforça a importância de integrar igualdade de gênero às respostas humanitárias, reconhecendo soluções lideradas por mulheres em todos os biomas brasileiros e ampliando sua participação em processos decisórios, um pilar considerado essencial para a resiliência climática.



