Economia circular acelera transformação das embalagens de papel no Brasil

Webinar promovido por Empapel, Ibá e Two Sides destacou avanço da logística reversa, créditos de reciclagem, rastreabilidade e cases de empresas como Natura, Grupo Boticário e Papirus

A cadeia de embalagens de papel no Brasil vive um momento decisivo. Em meio ao avanço das exigências ambientais, da pressão por rastreabilidade e da consolidação da economia circular, o setor vem ampliando investimentos em logística reversa, conteúdo reciclado e mecanismos capazes de transformar resíduos em valor econômico. O tema esteve no centro da 6ª edição do webinar “Embalagem de Papel – A Escolha Natural”, promovido por Empapel, Ibá e Two Sides, reunindo especialistas, indústrias, cooperativas e grandes marcas para discutir os novos rumos da reciclagem no País.

Logo na abertura, o embaixador José Carlos da Fonseca Júnior, presidente executivo da Empapel, destacou que o setor de papel e embalagens ocupa uma posição estratégica dentro da agenda climática e da economia circular. “Nós estamos do lado certo da equação do clima, da equação do desenvolvimento econômico e da equação do desenvolvimento social do Brasil”, afirmou, ressaltando o papel da cadeia na integração com cooperativas, recicladores e demais elos da logística reversa.

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Carlos Mariotti, gerente de Políticas Industriais da Ibá, reforçou que as embalagens de papel representam soluções baseadas em recursos renováveis, biodegradáveis e recicláveis. Segundo ele, além da origem certificada das fibras, o setor contribui para preservação ambiental e biodiversidade. “Hoje a gente consegue mensurar mais de 8 mil espécies preservadas nessas áreas”, afirmou ao falar sobre as florestas plantadas manejadas de forma sustentável.

Os números apresentados durante o webinar ajudam a explicar a relevância do setor dentro da economia circular brasileira. Thiago Santiago , gerente de comunicação da Empapel, destacou que a taxa de reciclagem de papel no Brasil já alcança 58,8%, colocando o País entre os maiores recicladores do mundo. “Entre os dez maiores produtores de papel do mundo, o Brasil se destaca como o sexto que mais recicla papel”, afirmou. Segundo ele, cerca de 4,6 milhões de toneladas de papel retornam anualmente ao ciclo produtivo nacional.

Apesar dos avanços, o diagnóstico apresentado pelo advogado e especialista em Direito Ambiental, Fabrício Soler, mostrou que o Brasil ainda enfrenta enormes desafios estruturais na gestão de resíduos. Segundo dados apresentados por ele, aproximadamente 1.844 municípios brasileiros ainda destinam resíduos para lixões, enquanto outros 1.044 utilizam aterros controlados, ambos considerados formas inadequadas de disposição final.

Outro dado preocupante envolve a coleta seletiva. De acordo com Soler, apenas 29,2% dos municípios brasileiros possuem iniciativas de coleta seletiva. “Cobertura não significa coleta seletiva em todo o território nem separação adequada dos resíduos”, alertou.

Dentro da composição dos resíduos sólidos urbanos no Brasil, o papel e papelão representam 10,5% do volume gerado nas residências, atrás apenas da fração orgânica e dos plásticos. O especialista explicou que o avanço da Política Nacional de Resíduos Sólidos e dos sistemas de logística reversa vem ampliando a cobrança sobre fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes. “Não basta mais declarar reciclagem; será necessário comprovar fluxos, origem e destinação”, afirmou ao abordar rastreabilidade e conformidade ambiental.

Entre os temas de maior destaque esteve o crescimento dos créditos de reciclagem e dos modelos estruturados de logística reversa. Soler explicou que o Ministério do Meio Ambiente já habilitou entidades gestoras para operar sistemas coletivos de logística reversa e destacou que os créditos recicláveis vêm se consolidando como ferramenta econômica importante para financiar coleta, triagem e reaproveitamento de resíduos.

A rastreabilidade apareceu como palavra-chave ao longo de praticamente todo o evento. Fabrício Soler alertou para a necessidade de controle rigoroso da cadeia após operações recentes envolvendo fraudes em créditos de reciclagem e emissão irregular de notas fiscais. “É pressuposto da logística reversa a conformidade e a rastreabilidade”, enfatizou.

O webinar também apresentou cases práticos que mostram como a circularidade vem sendo aplicada na indústria. Um dos destaques foi o projeto Estação Preço de Fábrica, desenvolvido pelo Grupo Boticário em parceria com a Green Mining. A iniciativa instala pontos de recebimento de resíduos e remunera diretamente catadores e consumidores pelos materiais recicláveis entregues.

Karina Castello, do Grupo Boticário, explicou que o projeto nasceu do desafio de ampliar a circularidade dos resíduos pós-consumo com rastreabilidade ponta a ponta. Segundo ela, a iniciativa já possui oito estações em quatro estados brasileiros e, entre 2021 e 2025, recolheu mais de 5 mil toneladas de resíduos, beneficiando mais de 3 mil pessoas e gerando mais de R$ 5 milhões em renda.

Rodrigo Oliveira, CEO da Green Mining, destacou que os participantes recebem até seis vezes mais pelo material reciclável do que receberiam no mercado tradicional de sucata. “Quando ele chega na estação, recebe 100% do valor do material”, explicou.

O executivo também chamou atenção para o potencial da Lei de Incentivo à Reciclagem, definida por ele como uma espécie de “Lei Rouanet da reciclagem”. O mecanismo permite que empresas tributadas pelo lucro real destinem até 1% do imposto devido para projetos estruturantes voltados à reciclagem.

Outro case de destaque veio da Natura, que apresentou sua trajetória em circularidade e sustentabilidade de embalagens. Luiz Campos, gerente de sustentabilidade de embalagens da companhia, revelou que a empresa trabalha com conceitos de circularidade desde 1983, quando lançou seus primeiros refis. Hoje, a Natura possui receita líquida de R$ 24 bilhões, atua em 14 países e utiliza mais de 17 mil toneladas de papel por ano em embalagens.


Segundo o executivo, 98% do papel utilizado pela empresa já atende às metas de reciclabilidade e compostabilidade previstas para 2030, enquanto 99% possuem certificação FSC ou PEFC. Ele destacou ainda o avanço da chamada “papelização” das embalagens, movimento global de substituição do plástico pelo papel em diferentes aplicações.

“Em 2026 já vimos soluções tecnicamente viáveis em escala industrial com papel, papel-cartão e papelão ondulado, com desempenho técnico e custos competitivos”, afirmou ao comentar as tendências observadas na Interpack 2026.

A Papirus também apresentou iniciativas voltadas ao uso de conteúdo reciclado e rastreabilidade. Ricardo Mendes Dugo, analista ESG na Papirus, explicou que cerca de 80% do portfólio da empresa já possui algum percentual de material reciclado na composição.

Segundo ele, pesquisas indicam que 90% dos consumidores consideram importante que embalagens sejam recicláveis e produzidas com material reciclado. O executivo mostrou ainda o programa Papirus Circular, que integra cooperativas, aparistas, recicladores e consumidores em um sistema rastreável monitorado por QR Codes e entidades gestoras.

O case apresentado em parceria com o Grupo Viveo já evitou mais de 600 toneladas de emissões de CO₂ ao substituir embalagens produzidas com fibra virgem por soluções com 40% de conteúdo reciclado pós-consumo.

Ao longo das apresentações, ficou evidente que o setor de papel e embalagens busca consolidar uma posição estratégica na nova economia de baixo carbono. Mais do que atender exigências regulatórias, a cadeia aposta na circularidade como diferencial competitivo, combinando inovação, rastreabilidade, redução de emissões e geração de impacto social.

Entre legislação, logística reversa, créditos de reciclagem e novos modelos de negócio, a mensagem deixada pelo webinar foi clara: a economia circular deixou de ser tendência e passou a ocupar o centro das estratégias da indústria de embalagens no Brasil.

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Thais Negri Santi

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