A guerra no Oriente Médio e as incertezas envolvendo o Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde transita cerca de 20% do petróleo global, vêm provocando impactos diretos nas cadeias industriais, pressionando custos de energia, combustíveis e fretes.
De acordo com análise conjunta da Agência Internacional de Energia (AIE), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, divulgada e repercutida pela PetroNotícias, a normalização do fornecimento global de commodities energéticas deve levar tempo, com efeitos prolongados sobre preços e disponibilidade de insumos.
“Devido a interrupções no fornecimento, a escassez de insumos-chave provavelmente terá implicações para energia, alimentos e outras indústrias”, destacaram as entidades.
Mais do que um choque pontual, o cenário aponta para uma mudança estrutural. Segundo a consultoria Wood Mackenzie, a interrupção prolongada no fornecimento pode reduzir a demanda global por petróleo em até 20% até 2050, ao mesmo tempo em que acelera a adoção de eletrificação, energias renováveis e nuclear.
“Os sistemas energéticos tornam-se mais locais, mais diversificados e menos dependentes do comércio internacional complexo”, afirmou Jom Madan, analista da Wood Mackenzie.
Pressão logística reforça busca por eficiência e novos modais
O aumento nos custos de combustíveis impacta diretamente o transporte industrial, intensificando a busca por alternativas mais eficientes e menos intensivas em carbono.
Nesse contexto, o setor de celulose tem ampliado o uso de modais como ferrovia e hidrovia, que oferecem ganhos relevantes tanto econômicos quanto ambientais.
Segundo o secretário de Meio Ambiente, Ciência, Tecnologia e Inovação de Mato Grosso do Sul (Semadesc), Artur Falcette, a análise da sustentabilidade no transporte precisa considerar múltiplas dimensões:
“Quando olhamos para a sustentabilidade de forma ampla, econômica, social e ambiental, os modais ferroviário e hidroviário apresentam vantagens claras, com redução de custos por tonelada transportada, menor emissão e mitigação de impactos indiretos.”
Entre esses impactos, Falcette destaca efeitos frequentemente negligenciados, como a redução de atropelamento de fauna e a diminuição dos impactos sociais em comunidades próximas às rodovias.
Projetos como os da Suzano em Ribas do Rio Pardo, da Eldorado Brasil Celulose e da Arauco, que investe em uma shortline ferroviária própria, ilustram essa mudança estrutural na logística do setor.
Hidrovia ganha espaço como alternativa de baixo carbono
Além da ferrovia, o modal hidroviário vem sendo estudado como solução estratégica em regiões com disponibilidade hídrica, como Mato Grosso do Sul.
Segundo Falcette, a hidrovia do Rio Paraguai pode representar uma transformação relevante: “A gente tem a capacidade de tirar milhares de caminhões por dia das rodovias, reduzindo emissões, custos logísticos e impactos sociais e ambientais nas comunidades locais.”
O principal desafio ainda está na viabilização de infraestrutura e na garantia de navegabilidade ao longo de todo o ano, o que depende de concessões e investimentos federais.
Eletrificação avança no transporte pesado
Paralelamente à mudança de modais, a eletrificação do transporte rodoviário começa a ganhar escala no setor.

A Bracell tem liderado esse movimento com a introdução de caminhões elétricos de grande porte em suas operações. A companhia investiu R$ 3,5 milhões em um projeto que inclui veículos de até 74 toneladas, utilizados no transporte de madeira e celulose.
Segundo a empresa, trata-se de uma iniciativa inédita no país para esse tipo de operação.
“Essa é uma inovação que une escala, tecnologia e impacto ambiental positivo”, afirmou Patrick Silva, vice-presidente de Logística da companhia.
Os veículos possuem autonomia de até 250 km por carga e tempo médio de recarga de 1h30, sendo abastecidos com energia renovável gerada na própria fábrica.
Nos testes realizados, um caminhão percorreu 17 mil km, evitando a emissão de 16 toneladas de CO₂ equivalente.
Fábricas de celulose ampliam geração de energia renovável
Outro diferencial estrutural do setor é sua capacidade de geração de energia a partir de biomassa.
Na unidade de Lençóis Paulista (SP), a Bracell opera com autossuficiência energética e gera um excedente entre 150 MW e 180 MW, energia suficiente para abastecer uma cidade de até 3 milhões de habitantes.
A companhia também investe em energia solar, com um painel de 7,21 MW de capacidade instalada, equivalente a cerca de 20% do consumo de sua unidade de tissue.
Esse modelo contribui para a expansão da matriz renovável em nível regional. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, 94% da matriz elétrica já é renovável, com forte participação das indústrias de celulose e bioenergia.
Segundo Falcette: “O estado hoje produz mais do que o dobro da energia que consome, exportando cerca de 50% dessa energia renovável para o Sistema Nacional.”
Uso do solo e descarbonização ampliam impacto do setor
Além das operações industriais, o setor também contribui para a transição energética por meio da transformação do uso do solo.
Nos últimos dez anos, Mato Grosso do Sul converteu cerca de 5 milhões de hectares de áreas degradadas em áreas produtivas, sendo 2 milhões destinados à base florestal.
Segundo o secretário: “A conversão de pastagens degradadas para florestas plantadas recupera o carbono no solo e amplia a captura de carbono acima do solo, gerando um efeito positivo em toda a cadeia.”
Biorrefinarias e novos produtos ampliam competitividade
A transição energética também passa pela transformação do próprio modelo industrial.
De acordo com a AFRY, a indústria de celulose vem ampliando a produção de biocombustíveis, bioplásticos e biocompósitos a partir da biomassa.
“A utilização de biomassa e a geração de energia a partir de resíduos de produção são práticas cada vez mais comuns, reduzindo a dependência de fontes fósseis”, afirma Edemilson Oliveira, vice-presidente da consultoria.
Tecnologias de biorrefinaria permitem a produção de etanol celulósico (E2G), biodiesel e outros combustíveis avançados, além do aproveitamento de compostos como lignina e nanocelulose para aplicações industriais.
Setor de base florestal ganha protagonismo na transição energética
Diante de um cenário global de instabilidade energética e pressão por descarbonização, o setor de celulose se posiciona como um dos protagonistas da transição energética.
A combinação entre base renovável, geração própria de energia, inovação industrial e transformação logística coloca o segmento em uma posição estratégica, não apenas para responder às mudanças, mas para liderar a construção de um novo modelo energético e produtivo.



