Quebrando barreiras na indústria: mulheres ampliam espaço na liderança

Primeira coordenadora de planta da Bracell no Brasil, Jessica Resende construiu carreira no chão de fábrica e hoje lidera a maior operação industrial da companhia no país

Em um setor historicamente marcado pela predominância masculina, a presença feminina em cargos de liderança ainda avança em ritmo gradual. Segundo a Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha no Paraná (AHK-PR), as mulheres ocupam cerca de 16% dos cargos de liderança na indústria brasileira. Ainda assim, a diversidade de gênero tem sido cada vez mais associada a melhores resultados de negócio: estudo global da McKinsey mostra que empresas com maior presença feminina têm 25% mais chances de alcançar rentabilidade acima da média do setor.

Dados do IBGE e levantamentos recentes do Ministério do Trabalho e Emprego também apontam avanço da presença feminina em posições executivas, embora o ritmo ainda esteja distante da paridade, especialmente na indústria.

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No setor florestal, os dados mais recentes do Panorama de Gênero do Setor Florestal, elaborado pela Rede Mulher Florestal, revelam que a participação feminina total passou de 12% em 2020 para 18% em 2023. Na área industrial, porém, justamente onde atua Jessica Resende, a presença das mulheres avançou de 12% para apenas 15% no mesmo período, evidenciando que a operação fabril ainda continua sendo uma das frentes mais desafiadoras para a ampliação da diversidade.

É nesse contexto que a trajetória de Jessica ganha ainda mais relevância. Na Bracell, em Lençóis Paulista (SP), ela se tornou a primeira mulher a assumir a coordenação de uma fábrica de celulose da companhia no Brasil, um marco que simboliza não apenas uma conquista individual, mas também as transformações em curso em uma indústria que começa, gradualmente, a ampliar o espaço das mulheres em áreas técnicas, operacionais e de liderança.

Natural de Volta Redonda (RJ), cidade historicamente ligada à siderurgia, Jessica conta que seu vínculo com a indústria começou cedo. Formada inicialmente como técnica em eletrônica, ela deixou a casa dos pais aos 18 anos para ingressar em um programa trainee em uma usina de açúcar e etanol no interior do Mato Grosso.

“Eu só tinha uma certeza: queria trabalhar em indústria, independente do segmento. Porque, para mim, a indústria é um veículo de transformação”, afirma.

Desde então, sua carreira foi marcada por mudanças de estado, novos desafios e uma trajetória construída diretamente no ambiente industrial, passando por áreas como manutenção, planejamento e gestão de processos.

Trajetória construída no chão de fábrica

O início da carreira aconteceu em um ambiente onde praticamente não havia presença feminina nas operações industriais. Em seu primeiro emprego, na área de manutenção elétrica e instrumentação, Jessica foi a primeira mulher do departamento.

“Só tinha homem na fábrica onde eu atuava. Eu fui a primeira mulher. No começo, havia aquela ideia de fragilidade, não me deixavam fazer certos serviços porque achavam que eu não daria conta. Então eu precisei aprender a me impor e mostrar que eu também era capaz”, relembra.

Ela conta que o início da carreira foi um verdadeiro divisor de águas, exigindo não apenas conhecimento técnico, mas também resiliência e capacidade de adaptação. Ao longo desse período, enfrentou desafios comuns a muitas mulheres que ingressam em áreas industriais, incluindo episódios de assédio e preconceito.

Mesmo assim, consolidou seu espaço profissional e passou a assumir novas responsabilidades. Com o tempo, migrou do campo para a área de planejamento de manutenção, participou da implantação do sistema SAP em uma empresa do setor sucroenergético e integrou equipes responsáveis pela construção e start-up de uma nova planta industrial no Tocantins.

Após mudar-se para o interior de São Paulo, seguiu ampliando sua experiência no setor industrial e concluiu sua graduação em Engenharia de Produção.

Chegada ao setor de celulose

Em 2016, Jessica ingressou na então Lwarcel, atualmente Bracell, iniciando sua trajetória no setor de celulose. Desde então, construiu uma carreira ascendente dentro da companhia.

Ela começou como planejadora plena, avançou para planejadora sênior, assumiu posteriormente a supervisão de planejamento de manutenção e, em seguida, passou a atuar como especialista e engenheira de planejamento.

Durante esse período, participou de projetos estratégicos da companhia, incluindo o planejamento de grandes paradas gerais de manutenção e a estruturação de processos técnicos na fábrica.

Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi a primeira parada geral da linha ligada ao Projeto Star, responsável por uma das maiores fábricas de celulose solúvel do mundo.

“A gente se preocupou muito em startar a maior fábrica de celulose solúvel do mundo, mas não sabia como parar ela para fazer a primeira parada geral pós-startup. Foi uma das grandes entregas da minha carreira”, afirma.

O caminho até a coordenação de fábrica

A transição para a coordenação de fábrica aconteceu após a participação em um programa interno de desenvolvimento da Bracell voltado à preparação de profissionais para assumir essa posição.

Jessica foi convidada três vezes para participar da iniciativa. Nas duas primeiras, recusou por acreditar que sua carreira estava mais alinhada à manutenção. Na terceira oportunidade, decidiu aceitar o desafio.

“Eu percebi que, se queria chegar a uma gerência, precisava entender o todo. Não bastava saber como deixar a fábrica disponível; eu precisava entender também o processo completo de transformar madeira em celulose”, explica.

Após um período intensivo de treinamento, ela foi selecionada para assumir a posição e se tornou a primeira mulher a ocupar a coordenação de uma planta da Bracell no Brasil.

Hoje, sua responsabilidade envolve acompanhar a operação da fábrica de forma integrada, garantindo metas de produção, qualidade e segurança.

“A coordenação olha o todo, mas quem opera a fábrica são as equipes todos os dias. Então a interface com os operadores é fundamental”, destaca.

A importância da experiência operacional

Para Jessica, ter passado por diferentes áreas da operação industrial foi fundamental para o exercício da liderança.

“O fato de ter vivido o chão de fábrica fez total diferença. Você entende melhor os desafios das equipes, a complexidade dos equipamentos e consegue tomar decisões com mais segurança”, afirma.

Ela explica que essa trajetória permite hoje ter uma visão completa do funcionamento da planta, desde a chegada da madeira até a expedição da celulose.

“Hoje eu consigo olhar a fábrica como um todo, desde o caminhão que chega da floresta até o produto que sai para o porto”, resume.

Diversidade e transformação no setor

Apesar dos avanços, Jessica reconhece que a presença feminina ainda é limitada em áreas operacionais da indústria.

“O setor está mudando e hoje vemos mais mulheres do que no passado, mas ainda é um paradigma. Muitas vezes as pessoas ainda se surpreendem ao ver uma mulher em certas funções”, comenta.

Ela observa que, em alguns casos, operadores ainda demonstram receio ou surpresa ao interagir com uma liderança feminina, algo que tende a diminuir com o tempo e a convivência.

Ao mesmo tempo, destaca que empresas do setor vêm ampliando iniciativas voltadas à diversidade e inclusão.

Na Bracell, por exemplo, a companhia estabeleceu metas relacionadas à ampliação da presença feminina em cargos de liderança até 2030, aproximando-se gradualmente desse objetivo.

Entre as iniciativas está o programa Cultivando Potenciais, criado para acelerar o desenvolvimento de profissionais com potencial de assumir posições de gestão. O programa inclui trilhas específicas voltadas às mulheres, abordando temas como liderança estratégica, negociação, vieses de gênero e construção de networking.

Formação e capacitação contínua

Outro marco importante na trajetória recente de Jessica foi a conclusão, em 2025, da Pós-Graduação em Tecnologia de Produção de Celulose e Papel, realizada pela Universidade Setorial ABTCP (Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel) em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Segundo ela, a formação ampliou significativamente sua visão sobre o processo produtivo e contribuiu diretamente para sua evolução profissional.

“A pós-graduação me trouxe um outro olhar. Eu já tinha uma carreira consolidada na manutenção, mas percebi que ainda havia muita coisa para aprender sobre o processo industrial como um todo”, afirma.

A experiência também proporcionou uma troca intensa entre profissionais de diferentes áreas do setor, fortalecendo o aprendizado coletivo e a compreensão de tecnologias utilizadas na produção de celulose e papel.

Rede de apoio e inspiração para outras mulheres

Ao refletir sobre sua trajetória, Jessica destaca o papel essencial da rede de apoio, especialmente da família. Ela conta que, apesar da distância e das dificuldades iniciais, sempre contou com o incentivo da mãe para seguir em frente.

“Eu só cheguei onde cheguei porque minha mãe sempre me incentivou. Muitas vezes eu achei que não daria conta, mas ela sempre disse que eu conseguiria”, relata.

Hoje, além de liderar equipes na indústria, ela também se tornou referência para outras mulheres dentro e fora do ambiente profissional.

Ao deixar uma mensagem para jovens que desejam seguir carreira na indústria, Jessica é direta:

“Não tenha dúvida de que vai ser difícil, mas não desista. Não existe nada que uma mulher não possa fazer”.

Ela também reforça a importância da sororidade e da construção de redes de apoio entre mulheres.“Tem espaço para todas. Apoie outras mulheres, cresça junto com elas e construa uma rede forte. Isso faz toda a diferença na nossa trajetória”, conclui.

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Fernanda Capo
Advogada formada na Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Jornalismo Digital pela Fundação Casper Líbero.

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