Não é de hoje que o desenvolvimento de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) vem sendo pauta das pesquisas do agronegócio. No caso da produção de celulose, enquanto atualmente um hectare de floresta plantada no Brasil gera 12 toneladas/ano de celulose, a estimativa é que com os OGMs este número ultrapasse as 20 toneladas em 2020. Em termos de m3, isso significa, em média, sair dos atuais 40 a 45 m3 para as marcas de 60m3 ou mais.Hoje duas empresas de biotecnologia trabalham nas pesquisas com clones oferecer espécies de pinus e eucaliptos, entre outros, geneticamente modificados que possam melhorar os resultados das linhas de produção do setor de celulose e papel. São elas a Arbor Gen e a Futura Gene. Ambas anunciaram recentemente avanços nessa área. “Hoje estamos realizando testes com material transgênico para o Pinus e Teca e já obtivemos grande melhora através do processo de embriogênese somática”, comentou Gabriela Bassa, diretora da ArborGen. Além desse projeto, uma outra pesquisa trata dos clones de eucalipto resistentes ao frio em desenvolvimento desde 2008 nos EUA e em fase de aprovação comercial. Quem também já conta com um projeto em aprovação na área de produtos florestais é a Futura Gene, empresa israelense de biotecnologia adquirida 100% pela Suzano Papel e Celulose em 2010. Eduardo José de Mello, vice-presidente de operações da empresa no Brasil, acredita que o primeiro projeto, com aumento da produtividade em 20% da celulose, levará quatro anos para ser aprovado. Quando aprovadas, as árvores transgênicas desenvolvidas a partir das mudas da Futura Gene poderão trazer um rendimento de 70m3 por hectare. Hoje, somente com as árvores clone da Suzano a produção já tem alcançado 60m3. A Futura Gene anunciou também que tem trabalhado em dois importantes projetos, sendo um deles na China, onde há muitas áreas desertificadas.Para vencer o desafio do cultivo do eucalipto na China, a Futura Gene tem trabalhando com o eucalipto e a característica de resistência para sobreviver neste tipo de solo. O segundo projeto da Futura Gene é a pesquisa para a ferrugem do eucalipto, hoje uma das principais causas de danos e prejuízos nos reflorestamentos de espécie no Brasil. “A ferrugem muitas vezes obriga as empresas a trocarem os clones de 2 a 5 anos e, por isso, demos grande atenção a esse problema. Conseguimos isolar os genes e hoje já estamos em um estágio bastante avançado de pesquisa. Com isso, garantiremos maior produtividade e, principalmente, a eficácia da plantação”, explicou o vice-presidente.A liberação comercial e o FSCVencidas as etapas da pesquisa e desenvolvimento, novos desafios deverão surgir, em termos de comercialização dos OGMs no mercado. A começar pela liberação comercial. Existem vários critérios que deverão ser cumpridos pelas empresas para atender aos requisitos da legislação vigente (lei 11.105), sancionada em 2005, que estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização de atividades que envolvam OGMs e seus derivados, e da reestruturação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio, conforme apontou Patricia Fukuma, da Fukuma Advogados, especialista no setor.Muitos desafios já foram vencidos nesse campo das pesquisas com os OGMs. “Antigamente, não tínhamos como avaliar um projeto em biotecnologia, pois não existia onde nos respaldarmos. Com a criação da lei e a CTNBio, esse processo já teve grandes avanços, reduzindo o tempo e oferecendo segurança jurídica para a sua devida comercialização”, explicou Fukuma. O problema é que após todo o trâmite percorrido para liberação jurídica da comercialização dos produtos os fornecedores de biotecnologia ainda precisam enfrentar desafios relativos ao cultivo de OGMs em florestas certificadas. Hoje o FSC – Forest Stewardship Council – já aceita que as pesquisas sejam feitas por empresas, mas separadamente do restante dos plantios não geneticamente modificados. Contudo, o diretor do FSC, Roberto Waack, antecipa que essa questão não está finalizada.”É necessário que a indústria se posicione publicamente em relação às pesquisas em andamento, pois o FSC possui uma visão condicionada à opinião e demanda da sociedade. Precisa-se explicar, antes de tudo, se os OGMs são um risco ou não”, explicou o diretor. Para o vice-presidente de operações da Futura Gene, esse será um ponto crucial, tanto para os produtores quanto para as empresas de biotecnologia. Enquanto essa situação não é definida, muitas empresas terão de avaliar para que lado seguir no caso dos cultivos de OGMs: o da ciência ou o da certificação. Nota produzida a partir de entrevistas com palestrantes da 2a Conferência Latino Americana de Papel e Celulose, realizada nos dias 27 e 28 de março, em São Paulo, SP.
Da Redação



