Por Bianca Machado* – O governo dos Estados Unidos confirmou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações brasileiras, após relatório emitido pelo Escritório do Representante Comercial da Casa Branca (USTR, na sigla em inglês) e chancelado pelo presidente Donald Trump. A medida entra em vigor em 22 de julho e incidirá apenas sobre os produtos que não integram a lista oficial de exceções divulgada pelo USTR.
A nova onda de tarifas segue uma investigação do governo de Trump, conduzida pelo USTR, e baseada na Seção 301 – uma ferramenta da Lei de Comércio dos Estados Unidos que permite ao governo norte-americano investigar e punir países cujas práticas comerciais sejam consideradas injustas, discriminatórias ou prejudiciais.
Dentre as justificativas do governo norte-americano, estão:
- PIX;
- Corrupção no Brasil;
- Ações do STF contra as big techs;
- Tratamento injusto na política de tarifas brasileira;
- Proteção inadequada à propriedade intelectual;
- Tarifas sobre o etanol;
- Desmatamento.
Adicionalmente, o Brasil continua aguardando a conclusão de outra investigação conduzida pelo USTR, também baseada na Seção 301, relacionada ao tema do trabalho forçado. Essa investigação poderá resultar na aplicação de uma tarifa adicional de 12,5%, substituindo a sobretaxa provisória de 10% atualmente em vigor. A definição é esperada até 24 de julho.
LISTA DE EXCEÇÕES IMPACTA SETOR DE PAPEL E CELULOSE
A lista de setores impactados pelo tarifaço exclui segmentos estratégicos para os EUA, que temem a escassez de itens essenciais que não podem ser produzidos no país. Para o setor de papel e celulose, isso se traduz em em pastas químicas de madeira e celulose (fibra curta, longa e fluff) na lista de excluídos das tarifas.
No entanto, a celulose solúvel, papéis, painéis de madeira (MDF e MDP) e pisos laminados, serão afetados pela tarifa adicional de 25%. A taxação abre espaço para que outros mercados, como Ásia e Europa, sejam uma alternativa para estes segmentos, pressionando o volume da oferta no comércio internacional.
Assim, a manutenção da celulose na lista de exceções reduz o impacto direto sobre um dos principais segmentos exportadores da indústria florestal brasileira. Contudo, o setor deve seguir monitorando os desdobramentos das investigações em andamento e os efeitos indiretos das medidas sobre a competitividade das exportações brasileiras, como a volatilidade do câmbio.
ALEGAÇÃO DE DESMATAMENTO NA AMAZÔNIA JUSTIFICAM TARIFAS
Conforme publicado pelo USTR na rede social X, a investigação sob acusação de desmatamento ilegal na Amazônia para obtenção de produtos de madeira de origem ilegal, contribuem para preços globais distorcidos:
“As práticas de desmatamento do Brasil tornam mais difícil para a indústria madeireira dos EUA competir de forma justa nos mercados globais. Um impressionante 91% do desmatamento na Amazônia foi colheita ilegal entre 2023 e 2024. Produtos de madeira de origem ilegal contribuem para preços globais distorcidos, resultando na desvalorização dos produtos de madeira dos EUA, com madeira de origem ilegal estimada em reduzir os preços da madeira de origem legal em 7% a 16%.
Há também evidências de que alguns níveis subcentrais do governo do Brasil estão tomando medidas para eliminar ou reverter incentivos fiscais e outros do setor público e privado projetados para desencorajar o desmatamento.” – tradução feita por IA Grok, do X.
A postagem possui também uma imagem animada que ilustra o desmatamento na região amazônica, porém não cita a fonte do gráfico.
IMPACTO DO TARIFAÇO PODE CHEGAR A US$11 BILHÕES
Impactos setoriais
Setores industriais brasileiros vão ser ainda mais prejudicados com a nova tarifa imposta pelo governo norte-americano. No setor de Madeira, por exemplo, 83,1% das exportações aos Estados Unidos passam a ser atingidas pela nova tarifa, incluindo produtos como molduras de madeira padrão de pinho e estacas. No setor de celulose e papel esse número representa 24%.
Já no setor de Minerais não metálicos, o percentual exposto à medida chega a 56,3%. Na sequência, destacam-se os setores de Químicos, com 51,8%, e de Alimentos, com 38,1%.
Segundo estimativa da Confederação Nacional das Indústrias (CNI), cerca de 4 mil produtos exportados pelo Brasil serão afetados, o equivalente a US$11,9 bilhões em exportações. As mercadorias afetadas incluem:
- Etanol;
- Máquinas agrícolas;
- Vestuário;
- Maquinário elétrico;
- Calçados;
- Ferramentas de jardinagem;
- Equipamentos de mineração;
- Papel;
- Açúcar orgânico;
- Bens de capital;
- Manufaturados em geral;
- Produtos químicos diversos;
- Itens industriais processados.
RESPOSTA DO GOVERNO BRASILEIRO
Em pronunciamento à imprensa nesta quinta-feira, 16, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, classificou as novas tarifas como “injustificadas” e afirmou que os argumentos apresentados pelos Estados Unidos “não têm lastro na realidade“.
Segundo o chanceler, o Brasil participou de diversas rodadas de negociação nas últimas semanas e continuará buscando uma solução por meio do diálogo. Vieira afirmou ainda que o governo brasileiro não aceitará exigências que comprometam a soberania nacional e defendeu que as medidas adotadas pelos Estados Unidos são unilaterais e incompatíveis com a relação histórica entre os dois países.
Confira o pronunciamento na íntegra clicando aqui.
- *Bianca Machado é jornalista, pós-graduada em Gestão da Comunicação Digital e Mídias Sociais e desde 2021 escreve sobre os mercados de papel e celulose.



