Na última semana, líderes do setor de embalagens de papel participaram de um painel de debate durante a Fastmarkets Forest Products Latin America Conference 2026, com representantes da Klabin, Irani, Ibema e Paraibuna. A discussão abordou os desafios do mercado em meio a um cenário de tarifas, reforma tributária e pressão de custos, indicando que a dor da indústria não está na demanda, mas na rentabilidade.
Segundo Alejandro Mata, Diretor de Embalagens e Papéis Gráficos na Europa da Fastmarkets, o mercado continua com excesso de oferta, enquanto ainda tenta equilibrar o cenário político volátil. Conforme os dados apresentados pelo executivo, a demanda do mercado de papéis alcançou 435,7 milhões de toneladas em 2025, alta de 0,4% em relação a 2024, sendo 16% de caixas (boxboard) – impulsionado pelo declínio dos papéis gráficos – e crescimento em containerboard, saltando de 27% para 46% no mesmo período. No segmento de caixas, por sua vez, a demanda chegou a 72,2 milhões de toneladas em 2025, alta de 1,2% em relação a 2024.
Adicionalmente, o mercado global de boxboard segue marcado por um excesso de oferta estrutural, com um excedente real estimado em 10 milhões de toneladas quando consideradas as taxas médias de operação. Essa lacuna entre capacidade e produção, que crescia a um ritmo de 2,7% ao ano até 2020, acelerou para cerca de 11% ao ano desde então – com 2022 e 2023 configurando-se como os anos mais críticos do período.
“O mercado segue com excesso de oferta. A Ásia, que concentra o maior excedente, está exportando cada vez mais para o resto do mundo, mesmo com tarifas, desafios logísticos e acordos comerciais redesenhando o mapa do comércio. A demanda continua crescendo, mas o ritmo agora depende de renda, inflação e mudanças nos padrões de consumo. Vão se destacar as empresas que conseguirem controlar custos em meio à crise energética e se manterem ágeis diante das mudanças nos fluxos comerciais”, apontou o especialista.
Demanda resiliente em papelão, puxada pela vocação exportadora
Enquanto o cenário global segue marcado pela sobrecapacidade, o painel de embalagens trouxe um retrato mais equilibrado para o Brasil. O argumento estrutural mais forte do debate veio ao conectar a demanda de embalagem à vocação exportadora de proteína do país. Para Odivan Carlos Cargnin, CEO da Irani, “quem acredita no país como produtor de proteína para o mundo, tem que acreditar no negócio de papelão ondulado”.

De acordo com os dados apresentados por Mata, o segmento de alimentos e bebidas é responsável por 62% da demanda de caixas no mundo, enquanto outros bens de consumo e canal farma chegam a 10% cada, seguidos por beleza e cuidados pessoais, com 8%.
Conforme indicado por Douglas Dalmasi, Diretor de Embalagens na Klabin, o setor de papel para embalagem cresceu 3% entre janeiro e junho de 2026, e acredita que a competitividade do produto e a vocação das exportações brasileiras contribuem para uma boa dinâmica de mercado. “Isso é perene para o país e para a região seguir adiante”, refletiu o executivo.
Nesse sentido, a demanda aquecida reflete também na operação da indústria. Segundo Mario Henrique Santos, Gerente Comercial na Paraibuna Embalagens, a empresa já opera a plena capacidade nos últimos anos. “No Brasil, temos uma produção muito alta de papel e isso acaba pressionando as margens. Nosso maior desafio setorial é a manutenção da rentabilidade”, declarou o executivo.
Sustentabilidade como aposta – de olho na regulação que ainda vem
A Ibema, que recentemente comprou os ativos da BO Paper no Brasil, passa por uma reavaliação completa do portfólio de produtos e a decisão estratégica de manter produção tanto em fibra virgem quanto reciclada com foco no longo prazo – mesmo diante da percepção, por parte de alguns players, de que a demanda por sustentabilidade estaria arrefecendo. Para Fernando Carvalho, Head de Estratégia e Marketing da companhia, “quem está investindo em processos sustentáveis, terão ganhos futuros quando vierem as regulamentações”
O argumento da companhia é que quem investe agora colherá vantagem quando essas regulamentações chegarem ao país, seguindo o exemplo do que já aconteceu em outros mercados quando exigências ambientais foram implementadas sem preparo prévio das empresas.

Sacos de papel e a competitividade com o plástico
O segmento de sacos de papel (sackraft) também foi discutido no painel. O representante da Klabin descreveu como um mercado de alta barreira de entrada – baseado em fibra longa virgem – com a construção civil como principal comprador, embora novos usos venham surgindo ao longo dos anos. Dalmasi se mostrou cético quanto a uma substituição estrutural ampla do plástico pelo papel, defendendo que o que existe, na prática, é uma sobreposição competitiva caso a caso: quando a indústria consegue provar ganho de vendas ou margem ao cliente final, consegue converter parte do mercado do plástico para o papel.
Já a Irani opera em nichos mais específicos desse mercado: papel de baixa gramatura para padaria e sacolas de varejo. O exemplo mais forte trazido pelo CEO da companhia para ilustrar onde a substituição já aconteceu de fato foi justamente esse último: sacolas de lojas em shoppings, que eram majoritariamente de plástico há cerca de 15 ou 20 anos e hoje são quase inteiramente de papel – um segmento que hoje representa 30% do atendimento da empresa.

A Ibema também atua em nichos de sacolas e tem trabalhado com a redução de gramatura mantendo a mesma performance em máquina, incluindo a substituição de fibra virgem por reciclada em aplicações como embalagens farmacêuticas – estas em papel cartão –, além de apontar que o aumento recente no custo do plástico favoreceu a migração de parte da demanda para o papel.
Por ser uma empresa verticalizada, a Paraibuna também comercializa o testliner branco para sacolas e, recentemente, iniciou a conversão de sacos. Para Mario, existe uma oportunidade com o aumento dos custos do plástico – a apresentação de Alejandro indicou que os custos de produção do material podem ultrapassar o do papel em alguns mercados, com gaps maiores na Europa e na Ásia, apesar de se manter competitivo na América do Norte.

O aprendizado comum
O denominador comum, ao final do painel, ficou claro: assim como o mercado global segue tentando se reequilibrar diante de uma sobrecapacidade estrutural, o setor brasileiro de embalagens entra em uma fase em que a disputa deixa de ser por volume e passa a ser por margem – uma corrida por rentabilidade que, no fim, conecta diretamente o cenário mundial apresentado por Alejandro Mata à realidade prática discutida pelos executivos brasileiros no painel.



