Mais previsibilidade, menos custo: o que o acordo UE-Mercosul realmente muda para a celulose

Tratado não altera acesso da fibra brasileira ao mercado europeu, mas fortalece ambiente institucional, reduz barreiras administrativas e estimula modernização industrial.

Após mais de 25 anos de negociações, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia foi oficialmente assinado no dia 17 de janeiro, em Assunção, no Paraguai, estabelecendo uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com cerca de 780 milhões de consumidores e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado superior a US$ 22 trilhões. O tratado prevê a redução ou eliminação progressiva de tarifas para aproximadamente 90% do fluxo comercial entre os dois blocos, além de incluir compromissos em áreas como sustentabilidade, cooperação regulatória e investimentos.

Apesar da assinatura, o processo de ratificação ainda enfrenta incertezas. No dia 21 de janeiro, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução solicitando à Corte de Justiça da União Europeia uma revisão jurídica do acordo, o que impede a votação final pelos eurodeputados até a emissão de um parecer, estimado em até 24 meses. Ainda assim, diplomatas europeus indicam a possibilidade de aplicação provisória da parte comercial do tratado já a partir de março, o que manteria o tema no centro das discussões econômicas entre os dois blocos ao longo de 2026.

Notícia continua após o anúncio

No comércio bilateral, a União Europeia ocupa hoje posição estratégica para as exportações brasileiras. Em 2025, o bloco respondeu por cerca de 14% das exportações totais do Brasil, com destaque para produtos como petróleo bruto, café, soja, minérios e, em sexto lugar, a celulose, que movimentou aproximadamente US$ 2,1 bilhões no período. Embora distante da China, principal destino da fibra brasileira, a Europa consolidou-se como o segundo maior mercado do setor de árvores plantadas.

Segundo Rafael Barisauskas, economista para América Latina na Fastmarkets e Professor de Cadeias Globais de Valor na FECAP, o acordo chega em um momento em que a Europa já exerce papel central para o setor florestal brasileiro. “Em 2025, o bloco recebeu 26,7% da celulose brasileira e US$ 3,6 bilhões em produtos da cadeia de árvores plantadas, superando a América do Norte em meio à instabilidade tarifária observada no comércio com os Estados Unidos”, afirma. Para o economista, o principal ganho não está nas tarifas, mas no ambiente institucional. “O acordo tende a reduzir custos de transação, aumentar a previsibilidade e reforçar a segurança jurídica, criando um terreno mais estável para contratos de longo prazo e planejamento industrial.”

Essa leitura é compartilhada por Marcio Funchal, administrador e fundador da Marcio Funchal Consultoria, que destaca que, do ponto de vista estritamente comercial, os produtos brasileiros de celulose e papel já entram na União Europeia praticamente sem tarifas. “Os produtos acabados brasileiros já têm acesso quase livre ao mercado europeu, portanto o acordo, por si só, não vai aumentar a competitividade do exportador brasileiro em termos de preço final”, avalia.

Onde estão, então, os ganhos mais relevantes para o setor? Ambos os economistas apontam para um fator estrutural: a redução de custos ao longo da cadeia produtiva, especialmente na importação de máquinas, equipamentos e insumos para silvicultura e indústria.

“O setor de celulose e papel no Mercosul, especialmente no Brasil, depende fortemente de importações europeias para equipamentos e máquinas ao longo de toda a cadeia de valor”, explica Funchal. O acordo prevê a redução gradual para zero de tarifas sobre 91% a 95% dos itens industriais, com prazos médios entre 10 e 15 anos para o Mercosul, enquanto a abertura europeia para produtos sul-americanos tende a ser mais rápida.

Na prática, a queda gradual dessas tarifas pode baratear investimentos em colheita florestal, logística, transporte de madeira e equipamentos industriais, reduzindo o chamado “Custo Brasil” e estimulando a modernização tecnológica do parque industrial brasileiro. Para um setor de margens estreitas e intensivo em capital, a redução do custo de máquinas e insumos tende a gerar ganhos acumulativos de eficiência ao longo dos anos.

Tarifas de importação UE x Mercosul para os grandes itens da cadeia do setor:

Etapa da Cadeia de Valor / Produto
 (HS Code)
Tarifa Imposta pela UE em Importações do MercosulTarifa Imposta pelo Mercosul (Brasil) em Importações da UE Observações e Impacto do Acordo
Silvicultura: Insumos (Fertilizantes, ex.: Ureia – HS 3102)0-6.5% (média 0%; zero para muitos fertilizantes não sensíveis)0-6% (II médio 4%; isenções para alguns agrícolas)-UE: Baixa proteção; -Mercosul: Dependência de importações UE para fertilizantes avançados. Acordo: Redução para zero em 4-7 anos.
Silvicultura: Insumos (Pesticidas/Defensivos Agrícolas – HS 3808)0-6% (média 2%; restrições regulatórias via REACH superam tarifas)2-14% (II médio 10%; + IPI até 15% para químicos)-UE: Foco em barreiras não-tarifárias (ex.: aprovações); -Mercosul: Alta para proteger indústria local. Acordo: Eliminação em 7-10 anos, alinhando com padrões UE (EUDR)
Colheita Florestal: Equipamentos (Máquinas de Colheita, ex.: Harvesters – HS 8436)1.7-4.5% (média 2%; baixa para bens de capital)14-20% (II médio 14%; + IPI 10-15%)-UE: Pouca importação de Mercosul; -Mercosul: Alta dependência de UE (ex.: máquinas finlandesas/suecas). Acordo: Redução para zero em 10-15 anos, reduzindo “Custo Brasil” em equipamentos.
Transporte de Madeira: Equipamentos (Tratores/Caminhões para Madeira – HS 8701)2-10% (média 4%; alta em veículos pesados)20-35% (II médio 35% para veículos; + IPI 15-18%)-UE: Protege setor automotivo; -Mercosul: Barreiras altas em transportes. Acordo: Cortes progressivos em 15 anos, impulsionando logística florestal no Brasil.
Produção: Máquinas de Celulose (Equipamentos para Fabricação de Celulose – HS 8439.10)1.7-4.5% (média 2%; zero para muitos bens industriais)14-18% (II médio 14%; + IPI até 18% para máquinas)-UE: Baixa; – Mercosul: Alta proteção a indústrias. Acordo: Eliminação em 8-10 anos, facilitando modernização de fábricas brasileiras ou ampliações.
Produtos Acabados: Celulose (Polpa de Madeira Química – HS 4703)0% (duty-free para a maioria; sem quotas sensíveis)0-2% (baixa, pois Brasil é exportador netto)-UE: Acesso aberto para exportações brasileiras; – Mercosul: Pouca importação. Acordo: Manutenção de zero imediato, com foco em sustentabilidade (EUDR).
Produtos Acabados: Papel e Papelão (Papel Não Revestido, ex.: HS 4802)0-2% (média 0%; zero para muitos tipos industriais)10-16% (II médio 14%; + IPI 10-15%)-UE: Baixa barreira; -Mercosul: Protege produtores locais. Acordo: Redução para zero em 7-10 anos, impulsionando exportações UE de papéis especiais.

Para Barisauskas, esses efeitos são indiretos, porém relevantes. “O acordo não permite estimar ganhos clássicos de valor para a celulose, mas deve reduzir custos operacionais e logísticos, eliminar barreiras administrativas e aumentar a previsibilidade do comércio. É um ganho contínuo, institucional e cumulativo”, afirma.

EUDR: a nova fronteira regulatória

Se, por um lado, o acordo amplia previsibilidade institucional, por outro, ele não elimina o principal desafio regulatório enfrentado pelo setor florestal no mercado europeu: o Regulamento Antidesmatamento da União Europeia (EUDR), que entra plenamente em vigor a partir de 2027 e impõe exigências rigorosas de rastreabilidade e comprovação de origem livre de desmatamento para produtos de base vegetal.

Para Funchal, trata-se de uma barreira não tarifária relevante. “O mercado da UE impôs uma imensa restrição para praticamente todos os produtos de origem vegetal, o que inclui toda a cadeia de celulose e papel. O acordo não prevê eliminar essas exigências, o que gera risco de perda de competitividade, mesmo para um setor reconhecido mundialmente pela produtividade e sustentabilidade”, avalia.

Barisauskas adota uma visão mais pragmática. Segundo ele, o acordo pode funcionar como instrumento de mitigação de riscos regulatórios. “A integração institucional facilita a adaptação ao EUDR e cria canais diplomáticos para ajustes técnicos. A indústria florestal brasileira já adota há anos práticas de certificação e rastreabilidade que atendem às exigências da regulação e, portanto, não deve enfrentar dificuldades significativas”, afirma.

Na prática, o acordo não elimina o desafio regulatório, mas tende a reduzir incertezas e fortalecer o diálogo entre governos, empresas e autoridades regulatórias, algo especialmente relevante em um ambiente global marcado por crescente fragmentação comercial e conflitos tarifários.

Embora a China siga como o principal destino da celulose brasileira, absorvendo cerca de 45% das exportações em 2025, a consolidação da Europa como mercado previsível e institucionalmente mais estável amplia a flexibilidade estratégica do setor. “O acordo não muda a centralidade chinesa, mas aumenta a capacidade de arbitragem geográfica do exportador brasileiro, permitindo distribuir volumes conforme ciclos de preço, câmbio e demanda”, resume Barisauskas.

Em síntese, para o setor de celulose e papel, o acordo Mercosul–UE não representa uma revolução comercial imediata, mas um movimento estratégico de longo prazo. Seus principais efeitos estão menos na abertura de mercados e mais na redução de custos estruturais, na modernização tecnológica e na criação de um ambiente institucional mais previsível, capaz de sustentar investimentos, inovação e competitividade em um cenário global cada vez mais regulado.

avatar do autor
Fernanda Capo
Advogada formada na Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Jornalismo Digital pela Fundação Casper Líbero.

Últimas Notícias

Comissão de Estudos de Papéis para Fins Sanitários é reativada para revisão de normas técnicas do setor

A comissão abrange aspectos de terminologia, requisitos, métodos de ensaio e generalidades

Suprema Corte dos EUA derruba tarifas recíprocas de Trump e impõe limites ao uso de poderes emergenciais na política comercial

Decisão retira sobretaxas aplicadas ao Brasil sob a IEEPA, mas mantém tarifas baseadas em outros instrumentos legais.

Acordo UE–Mercosul abre nova janela comercial para celulose, papel e madeira

Com o acordo, o setor ganha previsibilidade tarifária e ambiente institucional mais estruturado para acessar o mercado europeu, em meio à reconfiguração do comércio internacional.

Branded Contents

Swan do Brasil destaca inovação e confiabilidade em instrumentação analítica para o setor de celulose e papel

A instrumentação analítica Swan contribui diretamente para a otimização de processos

Fiedler Automação Industrial apoia projeto na Klabin e contribui para redução de 52% na perda de vapor em Telêmaco Borba (PR) 

Iniciativa na Unidade Monte Alegre da Klabin envolveu inspeções na rede de vapor e aplicação de soluções integradas para ganho de eficiência

Compartilhar

Newsletter

Mantenha-se Atualizado!

Assine nossa newsletter gratuita e receba com exclusividade notícias e novidades