No quinto dia da COP30 (14), o painel “Restauração Florestal e Silvicultura” teve destaque, trazendo uma questão chave para os avanços do mercado de carbono no Brasil: como transformar a restauração florestal em uma indústria exportadora de remoções de carbono, com escala, governança e preço.
Para Roberto Waack, membro do Conselho do Instituto Arapyaú, Thiago Piccolo, diretor Executivo da Re.green, Fábio Sakamoto, diretor Executivo da Biomas e Peter Fernandez, diretor Executivo da Mombak, o diagnóstico começa no campo, pois ainda faltam dados robustos e séries temporais para orientar decisões agronômicas e financeiras.
“O nosso setor está sendo construído “em tempo real”, enquanto as empresas nascem, e é preciso lembrar que a natureza tem seus ritmos, resultados de técnicas, como a propagação clonal, precisam de anos para comprovação. Sem medir, comparar e aprender continuamente, a produtividade por hectare não sobe e a escala milionária de áreas não chega”, explicou Piccolo.
O passo seguinte é regulatório. Para Sakamoto apenas com a efetivação do Artigo 6º do Acordo de Paris, com regras de ajustes correspondentes e clareza sobre exportação de remoções haverá redução da percepção de risco, atração de capital institucional e criação de referências de preço futuro, algo essencial para contratos com produtores.
A inclusão do produtor passa por previsibilidade. ““Sem um “Chicago” do carbono, com cotações públicas e contratos padronizados, o agricultor não coloca sua terra no jogo”, comentou Fabio.
Embora casos de parceria já existam, para ganhar escala é necessário combinar segurança jurídica, instrumentos financeiros e exemplos locais bem-sucedidos.
Do lado da demanda, Fernandez argumentou que o mercado ficou menos especulativo com a entrada de países anunciando compras de grande porte de créditos de carbono até 2030, o que amplia a concorrência por créditos hoje disputados por empresas.
“No curto e médio prazo, a pressão é altista; contudo, no longo prazo o carbono tende a se comportar como commodity, e a resposta do setor estará em produtividade, eficiência e diferenciação por tipo de crédito (reflorestamento, minerais, solo), com curvas de preço próprias”, acrescentou.
Para ele, o Brasil reúne vantagens “inigualáveis” como o crescimento florestal acelerado se comparado ao de outros países, custo de capital competitivo e acesso a terra via concessões.
Porém, sem que haja a habilitação da venda de créditos para outros países via acordos bilaterais, o Brasil acaba ficando para trás em um mercado que tem potencial para liderar.
A discussão também abordou modelos de negócio. Waack defendeu olhar a floresta para além do carbono, incorporando madeira, produtos não-madeireiros e serviços ecossistêmicos em mosaicos do chamado “contínuo florestal”.
Na mesma linha, Piccolo e Sakamoto enxergam valor na diversificação, inclusive com silvicultura de nativas, para descorrelacionar riscos e acelerar fluxos de caixa. “A coexistência de modelos é saudável em um setor ainda em formação, o essencial é competitividade, integridade e capacidade de mobilizar bilhões em financiamento de infraestrutura verde”, completou Sakamoto.
Por outro lado, Fernandez sustenta a estratégia de foco total em carbono (alto risco/alto retorno), com biodiversidade como meio para garantir durabilidade, mas não como métrica de venda.
Na plateia, a pergunta que ecoa no país agro: como aproximar pequenos e médios produtores desse mercado? As respostas convergiram para um tripé: preço de referência, contratos claros (com partilha de benefícios ou pagamentos fixos) e assistência técnica.
Há espaço para novas empresas especializadas (por exemplo, em carbono no solo) e para políticas que reduzam o “prêmio de risco Brasil” percebido por investidores, concluiu Piccolo.
Ao final, o recado dos painelistas aos negociadores foi direto: permitir a exportação de remoções sem comprometer a NDC brasileira, a Contribuição Nacionalmente Determinada, que define as metas climáticas assumidas pelo Brasil no âmbito do Acordo de Paris, e usar REDD+ (mecanismo internacional de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), que também inclui conservação e manejo sustentável das florestas, quando necessário para cumprir a meta doméstica, é visto como uma alavanca para atrair capital, acelerar a restauração e, paradoxalmente, ampliar os próprios benefícios climáticos do país.



