Madeira brasileira sob risco: a perigosa dependência dos EUA

Portas, molduras e compensados podem ser duramente afetados

Quatro são os principais produtos madeireiros brasileiros exportados para os Estados Unidos: portas, compensados de pinus, molduras e madeira serrada de pinus. São produtos altamente dependentes desse mercado e que podem ter consequências maiores com a super taxação às importações de produtos brasileiros anunciada pelo presidente Donald Trump.

Somente no primeiro semestre de 2025, as exportações desses quatro produtos aos EUA representaram um mercado de US$ 607 milhões. Número muito parecido com o que foi realizado no mesmo período do ano passado. No total de 2024, os produtos analisados aqui somaram US$ 1,22 bilhão.

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Para se ter ideia da dependência desses produtos aos EUA vamos comparar o quanto foi destinado ao país com o total exportado no período por produto. No caso das portas, 87% do volume exportado no primeiro semestre de 2025 foi para aquele país. Em 2024, 36,7% do volume exportado foi para os Estados Unidos.

As molduras são o produto ainda mais dependente. Em 2024, 98% das exportações foram destinadas aos EUA e o índice se repete para o primeiro semestre de 2025.

No caso de compensado de pinus e madeira serrada de pinus, a dependência não é tão grande, mas são números significativos. Em 2024, 32,8% do compensado de pinus brasileiro foi destinado diretamente aos EUA; no primeiro semestre de 2025 o montante foi de 33%. A madeira serrada de pinus teve 33,4% destinada ao mercado norte americano em 2024 e 37% nos primeiros seis meses deste ano.

Impacto no mercado brasileiro

Aqui não cabe analisar o teor da taxação. Vou me ater à análise do impacto dos mercados, pois ele é direto e já está acontecendo. Desde fevereiro, quando houve a primeira menção de taxas aos produtos madeireiros, os produtores brasileiros viram altos e baixos.

Quando olhamos as exportações aos EUA, em 2025 tivemos uma verdadeira corrida em fevereiro e março, com aumentos mensais de 32% e 25% respectivamente. Seguidos de uma queda de 4% em abril e a redução abrupta de 12,6% em maio, considerando todos os produtos madeireiros exportados.

A incerteza na aplicação das taxas fez com que várias empresas brasileiras vissem os pedidos por novos produtos se tornarem mais escassos. Depois do anúncio feito pelo presidente dos EUA no último dia 9 de julho, a reação do mercado foi imediata: “Segurem meus pedidos” foi o que os empresários ouviram de vários importadores, pois os produtos chegariam depois do dia primeiro de agosto, data em que a taxa de 50% está prevista para entrar em vigor.

Outro impacto que já está sendo sentido é a paralisação de linhas de produção de molduras. Como vimos, esse mercado é altamente dependente do mercado dos Estados Unidos. A empresa Braspine, anunciou férias coletivas aos funcionários da unidade de Jaguariaíva (PR).

Próximos passos

É difícil manter um olhar otimista sobre o mercado madeireiro para o segundo semestre. Ao puxar pela memória o colapso da economia norte-americana de 2008, vimos uma reação em cadeia no Brasil quando muitas fábricas fecharam. Se comparar aquele cenário com o atual, a incerteza é maior ainda, pois quando o mercado cai, em algum momento ele volta a funcionar. Mas o cenário de agora está mais parecido ao de um embargo econômico.

A reação do mercado vai depender do resultado das negociações que serão lideradas pelo governo brasileiro. Várias entidades do setor produtivo do Brasil estão organizadas para tentar negociar e proteger os produtos brasileiros dos impactos da taxação.

A saída natural, ao meu ver, seria investir em novos mercados para os produtos que são fabricados no Brasil. Porém, esses quatro itens que mencionamos no início do texto são altamente especializados para os EUA e não poderão ser vendidos de uma hora pra outra em outros mercados. As indústrias terão que se reinventar e buscar por produtos que atendam Europa, Oriente Médio e Ásia, por exemplo.

Acredito que os esforços das nossas associações também devem ser neste sentido a fim de que não tenhamos tamanha dependência do mercado norte americano ou pior: a saída de indústrias brasileiras para os países vizinhos a fim de evitar as taxações.

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Gustavo Milazzo
Gustavo Milazzo é empresário, formado em Comércio Exterior pela Universidade Tuiuti, Pós-Graduado em Negócios Internacionais pela FAE e com MBA em Gestão Exponencial da Xpeed. Possui mais de 28 anos atuando no setor de comércio exterior, dos quais 25 anos são dedicados a compra e venda de madeira no mercado externo. É fundador da GCM Trade e CEO da WoodFlow, uma plataforma que faz a integração do ecossistema da madeira, conectando compradores do mundo todo e vendedores brasileiros. Sua missão é disseminar e promover a madeira brasileira pelo muito através de informação e tecnologia.

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