O mercado brasileiro de papel e embalagens deverá iniciar 2026 com tensões geopolíticas e mudanças nas regras comerciais, após tarifas de até 50% impostas pelos EUA em julho de 2025. Embora o impacto direto sobre produtos acabados de papel seja limitado, os efeitos indiretos são significativos, especialmente no setor de proteína animal, que consome entre 30% e 35% das caixas de papelão ondulado produzidas no País.
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Apesar dos choques, a demanda brasileira permanece sólida. O papel ondulado (containerboard) está ligado à cadeia de alimentos – frutas, carnes e alimentos processados – onde a embalagem é um custo necessário, não opcional. Isso dá ao Brasil estabilidade, mesmo em tempos de incerteza econômica.
As projeções da Fastmarkets são de crescimento modesto de 1,2% na demanda por containerboard em 2025, com incrementos de 1,1% em 2026. A demanda por testliner deve crescer mais rápido que a de kraftliner no mercado interno, enquanto as exportações de kraftliner devem continuar altas, sustentadas por custos competitivos, apesar da ausência de novos projetos no curto prazo.
Por outro lado, o mercado de papel cartão (boxboard) apresenta uma perspectiva menos otimista. A demanda deve permanecer estável ou em leve declínio, praticamente estagnada entre 2025 e 2027. O aumento das importações de papel virgem, especialmente da Ásia, tem pressionado produtores locais num contexto de renda disponível fragilizada e consumo doméstico em desaceleração.
Fatores não antecipados pelo mercado, e ainda com tamanho incerto, como o crescimento das apostas online, também têm desviado recursos do consumo de bens de giro rápido e liquidez da economia real, afetando diretamente o volume de embalagens usadas no varejo.
Assim, a estratégia empresarial para o futuro precisa ser recalibrada. A credibilidade operacional, traduzida em certificações, rastreabilidade e conformidade com padrões ambientais, deixou de ser um diferencial apenas reputacional para se tornar um fator real de vantagem competitiva e melhor negociação de preços e margens na ponta final.
Já a disciplina de capital também ganha protagonismo neste cenário: em vez de grandes expansões de capacidade que o País estava acostumado a ver, os investimentos mais eficazes serão aqueles voltados à eficiência operacional, como melhorias energéticas, integração de conversão e redução de ciclos de capital de giro.
A diferenciação deve ir além do preço, focando em confiabilidade logística, desempenho técnico e capacidade de entrega, especialmente em segmentos como alimentos, higiene e farmacêuticos, onde o serviço supera o custo. O Brasil, com sua indústria e proximidade dos mercados regionais, pode se posicionar como fornecedor estratégico.
Em resumo, o mercado brasileiro de papel e embalagens entrará em 2026 com fundamentos sólidos, mas cercado por desafios estruturais e comerciais. A capacidade de navegar esse novo ambiente dependerá menos da escala e mais da inteligência estratégica: diversificação de mercados, credibilidade operacional, disciplina de capital e diferenciação baseada em serviço.



