Preços listas versus preços de mercados da celulose: diferenças chegam a 50% na Europa

A Fastmarkets deixará, a partir do próximo ano, de publicar a série tradicional de preços listas da celulose (tal como aparece na Tabela 3 desta coluna) após reconhecer que as vendas no mercado interno europeu têm alterado significativamente os descontos em relação a tais preços, chegando a até 50% no caso da celulose de fibra longa e 45% no caso da celulose de fibra curta. A partir de junho deste ano serão publicados novos preços referências, dos quais, em média, os descontos serão de 10% em relação ao menor preço de mercado praticado. O mesmo caminho seguiu a Norexeco a partir de dezembro do ano passado. Com isto, apenas a Natural Resources Canada (NRC) continuará publicando, para a Europa e os EUA, os preços listas na metodologia anterior, ou seja, os preços máximos sugeridos para venda pelos fornecedores. Diante dessa situação, esta será a última edição desta coluna em que aparecerá a Tabela 3 com seu atual conteúdo.

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Não obstante, esta coluna trazer um mix entre preços listas e preços efetivos de mercado (devidamente alertados no título ou nas notas de esclarecimento em cada tabela), as tendências dos mesmos, segundo a mesma fonte, têm sido as mesmas. Ou seja, quando o preço lista sobe, o preço efetivamente negociado no mercado também sobe, ainda que não nas mesmas intensidades.

É importante esclarecer que o preço lista (preço tabela) é o mesmo para todos os compradores, mas os percentuais de descontos variam segundo o porte do comprador e sua importância para a carteira de vendas do vendedor.

Observa-se no Gráfico 1 a evolução dos preços da celulose de fibra longa (NBSKP), segundo a Natural Resources Canada (NRC), nos EUA, na Europa e na China. Para os dois primeiros países, são preços listas (preços máximos sugeridos para venda), e, para o terceiro país, de preço mais próximo ao de fato praticado no mercado após descontos. Há, claramente, dinâmicas distintas nesses preços, com queda na China do preço da tonelada de NBSKP de fevereiro a maio de 2026, estabilidade na Europa do preço da tonelada de NBSKP em abril e maio e queda nos EUA do preço desta commodity em maio frente a abril do corrente ano.

A Norexeco (ver Tabela 4), indica continuidade da queda de preço da tonelada de NBSKP na China em junho e julho (o que também é confirmado pelo Governo da British Columbia – ver Tabela 2) e queda do preço deste produto na Europa. Nesta última, em julho, é esperado também queda do preço da tonelada de celulose de fibra curta (BHKP) na Europa.

Gráfico 1 – Evolução do Preço da tonelada de NBSKP nos EUA, Europa e China, valores em US$ por tonelada

Fonte Natural Resources Canada

Gráfico 2 – Evolução dos consumos mensais de celulose na Europa (em toneladas)

Fonte Utipulp

As tendências de quedas de preços em dólar norte-americano das celuloses em junho e julho na Europa contrastam com o fato de ter ocorrido em maio, frente a abril do corrente ano, aumento dos estoques de celulose nos portos europeus a taxa menor do que a do aumento do consumo desta commodity, com redução do número de dias que os estoques garantem pleno abastecimento do consumo. Em maio, frente a abril, houve aumento de 1,3% nesses estoques, e o consumo de celulose na Europa, neste mesmo período, cresceu 5,2%. Com isso, os estoques de celulose nos portos europeus que garantiam 45 dias corridos de consumo industrial deste produto em abril, passaram a garantir 43 dias deste consumo em maio do corrente ano (considerando mês de 30 dias).

Houve, em junho, tentativas de fabricantes de aumentarem os preços da celulose na Europa, discussão esta que se prolongou na primeira quinzena de julho. A alegação é que, além dos estoques estarem “mais justos” nos portos europeus, há aumento dos custos de fretes em trazer o produto da Ásia para a Europa, devido aos riscos de tráfego via o Mar Vermelho, levando a procurar rotas mais longas e com maior custo de transporte. Ademais, o aumento do custo da energia na Europa (em parte causado pelo aumento do preço do petróleo) tem levado a maiores custos de produção aos fabricantes de celulose, em especial na Europa.

Na China tem havido pressões pela queda dos preços tanto em Yuen quanto em dólar norte-americano, das celuloses, mas altas dos preços do papelão, em ambas moedas, nos meses de junho e julho.

No Brasil, nos meses de junho e julho do corrente ano, não houve alterações dos preços em reais dos papéis de embalagem, tanto da linha branca quanto da parda, nas vendas da grande indústria a grandes compradores. Também nesses dois meses não houve alteração dos preços em reais do papel off-set cortado em folhas e vendido de distribuidores a pequenas gráficas e copiadoras da Região de Campinas.

No mercado de Aparas em São Paulo houve em julho, frente a junho, grande estabilidade das cotações em reais das aparas registradas na Tabela 12, com exceção da pequena queda de 1,2% no preço médio da tonelada de aparas marrons do tipo 2.

Gráfico 3 – Evolução dos estoques de celulose nos portos europeus

Fonte Europulp

Gráfico 4 – Evolução dos estoques e do consumo de celulose na Europa (em toneladas)

Fontes Europulp e Utipulp

Gráfico 5 – Índice de preços de celulose, papéis e artefatos de papéis nos EUA – base 100 em junho de 2006

Fonte Banco Central de Saint Louis

O mercado canadense de madeiras mecanicamente processadas presenciou em junho, frente a maio (ambos meses referentes a 2026), alta do preço médio em dólar norte-americano do metro cúbico de pranchas de spruce, pinus e fir (SPF), mas queda dos preços do metro cúbico de compensados e de chapas de OSB.

Mercados de celulose, papéis e aparas

Mercados de Celulose

Os mercados internacionais de celulose parecem convergirem para quedas dos seus preços em dólar norte-americano (tanto do preço lista como dos preços com descontos) em junho e julho, exceto o que se deseja praticar no Brasil como preço lista para a celulose de fibra curta.

Europa

O padrão de consumo mensal de celulose na Europa nos seis primeiros meses de 2026 é bem próximo ao ocorrido em idêntico período de 2025, mas claramente inferior ao ocorrido em idêntico período de 2024 (ver o Gráfico 2). Não parece, portanto, haver excesso de consumo de celulose na Europa no primeiro semestre de 2026 em relação a idêntico período dos dois anos anteriores.

No entanto, os estoques de celulose nos portos europeus têm se mantido em níveis históricos mais baixos (ver Gráfico 3). Particularmente, nos meses de abril e maio do corrente ano, esses estoques garantiram, respectivamente, 45 e 43 dias corridos de consumo da celulose, frente aos 63 dias corridos que eram garantidos com os estoques existentes em dezembro de 2025, por exemplo (cálculos considerando mês com 30 dias).

Com isso, continua-se a se estreitar a diferença entre estoques e consumo mensal de celulose na Europa (ver o Gráfico 4).

Não obstante os estoques “mais enxutos” na Europa e as pressões para aumentos de preços da celulose, devido ao aumento do custo de transporte e da energia (advindos, principalmente, da Guerra EUA-Irã e a consequente alta do preço internacional do petróleo), o que se vê em junho e julho são pequenas quedas dos preços em dólar norte-americano da celulose de fibra longa na Europa e, em julho, do preço da tonelada de celulose de fibra curta.

Segundo a Norexeco, ver Tabela 4, o preço com desconto da tonelada de celulose de fibra longa (NBSKP) na Europa passou de US$ 740 em maio, para US$ 735 em junho e estava, quando do término desta coluna, previsto em US$ 725 para julho. Nesses mesmos meses, os preços da tonelada de celulose de fibra curta foram de US$ 655, US$ 655 e de US$ 645, respectivamente.

EUA

Os EUA é um dos poucos países em que esta coluna apenas examina os preços lista da tonelada de celulose. Segundo a Natural Resources Canada (NRC), ver Tabela 1, o preço lista da tonelada de celulose de fibra longa (NBKSP) nos EUA caiu para US$ 1.570 em maio do corrente ano, após ter ficado estável em US$ 1.590 em março e abril do corrente ano (ver Tabela 1). Este resultado confirma a previsão feita nesta coluna no mês passado, quando se informou que a Fastmarkets indicava que este preço cairia em US$ 20 por tonelada em final de maio, passando a tonelada de NBSKP a ser negociada a US$ 1.570 por tonelada nos EUA. Trata-se de preço lista US$ 85 por tonelada abaixo do informado na Europa para produto similar, segundo a NRC.

Os dados do Governo da British Columbia (ver Tabela 2) indicam permanência do preço da tonelada de papel imprensa nos EUA em US$ 865 em junho, o mesmo valor praticado em maio do corrente ano. Lembrando que o preço em maio para este produto teve alta de 7,5% frente ao praticado em abril.

Não obstante à queda do preço da tonelada de celulose nos EUA em maio e à estabilidade do preço do papel imprensa em junho, frente a sua cotação de maio, houve pequeno aumento de 0,83% no índice de preços de celulose, papéis e artefatos de papéis, calculado pelo Banco Central de Saint Louis, ver o Gráfico 5, em junho frente a seu valor de maio do corrente ano. Há, claramente, altas dos preços dos demais tipos de papéis e artefatos de papéis nos EUA, em função da retomada das políticas protecionistas do Governo Trump contra importações de outros países de papéis e artefatos de papéis, entre outros produtos.

China

Todas as informações desta coluna para os preços da celulose na China se referem a preços de mercado e não a preços listas. No entanto, pelo fato de as fontes considerarem amostras distintas, elas não indicam o mesmo patamar para o preço de cada tipo de celulose (de fibra longa ou de fibra curta) e no mesmo mês. Por exemplo, em maio do corrente ano, a NRC indicava o preço de US$ 650 por tonelada deste produto (ver Tabela 1), o Governo da British Columbia indicava o valor de US$ 661 (ver Tabela 2) e a Norexeco informava o valor de US$ 652. No entanto, essas fontes evidenciam que o preço deste produto está caindo no primeiro semestre de 2026 na China.

Diferenças maiores surgem nas duas cotações em dólar norte- americano que esta coluna traz para a tonelada de BHKP e de BEK. Em junho deste ano, a Norexeco indicava o valor de US$ 604, enquanto o SunSirs Commodity Data Group falava em US$ 671 por tonelada de celulose de fibra curta na China. Mas ambas as fontes indicam que o preço deste produto estava caindoem junho frente a seu valor de maio, queda esta que continuou em julho, segundo o SunSirs Commodity Data Group (ver Tabela 6).

Brasil

Mercado de polpas no Brasil

Os fabricantes nacionais adotam as cotações da RISI Fastmarkets como preço lista para venda da celulose de fibra curta no mercado interno, tal como aparece na Tabela 7. Este produto é sugerido para venda interna a US$ 1.409 por tonelada em julho, alta de 2,1% frente aos US$ 1.380 sugeridos em junho (ambos se referindo a 2026). Como já ressaltado em várias edições passadas desta coluna, trata-se de valor bem acima dos US$ 651 por tonelada de BEK posto na China (ver Tabela 6) e dos US$ 492 registrado no sistema Siscomex como venda externa (preço FOB) em junho passado (ver Tabela 7).

Mercado de papéis no Brasil

O mês de julho manterá praticamente os mesmos preços médios em reais que vigoraram em junho para os papéis de embalagem das linhas branca e marrom (ver tabelas 8 e 9) nas vendas da grande indústria a grandes compradores. Também não ocorrerá em julho, frente a maio, alteração no preço médio em reais do papel offset cortado em folhas e vendido por distribuidoras a pequenas gráficas e copiadoras da Região de Campinas (ver Tabela 10).

Mercado de aparas em São Paulo

A maioria das aparas negociadas em São Paulo manteve em julho, frente a junho, do corrente ano, os seus preços médios em reais, com exceção da queda de 1,2% no preço médio da tonelada das aparas de marrons tipo 2, que passaram de R$ 850 por tonelada em junho para R$ 840 em julho (ver Tabela 12).

Após expressivas quedas das quantidades mensais importadas de aparas marrons pelo Brasil de janeiro a abril do corrente ano, em maio houve expressiva alta dessas importações (ver Tabela 13), mas sem isto impactar significativamente o mercado interno deste produto.

Mercados internacionais de chapas de madeiras e de madeiras serradas

O mês de junho, frente a maio, presenciou alta de 7,4% no preço médio em dólar norte-americano do metro cúbico de madeiras serradas de spruce, pinus e fir no Canadá, enquanto os preços médios do metro cúbico de compensados e de chapas de OSB diminuíram, respectivamente, 3% e 1% no mesmo período (ver Tabela 14). Nos últimos dois anos, mês a mês, há muita alteração dos preços relativos entre esses três produtos no Canadá.

Observação: caro leitor, preste atenção ao fato de os preços das tabelas 9 e 11 ser sem ICMS e IPI (que são impostos), mas com PIS e COFINS (que são contribuições).

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Carlos Bacha
Professor Titular da ESALQ/USP.

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