PSILCA para a sustentabilidade social no setor de celulose e papel brasileiro

Globalmente, tem-se observado uma evolução das ações socioambientais nas organizações, as quais decorriam de comportamentos reativos frente aos impactos negativos e se transformaram para ações mais proativas, principalmente da conscientização e em face de pressões da sociedade.

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Organizações com maior impacto ambiental precisam agir com responsabilidade socioambiental e comunicar isso claramente. Essa postura é essencial não apenas para cumprir as regulamentações, mas também para proteger sua imagem perante a sociedade.

O setor de celulose e papel brasileiro já responde muito bem suas questões socioambientais perante a sociedade, todavia novas ferramentas surgem para auxiliar nesta empreitada. Nesta coluna vamos mostrar as potencialidades da ferramenta computacional PSILCA e suas respostas para a análise de ciclo de vida social (ACV-S).

Com base em florestas plantadas de eucalipto de altíssima produtividade, o Brasil se consolidou como um dos maiores exportadores mundiais de celulose. Tradicionalmente, as avaliações de sustentabilidade na cadeia produtiva focam na Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) sob a ótica ambiental, quantificando emissões de carbono, pegada hídrica e uso de recursos naturais. Contudo, a governança corporativa moderna e os critérios ESG (Environmental, Social, and Governance) exigem um olhar igualmente científico para a dimensão social.

É nesse cenário que a Avaliação do Ciclo de Vida Social (ACV-S) emerge como ferramenta metodológica essencial. Para torná-la viável e robusta, a utilização do sistema e banco de dados PSILCA (Product Social Impact Life Cycle Assessment), desenvolvido pela GreenDelta, tornou-se indispensável.

O PSILCA não é apenas um software isolado, mas uma base de dados global abrangente e integrada a softwares de ACV (como o openLCA e o SimaPro). Ele foi concebido para mapear e mitigar os chamados pontos críticos de impacto social ao longo de cadeias de suprimentos globais e complexas.

A cadeia produtiva de celulose e papel no Brasil envolve desde o manejo florestal em larga escala até o processamento industrial químico e a logística de exportação. Cada uma dessas etapas gera interações complexas com comunidades tradicionais, trabalhadores diretos e indiretos.

A aplicação prática do PSILCA permite análises fundamentais como:

i) Avaliação de Riscos na Cadeia de Suprimentos Terceirizada:
A silvicultura brasileira envolve intensa contratação de serviços terceirizados para plantio, colheita e transporte. O PSILCA permite cruzar os dados macroeconômicos e setoriais do Brasil para identificar o nível de risco associado a condições de trabalho digno e segurança ocupacional nesses setores de suporte, permitindo que as empresas corrijam distorções antes que se tornem passivos reputacionais.

ii) Gestão de Conflitos de Terra e Impacto Comunitário:
Grandes maciços florestais frequentemente fazem fronteira com comunidades rurais e povos tradicionais. Indicadores do PSILCA focados em “Direitos à Terra” e “Relações Comunitárias” ajudam a quantificar os potenciais impactos e apoiam a criação de programas de valor partilhado e a manutenção da Licença Social para Operar.

iii) Diferenciação no Mercado Internacional de Capitais:
Investidores estrangeiros que financiam a expansão de plantas de celulose por meio de Títulos Verdes exigem auditorias rastreáveis. Apresentar um relatório de ACV-S baseado na metodologia científica do PSILCA confere alto nível de credibilidade internacional, provando que o produto brasileiro não exporta apenas eficiência ambiental, mas também responsabilidade social.

Por fim, merece destaque que a utilização do PSILCA consolida-se como um divisor de águas para a maturidade ESG do setor de celulose e papel no Brasil. Ao traduzir aspectos subjetivos de direitos humanos e relações trabalhistas em dados estatísticos auditáveis e comparar os riscos do setor brasileiro com concorrentes internacionais, a ferramenta eleva o planejamento estratégico das empresas, garantindo que o crescimento econômico caminhe lado a lado com a justiça e a equidade social.

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Mauro Berni
Pesquisador das áreas de meio ambiente e energia do Núcleo Interdiciplinar de Planejamento Energético (NIPE), da Universidade de Campinas (Unicamp-SP)

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