Embalagem de papel é aliada da sustentabilidade e da inovação

Embalagem de papel ganha protagonismo global em webinar internacional realizado por Empapel, Ibá e Two Sides

A embalagem de papel vem consolidando seu papel como protagonista na transição para uma economia de baixo carbono. Foi essa a principal mensagem do webinar internacional “Embalagem de Papel: a Escolha Natural”, realizado nesta quarta-feira (26) pela Empapel (Associação Brasileira de Embalagens em Papel), Ibá (Indústria Brasileira de Árvores) e Two Sides, iniciativa global que promove a sustentabilidade da comunicação impressa e da embalagem de papel.

Transmitido para participantes de diversos países, o evento reuniu especialistas e representantes de grandes marcas globais para apresentar dados, perspectivas e casos práticos que reforçam o papel da embalagem de papel como aliada da sustentabilidade e da inovação.

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Em sua quinta edição, os representantes das entidades realizadoras reforçaram a importância de combater percepções equivocadas sobre a resistência e a aplicabilidade das embalagens de papel. Destacou-se que, embora muitos ainda associam o papel a um material frágil, a realidade tecnológica atual mostra um cenário diferente: as embalagens à base de fibras celulósicas têm evoluído rapidamente, ganhando versatilidade, força e resistência, inclusive para usos que antes eram exclusivos de embalagens plásticas ou de origem fóssil.

O embaixador José Fonseca Júnior, presidente da Empapel ressaltou o papel estratégico da educação do consumidor sobre os atributos técnicos e sustentáveis do papel, e convidou o público a conhecer o portal embalagemconsciente.com.br, voltado à divulgação de informações, dados, infográficos e conteúdos sobre inovação e circularidade no setor. A iniciativa, que em breve lançará um podcast mensal, pretende atender diferentes públicos: de profissionais de marketing a consumidores finais, com informações claras e embasadas sobre as aplicações modernas do papel.

Já Carlos Mariotti, gerente de Política Industrial da Ibá, destacou a relevância global do setor brasileiro, com 11 milhões de hectares de florestas plantadas e 7 milhões de hectares de áreas preservadas, sendo grande parte certificada. Ele reforçou o papel da indústria na agenda climática e nas discussões internacionais, como as conferências da ONU sobre mudanças climáticas (COP), e a necessidade de políticas públicas realmente verdes, baseadas em materiais renováveis e recicláveis, como o papel e o cartão.

A Two Sides Brasil, representada pelo seu presidente, Fábio Mortara, lembrou que o papel e suas variantes são renováveis, recicláveis e biodegradáveis, provenientes de florestas cultivadas de forma sustentável. A organização defende a comunicação responsável e atua para desconstruir mitos sobre o impacto ambiental do papel, promovendo seu uso consciente em embalagens, comunicação impressa e logística.

Esse conjunto de mensagens deu o tom do evento: embalagens de papel não são apenas uma escolha natural, mas uma escolha viável, técnica, escalável e sustentável para o presente e o futuro.

Na apresentação principal dos palestrantes convidados, Ian H. Bates, consultor da Blu8, com mais de 25 anos de experiência no setor, trouxe um panorama sobre a percepção pública em relação ao papel e às florestas.

Segundo dados levantados por Bates:

  • 84% dos europeus acreditam que as florestas estão encolhendo: um contraste com os dados reais, que mostram crescimento das florestas plantadas, sobretudo no Brasil;
  • 35% acreditam que o papel prejudica o meio ambiente, e 56% acham que comunicações digitais são mais sustentáveis, uma visão enviesada por campanhas de “greenwashing digital” promovidas por grandes corporações;
  • Ainda assim, 76% dos consumidores querem ter a opção de receber documentos impressos, e 58% acreditam que aprendem mais com materiais impressos do que digitais.

No setor de embalagens, o cenário é mais promissor:

  • 53% dos consumidores consideram que a embalagem de papel é melhor para o meio ambiente;
  • 62% preferem produtos entregues em embalagens de papel;
  • 41% evitariam comprar de varejistas que não reduzem embalagens não recicláveis.
  • 39% acreditam que é responsabilidade do governo reduzir embalagens não recicláveis.

Bates também apresentou projeções da EMGE, empresa de consultoria para o setor de embalagens, para 2030, indicando que a demanda global por papel cartão continuará crescendo, puxada pela substituição de plásticos de uso único, pelas compras online e pela inovação em design e impressão. “O maior crescimento se dará na Ásia-Pacífico, especialmente para embalagens leves e de alto desempenho. Já a América do Norte mostra o equilíbrio mais estável entre oferta e demanda”, indicou o especialista.

Entretanto, alertou para o fato de que a sustentabilidade, embora ainda essencial, deixou de ser prioridade absoluta: “Hoje, o preço e a oferta estão em primeiro lugar nas agendas das empresas, com a sustentabilidade ocupando o terceiro lugar, mas ainda é uma prioridade para os fabricantes e varejistas”. Ele também destacou o impacto crescente das regulações ambientais na Europa, especialmente relacionadas à responsabilidade estendida do produtor, reflorestamento e gestão de resíduos. 

Absolut Paper: por que trocar o vidro pelo papel?

Outra apresentação de destaque foi a da empresa  sueca The Absolut Group, representada por Louise Werner, diretora da Future of Packaging. A empresa está desenvolvendo uma garrafa de papel moldada para vodka, que já reduziu em 57% a pegada de carbono da embalagem e tem potencial para chegar a 100% de base biológica e reciclável.

Segundo Louise, embora o vidro seja reciclável e tenha taxa de reciclagem de 90% na Suécia, ele não é a melhor opção em muitos mercados. Nos Estados Unidos, por exemplo, grande parte do vidro ainda vai para aterros. Além disso, o vidro é pesado, o que aumenta as emissões de carbono no transporte, e sua produção consome muita energia, mesmo com fornos movidos a hidrogênio, que a empresa já testa.

“Não há nada de errado com o vidro, mas queremos a embalagem certa para o mercado certo”, afirmou Louise. A garrafa de papel, produzida pela startup Paboco, além de ser mais leve (até oito vezes mais leve que o vidro), é produzida com fibras FSC certificadas e tem grande potencial de circularidade.

Ela explicou que a primeira geração da garrafa era composta por 57% de papel e um balão plástico interno. A nova versão, ao contrário do balão, já em testes com o varejo, usa um spray de polímero com base biológica, o que aumenta o teor de fibra para 85% e reduz significativamente o uso de plástico. A visão da empresa é chegar a 100% fibra e polímero biológico, tornando a embalagem completamente reciclável como papel.

Reprodução Apresentação Webinar Embalagem de Papel

A inovação, porém, enfrenta desafios, como o reconhecimento da embalagem pelas centrais de reciclagem, muitas não a identificam como papel devido ao formato sólido, e a resistência interna ao abandono do vidro. Apesar disso, a Absolut vem obtendo bons resultados com testes no varejo no Reino Unido e em festivais, onde os consumidores demonstram curiosidade e aceitação.

McDonald’s: escalando a circularidade com papel

Encerrando o webinar, o case da Arcos Dourados, maior operadora do McDonald’s na América Latina, demonstrou como a escala pode ser aliada da sustentabilidade. O painel foi conduzido por Thiago Duenha, especialista de sustentabilidade da companhia, que apresentou as metas e resultados da empresa dentro de sua estratégia de ESG, batizada de Receita do Futuro.

Com foco em economia circular, a Arcos Dourados assumiu o compromisso de garantir que 100% das embalagens à base de fibra sejam provenientes de fontes recicladas ou certificadas com o selo FSC, com meta atingida desde 2020. A empresa também já alcançou 91% de uso de embalagens de origem renovável nos 20 países onde atua, sendo 89% no Brasil.

Em 2024, o volume total de embalagens colocadas no mercado pela empresa foi de 41 mil toneladas, metade delas no Brasil. Destas, mais de 90% são de papel. Além disso, a Arcos já atingiu 15% de conteúdo reciclado nas embalagens em nível regional, com 6% no Brasil, onde ainda há barreiras regulatórias e técnicas para o uso de reciclado em contato direto com alimentos.

Reprodução Webinar Embalagem de Papel

A rede vem substituindo ativamente itens plásticos por papel, como canudos, tampas, talheres, copos e embalagens de sanduíches, e já evitou 3 mil toneladas de plástico descartável por ano desde 2017, anualmente.

Além disso, desenvolve projetos de logística reversa:

  • México: resíduos de embalagens separadas nos restaurantes são reciclados e retornam como sacolas de delivery;
  • Brasil: copos descartados são coletados em parceria com IBEMA e Biopackaging, reciclados e transformados em novas embalagens, além do apoio logístico com a Green Mining ;
  • Paraná: caixas de papelão geradas nas operações são enviadas à Huhtamaki, que fabrica porta-copos com material reciclado da própria rede. De janeiro a maio de 2024, 6,2 milhões de porta-copos foram produzidos com essa matéria-prima.

Duenha destacou um projeto de coleta seletiva com lixeiras inteligentes, já implantado em diversos países, que permite a separação eficiente dos resíduos gerados no salão. O objetivo é recuperar o máximo possível de materiais para reinserção na cadeia, com benefícios tanto ambientais quanto operacionais.

Cases de inovação – Irani e Papirus

A Irani Papel e Embalagem compartilhou no evento um case premiado no 32º Prêmio Embanews, Troféu Roberto Hiraishi, que ilustra como inovação e sustentabilidade caminham juntas no setor. Apresentado por Robson Diego Alves, coordenador de desenvolvimento de produtos, o projeto teve como desafio desenvolver uma embalagem de transporte para exportação de açaí aos Estados Unidos, conciliando proteção do produto, eficiência logística e compromisso ambiental.

O projeto foi guiado por cinco pilares: pessoas, design de projeto, design estrutural, paletização e design gráfico. Entre os destaques, a embalagem foi concebida com um sistema de fixação interna exclusivo, capaz de acomodar oito potes de açaí com segurança e estabilidade, sem comprometer o volume externo ou a integridade da carga durante o transporte marítimo.

A solução final passou por seis protótipos e múltiplas revisões, adotando papelão ondulado com barreira contra umidade e alta composição de fibras recicladas, o que permitiu manter o padrão de qualidade exigido pela exportação mesmo sem utilizar papel kraft virgem. Segundo o coordenador da Irani, 72% das fibras utilizadas pela Irani em 2024 são recicladas, reforçando o papel da empresa na economia circular.

Além disso, o design gráfico minimalista e a impressão com tinta flexográfica à base d’água reforçaram o cuidado com a sustentabilidade em cada etapa. Alves destacou a importância de ampliar o reconhecimento do papel reciclado como alternativa viável e de alta performance para exportações

Case Papirus: barreiras funcionais e circularidade ampliam as fronteiras do papel cartão

A Papirus, com 73 anos de atuação no setor papeleiro, apresentou durante o webinar seus avanços no desenvolvimento de estruturas funcionais de papel cartão com barreiras sustentáveis, capazes de substituir embalagens plásticas em diferentes mercados, inclusive os mais exigentes, como o de refrigeração, alimentos gordurosos e copos para bebidas quentes ou frias.

Localizada em Limeira (SP), a fábrica concentra os investimentos em inovação da empresa e é responsável pela linha Vita, que inclui soluções como Vita Freezer, Vita Blister, Vita Copo e Vita Laundry, todas com aplicação de barreiras específicas para proteção contra umidade, gordura, vapores e variações térmicas. O objetivo da linha é ter embalagens que sejam repulpáveis, recicláveis e com alta performance técnica, sem comprometer a circularidade.

Segundo Anderson Maia, gestor de Desenvolvimento de Mercado da Papirus, o desenvolvimento das barreiras é feito com resinas cuidadosamente selecionadas, que seguem boas práticas de formulação para garantir o menor uso possível de insumos não renováveis. O profissional também destacou seu projeto Papirus Circular, que promove a logística reversa e o reaproveitamento de embalagens pós-consumo em sua própria cadeia produtiva, reforçando a lógica de economia circular com PCR (conteúdo reciclado pós-consumo).

Além da produção em escala, a empresa  aposta em customização sob demanda, com soluções de engenharia adaptadas a diferentes níveis de porosidade, resistência e hidrofobicidade, de acordo com os desafios técnicos de cada cliente. A empresa também mantém um laboratório avançado para ensaios técnicos, testes de biodegradabilidade, compostabilidade e ecotoxicidade, além de parcerias com universidades e fornecedores.

O case destacou a importância de substituir plásticos por materiais de fonte renovável, mas reforçou que a repulpabilidade ainda é o critério mais relevante para garantir a circularidade no curto prazo. “Estamos criando novas possibilidades para o papel, com estruturas funcionais e sustentáveis, que respondem tanto aos requisitos regulatórios quanto às expectativas do consumidor por embalagens responsáveis”, concluiu o porta-voz.

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Thais Negri Santi

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