Diante de um 2025 marcado por ventos contrários nos mercados de celulose, mas também por sinais de recuperação no horizonte, analistas, executivos e representantes da indústria se reuniram para debater estratégias e perspectivas que garantam a continuidade da liderança latino-americana no setor. Essas discussões estiveram no centro da 20.ª edição da Conferência de Produtos Florestais na América Latina, promovida pela Fastmarkets, agência especializada em preços de referência, análises e dados de commodities, realizada nos dias 12 e 13 de agosto, em São Paulo-SP.
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Rafael Barišauskas, economista sênior da Fastmarkets para a América Latina e professor de cadeias globais de valor da FECAP, destacou que os mercados de celulose e papel estão sujeitos a três grandes forças estruturais. A primeira é o movimento de desdolarização e a adoção de moedas locais em blocos como o BRICS+, que pode alterar o papel do dólar como referência global e redesenhar fluxos de comércio.
A segunda é a forte dependência da América Latina em relação à China, ainda sustentada pela exportação de commodities pouco transformadas, o que limita inovação, valor agregado e maior autonomia tecnológica. E, em terceiro lugar, a integração econômica entre Estados Unidos e México, fruto de décadas de comércio intensificado, com oportunidades de cooperação produtiva, mas que também expõe a região a riscos derivados de tarifas e tensões comerciais.
Para o economista, compreender essas interdependências e as mudanças nas reservas internacionais será crucial para que empresas e governos antecipem tendências, diversifiquem parceiros e fortaleçam a competitividade do setor diante de um cenário global cada vez mais complexo.
Se, por um lado, essa visão destaca os fatores estruturais que moldam o futuro do setor, por outro, a análise de Patrick Cavanagh, economista sênior e especialista do mercado de celulose na Fastmarkets, trouxe uma leitura mais conjuntural desses movimentos.
Ele pontuou que o primeiro semestre de 2025 foi marcado pelo impacto da política comercial dos EUA sobre a China e pelo aumento das paralisações diante da alta de estoques, enquanto decisões recentes, como a isenção da celulose de tarifas nos EUA, o fechamento de capacidades na China, a entrada em vigor do Regulamento AntiDesflorestamento European Union Deforestation Regulation (EUDR) e a desvalorização do dólar, moldam as perspectivas para 2025 e 2026, com riscos de alta e de baixa para os preços dependendo do equilíbrio entre oferta, demanda e paralisações necessárias para ajustar o mercado.
Cavanagh apresentou a análise sobre o ciclo de preços da celulose na China, tanto de fibra curta quanto de fibra longa, apontando que o fundo do ciclo ocorreu em 2025. O alerta veio em 2024, quando a Shandong Shenming expandiu fortemente sua capacidade de papel, o que inicialmente sustentou os preços, mas logo levou a um excesso de oferta e à queda atual, abaixo do custo de muitos produtores.
“Os estoques de celulose permaneceram elevados em 2024 e 2025, sem alcançar níveis de equilíbrio, o que pressionou ainda mais o mercado. Para lidar com o excesso, as empresas recorreram a paradas de produção e cortes de capacidade, estratégia já usada em ciclos anteriores (2019, 2023 e agora 2025)”, disse Cavanagh.
Apesar disso, as importações chinesas de celulose kraft branqueada subiram mais de 7% no primeiro semestre de 2025 em relação ao período anterior, representando 535 mil toneladas. Destaque para abril, quando a queda de preços estimulou recompras. “A expectativa é de continuidade desse movimento na segunda metade do ano”, apontou o especialista.
Vale mencionar que no ano passado a demanda global de celulose de mercado foi de 71,8 milhões de toneladas, sendo 40% da China, que registrou queda de 3% (cerca de 2 milhões de toneladas). Já a Europa, no mesmo ano, absorveu parte da demanda global, crescendo 2,4 milhões de toneladas, mas em 2025 o mercado europeu tem se demonstrado mais fraco, sobretudo em papéis gráficos, aumentando a pressão sobre a China. Do total produzido, a Europa respondeu por 27% da demanda.
“As políticas comerciais têm sido determinantes. Os EUA ameaçaram tarifas de 50% sobre commodities brasileiras, levando produtores a anteciparem embarques. No fim, a celulose ficou isenta, mas a incerteza elevou preços na China e motivou cortes de capacidade, como o anúncio da Suzano de reduzir 470 mil toneladas no período de 12 meses”, indicou o economista.
Combinado a isso, o EUDR deve entrar em vigor no fim do ano e a política chinesa contra a “involução” pode trazer fechamentos de capacidade. “Hoje, sinais indicam que os preços domésticos no mercado chinês começam a reagir e o equilíbrio entre oferta e demanda em celulose de fibra curta sugere um início de recuperação”, acrescentou Cavanagh.
Ele disse ainda que nos últimos quatro anos, a capacidade integrada de celulose na China dobrou, adicionando mais 15 milhões de toneladas, concentrada principalmente em celulose de fibra curta e mecânica, além da expansão rápida de celulose kraft não branqueada semiquímica. “A maior parte dessa capacidade atende cartão e papéis de especialidades (cerca de 25% para cada segmento), enquanto apenas 10% vão para tissue. Hoje, mais de 75% das máquinas de tissue no país não são integradas, com idade média inferior a cinco anos”, analisou.
Em junho, as margens de tissue na China voltaram a cerca de 1.300 yuan por tonelada, nível considerado aceitável devido ao crescimento contínuo do volume. A expectativa é que a demanda global de tissue cresça 2,5% ao ano nos próximos dois anos, acrescentando cerca de 2,4 milhões de toneladas, compensando o declínio de 1% ao ano que vem ocorrendo no segmento de papéis gráficos.
No cenário global, Cavanagh afirmou que a produção de papel e papelão deve crescer também para cartão e papéis especiais, enquanto os papéis para impressão e escrita devem registrar queda. Especificamente, a produção de cartão e papéis especiais deve aumentar 3,1 milhões de toneladas, enquanto a produção de papéis para impressão e escrita deve diminuir 1,4 milhão de toneladas.
“A taxa de utilização da celulose de fibra curta deve atingir 87% em 2025, recorde mais baixo, com expectativa de recuperação para 89% em 2026. Há uma previsão de fechamento de 500 mil toneladas de celulose kraft branqueada de fibra curta, que poderia elevar a taxa de utilização em um ponto percentual adicional. Já a celulose de fibra longa deve subir devido a interrupções temporárias ou fechamento de fábricas, que afetam a oferta e elevam a utilização das plantas restantes. O superabastecimento em outros segmentos aumenta a pressão sobre margens e preços, mas o crescimento contínuo do tissue também deve apoiar o mercado e beneficiar produtores de eucalipto”, completou.
A expansão da produção de celulose na China
O aumento da capacidade de produção de celulose na China, estimado em cerca de 5 milhões de toneladas entre 2025 e 2026, terá impacto significativo no mercado global de madeira e cavacos, segundo Marcos Madruga, analista internacional de Produtos de Madeira da Fastmarkets. “Esse crescimento impulsionará a demanda por matéria-prima de alta qualidade, especialmente cavacos de eucalipto, preferidos por sua densidade superior e menor necessidade de químicos no processo de polpação”, explicou.
Com a expansão, a China deverá aumentar suas importações de cavacos, sustentando e até elevando a competitividade dos fornecedores asiáticos, mesmo com a oferta doméstica em crescimento, que ainda representa uma parcela menor do abastecimento total. A demanda crescente também fortalece a posição do país como um dos principais polos do mercado global, conferindo maior influência na formação de preços de madeira e cavacos.
Apesar da redução temporária nas importações em 2025, o analista da Fastmarkets disse que a concorrência por fibra de madeira na Ásia segue intensa, com a região a continuar importando mais de 90% do comércio global de cavacos. Nesse contexto, os fornecedores internacionais terão maior poder de negociação, podendo aumentar preços, enquanto o mercado europeu deve se manter estável no curto prazo.
“Essa expansão reflete ainda a resposta à crescente demanda mundial por produtos de papel e celulose, impulsionada pelo comércio global. A China continuará sendo um motor de crescimento para o mercado de madeira, pressionando por recursos de alta qualidade e incentivando investimentos em plantações de eucalipto e novos projetos de silvicultura, tanto domésticos quanto internacionais”, concluiu Madruga.



