A assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, formalizada no último sábado (17), em Assunção, no Paraguai, marcou o encerramento de mais de 25 anos de negociações e abriu caminho para a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo. O tratado envolve um mercado potencial de cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto (PIB) combinado estimado em US$ 22 trilhões, consolidando-se como o acordo comercial mais amplo já firmado pelo Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
De acordo com matéria publicada pela Exame, o acordo prevê a redução ou eliminação progressiva de tarifas para aproximadamente 90% do fluxo de comércio entre os dois blocos, com impacto direto sobre a competitividade das exportações brasileiras ao mercado europeu. Atualmente, a União Europeia é o segundo principal destino das exportações do Brasil, respondendo por cerca de 14% do total vendido pelo país ao exterior. A maior parte desse fluxo (73%) concentra-se em apenas cinco países do bloco: Holanda, Espanha, Alemanha, Itália e Bélgica, que juntos lideram as importações de produtos brasileiros.
Entre os principais itens exportados pelo Brasil para a União Europeia estão petróleo bruto, café, farelo de soja, minérios de cobre, soja em grão e celulose. Segundo dados citados pela Exame, a celulose ocupa a sexta posição na pauta exportadora brasileira para o bloco europeu, com embarques que somaram US$ 2,15 bilhões em 2025, reforçando a relevância estratégica do setor de árvores cultivadas na relação comercial bilateral.
No entendimento do governo brasileiro, o acordo traz ganhos significativos ao ampliar o acesso do país ao mercado europeu. Conforme destacado em reportagem reproduzida pela Folha de Campo Grande, a liberalização tarifária deve alcançar cerca de 92% do valor das exportações brasileiras destinadas à União Europeia. Em contrapartida, o Mercosul abrirá gradualmente seu mercado a aproximadamente 91% dos bens europeus, preservando setores considerados sensíveis por meio de prazos de adaptação que podem chegar a até 30 anos, no caso de segmentos como o automotivo.
Para o setor de celulose, os efeitos esperados são positivos, especialmente em regiões altamente dependentes dessa cadeia produtiva. Segundo a Agência de Notícias do Governo de Mato Grosso do Sul, a celulose é o principal produto exportado pelo estado para a União Europeia, com destaque para municípios como Três Lagoas e Água Clara. A eliminação ou redução de tarifas tende a aumentar a competitividade do produto brasileiro, ampliando volumes exportados e receitas, além de fortalecer a previsibilidade para novos investimentos industriais e florestais.
Além do estímulo às exportações, o acordo também pode gerar benefícios indiretos ao setor. Conforme apontado pela Folha de Campo Grande, a redução tarifária sobre a importação de máquinas e equipamentos — que somaram cerca de US$ 492 milhões em 2025 no caso de bens voltados à cadeia de celulose — pode contribuir para a modernização do parque industrial brasileiro, com reflexos positivos sobre produtividade e eficiência operacional.
Entidades industriais também avaliam o tratado como um marco para a inserção internacional do Brasil. Em análise divulgada no sábado (17), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) destacou que, com a entrada em vigor do acordo Mercosul–UE, o acesso do Brasil ao comércio mundial saltaria de 8% para 36%, considerando a participação da União Europeia no comércio global. Segundo a CNI, mais de 5 mil produtos brasileiros terão tarifa zerada no mercado europeu desde o início da vigência do acordo, enquanto o Brasil contará com prazos mais longos para reduzir tarifas de bens importados do bloco.
Apesar do avanço político representado pela assinatura, o acordo ainda precisa passar pelos trâmites de ratificação nos parlamentos nacionais dos países envolvidos e no Parlamento Europeu. Nesse sentido, o Parlamento Europeu aprovou, no dia 21, uma resolução solicitando à Corte de Justiça da União Europeia um parecer sobre a conformidade jurídica do acordo com os tratados do bloco. A medida suspende temporariamente a votação do texto até a manifestação da Corte, cujo prazo estimado pode chegar a até 24 meses.
Ainda assim, o processo pode avançar antes da conclusão definitiva dessa etapa. De acordo com a agência Reuters, um diplomata da União Europeia afirmou nesta quinta-feira (22) que o acordo de livre comércio entre Mercosul e UE deverá ser aplicado de forma provisória já a partir de março. A declaração ocorre em meio a divergências entre líderes europeus sobre o futuro do tratado, mas sinaliza uma tentativa da Comissão Europeia de antecipar seus efeitos econômicos. Para setores exportadores intensivos em escala e competitividade, como o de celulose, a aplicação provisória pode representar ganhos imediatos, com redução de barreiras tarifárias, maior previsibilidade comercial e fortalecimento do posicionamento do Brasil no mercado europeu.



