LEIA O PDF COMPLETO DA COLUNA ESTRATÉGIA E GESTÃO DE SETEMBRO/26 – O PAPEL
O ano de 2026 vem se consolidando como um ano de virada para a indústria florestal brasileira. Entre avanços históricos e novas barreiras regulatórias, as empresas vivem um ambiente em que previsibilidade e pressão caminham lado a lado. O jogo internacional mudou: acordos comerciais, cotas e proteções de mercado, exigências ambientais e tarifas adicionais moldam um cenário em que competitividade deixou de ser apenas custo, qualidade e produtividade.
Os números ajudam a dimensionar o que está em jogo. No primeiro semestre, as exportações somaram US$ 7,5 bilhões, uma queda de 5,9% em relação ao mesmo período de 2025. A celulose, carro-chefe da pauta, alcançou US$ 5,2 bilhões (-4%), com 9,4 milhões de toneladas embarcadas. Em 2025, o setor fechou em US$ 14,9 bilhões, após o recorde de US$ 15,7 bilhões em 2024. Hoje, o Brasil conta com 10,5 milhões de hectares de florestas plantadas e preserva mais de 7 milhões de hectares de vegetação nativa, tudo em propriedades privadas, sem causar pressão sobre florestas naturais. Esse cenário reforça a escala e a relevância global do País.
O acordo Mercosul–UE: previsibilidade com compromissos
Depois de mais de 25 anos de negociação, o acordo foi assinado em janeiro e entrou em aplicação provisória em maio de 2026. Pelo contrato, a União Europeia (EU) eliminará tarifas sobre cerca de 95% dos bens, equivalentes a 92% do valor das importações europeias de produtos brasileiros, em prazos de quatro a doze anos.
Produtos florestais como celulose e madeira já tinham tarifas baixas ou nulas em muitos casos, mas o tratado traz estabilidade institucional e redução de barreiras técnicas. Em 2025, a Europa absorveu entre 23% e 27% da celulose brasileira, com valores próximos de US$ 3,6 bilhões. Além disso, o acordo inclui compromissos ambientais explícitos, como referência ao Acordo de Paris e combate ao desmatamento. Empresas que já operam com rastreabilidade e certificação tendem a capturar os ganhos com mais facilidade. Contudo, no fiel da balança, o acordo traz ao produtor brasileiro um pesado fardo regulatório de rastreabilidade e aspectos ambientais que não fazem sentido para o padrão normativo brasileiro.
O cenário de complexidade do acordo é visível atualmente em vários países da União Europeia, na cadeia produtiva do agronegócio. Milhares de produtores rurais estão desde o início do ano (e mais intensivamente agora em Agosto) em intensas manifestações para impedir o avanço do acordo com o Mercosul. Na prática, o Estado impôs pesadas regras de produção que tornaram a atividade cada vez mais cara e improdutiva na região.
Assim, esses produtores não querem que produtos brasileiros entrem com as mesmas vantagens no mercado europeu. Na prática, demandam o bloqueio das negociações ou que o Brasil adote as mesmas regras europeias com os produtores locais. Trata-se, em última análise, de “exportação de problemas” para outros países.
Esta animosidade do agro, com a importação de produtos fabricados fora da comunidade europeia, pode chegar rapidamente nos produtos da indústria de celulose e papel. Todos os vetores atuais do desarranjo econômico e político da União Europeia (proximidade de guerra aberta com Rússia, elevação do endividamento dos governos, inflação, crise migratória e segurança pública etc.) tornam-se potencialmente escaláveis para impactar os produtores brasileiros que precisam acessar o consumidor europeu.
EUDR: a barreira que chegou para ficar
Se na Europa o acordo abre portas, a EUDR impõe novas exigências. A partir de 30 de dezembro de 2026, grandes e médios operadores precisarão comprovar que madeira e derivados não estão vindo de áreas desmatadas ou degradadas após 31 de dezembro de 2020.
A regra afeta cerca de um terço das exportações brasileiras para a UE, um volume estimado em US$ 17 bilhões anuais.
Estudos indicam que os custos adicionais de rastreabilidade e due diligence podem chegar a US$ 17,5 bilhões por ano para o agro brasileiro (lembra da “exportação de problemas” para outros países?). O Brasil foi classificado como País de risco padrão, exigindo diligência completa.
Para o setor de florestas plantadas, o desafio é menor, mas não desprezível: georreferenciamento, sistemas digitais e documentação exigem investimento. Contudo, ainda há toneladas de dúvidas sobre a operacionalização dos registros de rastreabilidade: o rastreio será feito embarque a embarque ou por lote de fabricação? Ou bastará que uma indústria faça a demonstração completa de rastreabilidade de todos os seus plantios? E em que periodicidade, uma vez ao ano, uma vez ao mês? Mas e as compras de madeira vindas de florestas de mercado, como demonstrar a origem: por compra, por fazenda, por período, por lote de fabricação da celulose? Lembre-se: como a lei é genérica, a criatividade da interpretação é ilimitada.
Tarifas americanas: alívio parcial e atenção permanente
Nos Estados Unidos, a tarifa adicional de 25% aplicada em julho de 2026 atingiu cerca de 24% das exportações de papel e celulose. No total, a medida alcançou US$ 11 bilhões em vendas brasileiras ao país.
A celulose de fibra curta, longa e fluff ficou em grande parte isenta — um alívio importante, já que o Brasil abastece cerca de 80% da demanda americana de fibra curta. Já papéis, painéis, madeira serrada e compensados sentiram forte impacto, com quedas de 25% a quase 50% em alguns segmentos no primeiro semestre.
A América do Norte, que em anos recentes chegou a responder por 19% das exportações do setor, registrou retração superior a 20% no início de 2026. A China segue como principal destino, absorvendo entre 40% e 48% da celulose, seguida pela Europa.
China: parceiro e concorrente
Se por um lado a China continua sendo o maior comprador de celulose brasileira, por outro, o país vem reduzindo volumes e ampliando sua presença como exportador global de papel. A China tem este perfil para quase todos os seus parceiros: é normalmente o maior comprador, mas também é quem paga menos.
Essa mudança de posição pressiona a indústria nacional de celulose e papel. Nas vendas, sente o efeito da redução do volume de exportações, já nas importações, vê o mercado interno ser inundado por papel chinês a preços mais baixos do que os fabricados aqui no Brasil.
Diante desse cenário, empresas brasileiras têm pedido ao governo a adoção de cotas para a entrada de papel importado da China, como forma de equilibrar a concorrência e proteger a produção local. O tema abre uma nova frente de disputa comercial, mostrando que o desafio não está apenas em atender exigências ambientais ou superar tarifas, mas também em lidar com a competição direta de grandes players globais.



