A tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros anunciada na quarta-feira (9) pelo presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que deve entrar em vigor a partir do dia 1º de agosto trouxe incertezas para diversos setores da economia brasileira, em especial, o setor de celulose.
Dentre os principais produtos brasileiros exportados para os EUA, de acordo com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), a celulose ocupa a sexta posição.
“Os Estados Unidos representam hoje cerca de 11% das exportações brasileiras de celulose, tanto em valor, como em volume (vide gráfico abaixo), sendo a China o destino de 45% das exportações e 44% para os demais mercados”, explica Marcio Funchal, administrador de empresas fundador da Marcio Funchal Consultoria.

Em números, segundo Funchal, os EUA atualmente importam do Brasil, em valores, cerca de USD 115 mi/mês e em volume algo como 230 mil ton/mês.
Dados da Goldman Sachs, em notícia veiculada pelo InfoMoney, apontam que o Brasil exportou cerca de 2,8 mi/ton de celulose de fibra curta para os Estados Unidos em 2024, volume que representa 78% do consumo americano desse tipo de produto, 14% das exportações brasileiras e 7% do mercado global.
O banco avalia que a substituição desse volume de celulose de fibra curta por outros fornecedores é considerada improvável em um curto intervalo de tempo, já que a produção total em países como Uruguai e Chile, principais candidatos a preencher essa lacuna, gira em torno de 9,5 mi/ton por ano, proporção insuficiente para uma reposição rápida e sem desequilíbrios.
A avaliação da XP Investimentos, conforme relatório especial, segue no mesmo sentido, tendo como o principal argumento a baixa capacidade de produção local de celulose de fibra curta nos EUA, o que obriga o país a importar volumes substanciais para manter a indústria de papel operando normalmente.
Voltando o olhar para a celulose como um todo, Funchal destaca que embora cada tipo de produto tenha sua aplicação e consumidor específicos, ainda se trata de uma commodity, com elasticidade de oferta e demanda muito altas.
“Hoje há excesso de capacidade de produção de celulose em vários países, o que justifica a pressão de preços recente. O Brasil conta hoje com tarifa adicional de 10% no mercado americano, porém, passando para 50%, no longo prazo, será muito difícil justificar que um importador americano opte por manter contrato com fornecedor brasileiro. Será muito mais vantajoso voltar a se abastecer com celulose advinda de outros países, mesmo que com uma celulose mais cara, pois para estes não haverá a sobretaxa de 50%”, afirma Funchal.
Possíveis redirecionamentos da celulose brasileira
Nos últimos anos, o Brasil exportou celulose para 91 países (vide ranking abaixo). Boa parte dos destinos, além de China e Estados Unidos é europeu. Para Marcio Funchal, este seria o destino “mais fácil” para migrar as exportações brasileiras.

A XP Investimentos, conforme publicado pelo Infomoney, também vê a Europa, somada a Ásia, como principais destinos das exportações de celulose brasileira, com a ressalva de que tal movimento pode acarretar pressões adicionais.
“Este seria um movimento muito doloroso para o produtor brasileiro. Demais países já estão com seus mercados internacionais consolidados, o que fará com que o importador de outras nações pressione para comprar a celulose brasileira com preço mais baixo o que impactaria o mercado mundial, fazendo com que se veja um período de meses de ajuste de oferta, demanda e preços ao redor do mundo”, complementa Funchal.
Diante deste cenário, representantes de diversos setores da indústria reuniram-se nesta quarta-feira (15) com o vice-presidente e ministro do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), Geraldo Alckmin, pedindo que o governo federal negocie o adiamento da aplicação da tarifa de 50% anunciada pelo presidente Donald Trump, manifestando-se contra a retaliação das taxas por parte do Brasil, com base na Lei da Reciprocidade Econômica.
Na ocasião, o presidente da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Paulo Hartung, afirmou que, neste momento é fundamental evitar bravatas e apostar na negociação e na diplomacia.
As perspectivas para o setor de papel embora representem uma porcentagem menor do que a do setor de celulose, são mais complexas. Leia amanhã a matéria com análise sobre os possíveis impactos.



