As tarifas recíprocas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos importados reacenderam um antigo debate no comércio internacional: até que ponto o protecionismo pode afetar a estabilidade global? No caso da madeira, os impactos são diretos e imediatos, especialmente para os produtores e exportadores brasileiros. Será que o Brasil conseguiria atender uma oportunidade de mercado, enquanto os grandes discutem as tarifas entre si?
Guerra Tarifária
As tarifas recíprocas anunciadas pelo governo norte-americano afetam produtos de países que, segundo os EUA, não praticam tarifas equivalentes. A justificativa é corrigir um desequilíbrio na balança comercial dos Estados Unidos. Porém, na prática, essas medidas agravam tensões com parceiros estratégicos e geram incertezas em setores como o madeireiro, que depende fortemente da previsibilidade para operar e, no caso do Brasil, depende do mercado norte americano.
Por aqui, os reflexos dessas ações já são sentidos. Mesmo com o nosso país tendo recebido uma das tarifas mais baixas (10%), na última semana, os embarques se tornaram mais escassos e as compras estão suspensas. Além disso, a taxação sobre produtos como madeira serrada, painéis e compensados torna nossos produtos menos competitivos. Isso gera, como disse, a redução de pedidos, uma renegociação de contratos e, em casos mais graves, a suspensão de embarques programados.
Além disso, a disputa tarifária entre Estados Unidos e China, que se intensificou nas últimas semanas, continua a provocar distorções nos fluxos comerciais. A imposição de tarifas de ambos os lados leva empresas a buscar mercados alternativos, alterando cadeias logísticas globais. Embora isso possa abrir oportunidades pontuais para o Brasil — como o redirecionamento da demanda por madeira — também cria um ambiente de instabilidade que dificulta o planejamento de médio e longo prazo. Essa instabilidade é sobretudo gerada por uma maior oferta de produtos chineses em outros mercados (incluindo o Brasil) e – sabemos – produtos chineses são muitas vezes mais baratos.
Como se não bastasse, a União Europeia anunciou recentemente a aplicação de tarifas sobre uma série de produtos oriundos dos Estados Unidos, entre eles produtos madeireiros como lâminas, compensados, painéis e outros. Essa resposta direta às tarifas impostas ao aço, alumínio e produtos derivados pelos EUA pela primeira vez em 2018 e 2020.
Será que essa guerra tarifária entre os grandes players do mercado pode abrir alguma janela de oportunidade para o Brasil? Pode ser que haja, sim, um movimento de compra de produtos madeireiros de países onde as tarifas de importação são menores.
Mas a questão central, neste caso, é: o Brasil consegue atender a uma demanda maior neste momento? Talvez, sim. Mas não por muito tempo. Pois vivemos um período crítico de oferta de matéria prima e por mais que as indústrias consigam embarcar seus estoques, aumentar a produção depende de outros fatores de infraestrutura nacional. E esses dados não são animadores.
Recessão à vista?
É preciso considerar, ainda, o risco crescente de uma recessão. A combinação de aumento de custos, redução de consumo e políticas comerciais restritivas pode resultar em uma desaceleração econômica global. Para o setor madeireiro brasileiro, isso significa preparar-se para um cenário de retração: queda nos pedidos, maior concorrência e renegociação de preços.
Diante desse quadro, o empresário madeireiro deve estar atento e se antecipar. Avaliar novos mercados, diversificar produtos, buscar ganhos de produtividade e acompanhar de perto as políticas comerciais internacionais serão diferenciais estratégicos. A crise atual pode ser também uma oportunidade para repensar modelos de negócio, investir em inovação e fortalecer parcerias de longo prazo.
É tempo de prudência e estratégia. A guerra tarifária ainda está longe do fim, e os próximos meses exigirão decisões rápidas, baseadas em informação e capacidade de adaptação. O setor madeireiro brasileiro já enfrentou grandes desafios — e tem todas as condições de superá-los novamente.
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