Circularidade: desafios e soluções para integração nas cadeias de valor

Painel reúne especialistas no Fórum mundial da Economia Circular 2025

Na última terça-feira (13), primeiro dia do Fórum mundial da Economia Circular (WCEF -World Circular Economy Forum), realizado no Parque do Ibirapuera em São Paulo, representantes de diversos setores da economia que utilizam em suas cadeias produtivas soluções baseadas na floresta se reuniram para debater a importância da circularidade para a indústria.

O painel “Soluções Baseadas na Floresta: Avançar na Circularidade nas Cadeias de Valor” ocorreu logo após a cerimônia de abertura da primeira edição do fórum realizada na América Latina e teve como moderador o embaixador e presidente executivo da Empapel, José Carlos da Fonseca Júnior.

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A sessão teve início com a apresentação de Tim Forslund, líder sênior de programas internacionais no fundo de inovação finlandês Sitra. Ele falou sobre as oportunidades de criação de valor na economia circular, através do setor florestal.

Como primeiro ponto, Tim destacou a importância de solucionar a questão da perda de biodiversidade. “A primeira forma como a economia circular pode interromper a perda de biodiversidade é com desfechos regenerativos em áreas de produção da bioeconomia como as práticas de gestão, diminuição do uso de materiais de saída e a redução da pressão da biodiversidade através da redução no processo de nitrificação e nas emissões de gases de feito estufa”, indicou.

Tim evidenciou o fato de que para adotar a circularidade é necessário olhar para a cadeia de valor como um todo. “Você precisa analisar separadamente cada etapa do processo e repensar o modo de produção, a criação de valor pensando na floresta como serviço como, por exemplo, usando a remanufatura, reuso, reparo antes de, claro, considerar também a reciclagem”.

Como exemplos, o líder de programas internacionais da Sitra trouxe cases de sucesso espalhados pelo mundo como a substituição do uso de grafite por madeira na produção de baterias que são usadas em veículos elétricos. Outro exemplo, vem de uma empresa que utiliza árvores de Natal como um serviço, devolvendo cada árvore para o solo após a festividade, fazendo com que ela possa ser utilizada novamente.

Como segundo palestrante, o painel trouxe Daniel Lage Chang, especialista em Bioeconomia da Secretaria Técnica da Rede Bioamazônia que falou sobre as lições da floresta Amazônica para a pesquisa e inovação no campo da bioeconomia circular.

Chang trouxe dados relevantes sobre a tripla crise planetária, como a concentração de carbono na atmosfera que hoje é de 428 ppm (partes por milhão), sendo que cientistas vem alertando há anos que passado o limite de 400 ppm, ocorrem os casos de extremos climáticos que vêm se intensificando nos últimos anos afetando todos os ecossistemas do planeta.

Já a pegada ecológica, que pode ser traduzida como um “orçamento anual de recursos naturais” se esgotará no dia 1º de agosto, de acordo com as estatísticas, fazendo com que o planeta opere em “saldo negativo” durante cinco meses. Ou seja, sem a capacidade natural de regeneração do planeta.

Enquanto o framework de limites planetários do Centro de Resiliência de Estocolmo aponta que 9 dos 12 limites apresentados já foram atingidos e seis deles ultrapassados, levando ao comprometimento da vida na biosfera.

Os impactos dessa crise têm sido observados na Amazônia que passou, nos últimos dois anos, por uma mega seca histórica. Uma das moradas do Boto-cor-de-rosa, no lago Tefé, localizado no Médio Solimões na Amazônia já ultrapassou a temperatura de 40ºC. Além disso, uma das cadeias de valor mais tradicionais da região amazônica, a da castanha, está com 70% de quebra na produção, atingindo inúmeras comunidades locais que dependem dessa cadeia, explica Daniel.

“Estas fortes lições que podemos aprender com a Amazônia trazem um convite para pensarmos e agirmos em direção à economia regenerativa. Hoje não existe uma resposta tão poderosa, contundente e exemplar quanto os sistemas agroflorestais”, afirmou o especialista em Bioeconomia.

Atualmente, o Brasil já tem mais de um milhão de hectares contratados em projetos de restauração com agrofloresta. “O que torna a agrofloresta tão interessante é que ela segue os princípios da natureza, como diversidade, densidade, estratificação e cobertura de solo, que restauram a vitalidade, os processos de micronutrientes e disponibilidade de nutrientes no solo, com um ganho econômico três vezes maior do que atividades convencionais de pecuária extensiva e monocultura de soja, que são drivers de desnutrição”, exemplificou Chang.

O painel seguiu com rodadas de perguntas, moderadas por José Carlos da Fonseca Júnior aos convidados: Marina Negrisoli, diretora global de Sustentabilidade Suzano S.A, maior fabricante de celulose do mundo; Daniel Weingart Barreto, diretor executivo da Assessa Indústria, Comércio e Exportação Ltda., pioneira no desenvolvimento e produção de ingredientes derivados da biodiversidade brasileira; Joona Kotilainen, cofundador da Hiil Ltda., consultoria em tecnologia da informação e Celso Tacla, presidente da Valmet América do Sul, desenvolvedor e fornecedora líder mundial de tecnologia de processo, automação e serviços para indústrias de celulose, papel e energia.

Exemplo na implementação da circularidade, a Suzano possui 3 milhões de hectares de terras no Brasil, sendo que 1,1 milhão de hectares são reservados para a conservação e 45 mil hectares estão sendo restaurados com espécies nativas nas plantações da empresa. Desde 2024, a companhia tem iniciativas para utilizar o máximo da árvore de suas florestas plantadas destinadas à produção, explica Marina, como o uso do licor negro e das cascas de árvores para obter quase 90% da energia elétrica utilizada no processo produtivo da celulose proveniente de subprodutos da árvore.

A executiva pontuou que a Suzano já possui quatro usinas voltadas à produção de insumos, a partir de resíduos inorgânicos, utilizados como corretivos de acidez do solo em suas plantações.

Já a Assessa, que pesquisa na natureza moléculas que tragam benefícios para pele ou cabelo na indústria de cuidados pessoais, tem como missão o processo limpo de extração. “Cerca de 50% das inovações no nosso funil vêm de fontes upcycling. Nós olhamos para fontes que já são subprodutos, resíduos de processos nas cadeias existentes e nosso foco agora é buscar moléculas em certas cadeias de suprimentos e passar de 50% a 100% de moléculas provenientes de cadeias de valor sustentáveis”, elucidou Daniel.

A Valmet fornece matéria-prima para a indústria de papel e celulose, dando aos clientes a possibilidade de fazer celulose de alta qualidade, extraindo ainda o valor de subprodutos, com aproveitamento de resíduos que geralmente não eram utilizados antes, esclareceu Celso Tacla, citando os produtos químicos que no passado eram lançados na atmosfera e, mais tarde, eram coletados e incinerados em caldeiras e fornos. “Hoje, através da nossa tecnologia, extraímos o enxofre para produzir ácido sulfúrico, que é utilizado na planta de produção de celulose e que é suficiente para toda a usina”, pontuou.

Tacla citou também outros subprodutos como a utilização da lignina, matéria-prima renovável, na substituição de insumos para fazer compostos e substituir painéis, entre outros que são utilizados na indústria cosmética e na produção de fibras sustentáveis para fazer têxteis.

As plantas de celulose são grandes produtoras de energia verde. “A planta da Arauco, por exemplo, será autossuficiente em energia limpa, onde estamos fornecendo tecnologia para a geração de 400 Mw dos quais 200 Mw serão excedentes que poderão ser exportados”, explicou Tacla.

Para embalagens, conforme o executivo, a Valmet entregou para a Klabin máquinas que permitem a produção de um papel que antes utilizava fibras longas e que agora é produzida com 100% de fibras curtas, o que diminui de 50 mil hectares para 30 mil hectares necessários para produzir a mesma quantidade de papel.

Enquanto isso, a empresa Hill, que começou como uma produtora de móveis com madeira reciclada como matéria-prima, é uma importante consultoria de upcycling, que tem reutilizado a madeira resultante da indústria de construção através de um processo de aplicação de fogo que permite a eliminação da areia e do concreto com água.

Perguntados sobre os desafios para integração da circularidade em seus processos, os quatro representantes, apesar de se tratarem de áreas distintas, têm encontrado as mesmas dificuldades: a tecnologia, que às vezes não existe, ou não tem o retorno econômico esperado pelas empresas e a parceria, tanto para financiamentos, quanto na disposição de tempo para esperar pela pesquisa e desenvolvimento da tecnologia necessárias.

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Fernanda Capo
Advogada formada na Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduanda em Jornalismo Digital pela Fundação Casper Líbero.

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