A restauração florestal com espécies nativas começa a ganhar contornos de nova fronteira econômica no Brasil, deixando de ser tratada apenas como agenda de conservação para se consolidar como vetor de desenvolvimento, mitigação climática e atração de capital. Essa foi a tônica do painel “Novos Rumos da Economia Florestal: Silvicultura de Espécies Nativas e Política Reguladora”, que reuniu representantes do Bezos Earth Fund, BNDES, Re.green e Ibá (Indústria Brasileira de Árvores) durante a COP30, em Belém.
Ao abrir a discussão, a Coalizão Brasil destacou que a filantropia teve papel decisivo na fase inicial da silvicultura de nativas, funcionando como uma espécie de “capital de risco climático” para um setor ainda em construção.
Cristian Samper, diretor executivo e líder em soluções para a natureza do Bezos Earth Fund, falou sobre a importância da proteção e restauração de ecossistemas para mitigação das mudanças climáticas. “Com atuação global e foco especial na Amazônia brasileira, nosso trabalho combina apoio à criação de áreas protegidas, demarcação de territórios indígenas, rastreabilidade da pecuária e, mais recentemente, uma aposta mais estruturada em restauração com espécies nativas também na Mata Atlântica”.
Samper ressaltou que, por décadas, a restauração ao redor do mundo se apoiou principalmente em espécies exóticas, enquanto as nativas receberam pouco investimento em pesquisa, melhoramento genético e tecnologia de manejo.
O projeto apoiado pelo Bezos Earth Fund, em parceria com a Coalizão Brasil, a Conservação Internacional e outras instituições, busca justamente preencher essa lacuna ao combinar genética, experimentos de campo e monitoramento em larga escala.
Hoje, mais de 10 mil árvores estão sendo acompanhadas em diferentes sítios de pesquisa para seleção de espécies nativas com maior potencial de crescimento e captura de carbono para uso em projetos de restauração e silvicultura. “A filantropia, nesse contexto, entra para assumir o risco das primeiras respostas científicas, abrindo caminho para a entrada de financiadores públicos e privados em projetos de maior escala”, destacou.
Se a filantropia ajuda a “empurrar a fronteira tecnológica”, o BNDES começa a consolidar o papel de âncora financeira dessa nova economia florestal. Raphael Stein, gerente de meio ambiente do banco, explicou que a estratégia atual é olhar para florestas como um ativo econômico integrado, articulando restauração ecológica, florestas produtivas, silvicultura de nativas, sistemas agroflorestais e manejo florestal sustentável.
“Nos últimos anos, o BNDES saiu de programas-piloto, como a antiga Iniciativa de Restauração da Mata Atlântica, para uma carteira que já se aproxima de R$ 2 bilhões em financiamentos aprovados em projetos florestais de diferentes naturezas, incluindo restauração com espécies nativas”, lembrou Stein.
Na visão do banco, a silvicultura de nativas cumpre um papel duplo: ajuda a recompor áreas degradadas e, ao mesmo tempo, contribui para reduzir a pressão sobre o desmatamento, ao fornecer madeira de origem legal e certificada para o mercado. Mas Stein reconhece que o país precisa “recuperar cerca de 30 anos de atraso” em pesquisa e desenvolvimento.
“É necessário conhecer e melhorar curvas de crescimento, certificar sementes, fortalecer viveiristas e coletores, desenvolver novos equipamentos e tecnologias industriais e abrir mercado para produtos como madeira engenheirada, substituindo aço e concreto em parte das construções. O BNDES já atua em várias frentes, combinando recursos do Fundo Amazônia, do Fundo Clima e de fundos próprios em iniciativas que vão desde linhas de crédito para grandes projetos até editais voltados a viveiros, coletores de sementes e instrumentos-piloto de certificação de carbono para pequenas restaurações”, disse Raphael.
Do lado do capital privado, a Re.green foi apresentada como exemplo de empresa que transforma restauração em modelo de negócio, unindo carbono, madeira nativa e bioeconomia em arranjos inovadores. A diretora jurídica e de relações institucionais da companhia, Mariana Barbosa, explicou que: “O objetivo da empresa é transformar pastagens em florestas nativas em larga escala, com a meta declarada de chegar a 1 milhão de hectares restaurados. Hoje, a Re.green atua em biomas como Mata Atlântica e Amazônia, em estados como Bahia, Mato Grosso, Maranhão e Pará, com 17 mil hectares em restauração dentro de um portfólio de 34 mil hectares, que inclui também áreas de vegetação nativa já conservadas”, apontou a diretora.
“O financiamento dos projetos se dá principalmente por meio de créditos de carbono de alta integridade e, no médio e longo prazos, pela produção de madeira nativa em sistemas de silvicultura”, continuou.

Nesse sentido, a premiação da Re.green pelo Earthshot Prize, na categoria “Proteger e Restaurar a Natureza”, foi vista pela própria empresa não apenas como um reconhecimento isolado, mas como um marco simbólico para todo o setor de restauração brasileiro.
“A visibilidade internacional, com milhões de visualizações e repercussão em centenas de veículos de comunicação, ajudou a colocar a restauração com nativas no mapa da nova economia florestal global, ampliando o interesse de investidores e abrindo portas para parcerias com grandes empresas”, concluiu Mariana.
Miguel Calmon, Colíder da FT Silvicultura de Nativas da Coalizão Brasil destacou, porém, que: “Essa “nova indústria” não nasce do zero: ela bebe de décadas de pesquisa em ecologia e silvicultura, da experiência acumulada em torno do Código Florestal, que fomentou viveiros, redes de coletores e arranjos locais de restauração e de uma base científica robusta construída por universidades, institutos de pesquisa e organizações da sociedade civil”.
Para Mariana, a diferença é que, agora, a restauração deixa de ser apenas obrigação legal ou projeto filantrópico e passa a ser também estratégia de geração de valor econômico, com modelos que incluem compra de propriedades, parcerias rurais e arrendamentos, muitas vezes articulados com atividades de bioeconomia, como produção de açaí, mel e outros produtos florestais em áreas restauradas ou adjacentes.
Em paralelo, Adriano Scarpa, Gerente de Políticas Florestais e Sustentabilidade da Ibá mostrou como o “Brasil florestal tradicional”, historicamente ancorado em eucalipto e pinus, começa a se conectar de forma orgânica à agenda das espécies nativas.
“O setor brasileiro de florestas plantadas é um caso emblemático de sucesso em pesquisa e inovação: na década de 1960, era necessário um hectare para produzir uma tonelada de celulose, hoje, o mesmo hectare produz duas, mesmo sob condições climáticas mais adversas. Isso se deve a décadas de melhoramento genético, manejo de precisão e parcerias estruturadas com universidades”, salientou Scarpa.
Com a entrada de empresas de restauração na associação, como Re.green, Biomas, Mombak, Symbiosis e Carbon2Nature, a Ibá criou um grupo pré-competitivo, que agrega esse novo segmento e busca sinergias entre a lógica da silvicultura tradicional e os desafios específicos da restauração com nativas.
A premissa é clara, explica Adriano, se o setor já aprendeu a plantar e manejar florestas com alta produtividade, é possível transferir parte dessa experiência para estruturas produtivas baseadas em espécies nativas, respeitando, obviamente, a ecologia e a diversidade desses sistemas.
Ao mesmo tempo, o grupo atua em frente regulatória, buscando garantir que o arcabouço de licenciamento, regras de carbono e instrumentos de política pública não sejam um freio à expansão de projetos, especialmente em um contexto em que novas normas internacionais podem endurecer critérios para projetos florestais se não levarem em conta a realidade tropical.
Ao longo do debate, surgiram ainda outros pontos críticos para a consolidação dessa nova economia florestal. Entre eles, a necessidade de escalar pesquisa e desenvolvimento, fortalecer cadeias de sementes e viveiros em regiões onde haverá concentração de projetos, avançar em tecnologias de monitoramento e dados, inclusive com plataformas independentes, como o Global Nature Watch apoiado pelo Bezos Earth Fund, e desenhar mecanismos que permitam incluir agricultores familiares e pequenos produtores em arranjos de restauração e carbono em condições equilibradas de risco e remuneração.
Os participantes foram unânimes em reconhecer que créditos de carbono, sozinhos, não resolverão todos os desafios, mas tiveram papel crucial em destravar investimentos nos últimos anos e em acelerar a construção de uma “infraestrutura” para a bioeconomia florestal: metodologias, contratos padrão, modelos de parceria, sistemas de monitoramento e um repertório crescente de casos concretos. A perspectiva, agora, é de uma transição em que o carbono convive com receitas oriundas de madeira nativa, produtos florestais não madeireiros, serviços ecossistêmicos e inovação industrial, numa agenda que é, antes de tudo, econômica.



