O mercado brasileiro de madeira atravessa setembro sem grandes novidades capazes de aliviar a pressão sobre a indústria. Nas conversas com produtores e exportadores durante a Lignum Latin America 2026, realizada entre 15 e 17 de setembro, o assunto se repetia: os impactos do tarifaço dos Estados Unidos, a queda nos pedidos, a busca por desenvolver novos mercados e a aposta no consumo interno. A questão é: como transformar essas alternativas em negócios com continuidade?
O desafio americano vai além das tarifas de importação. O CME Group, grupo que opera bolsas de derivativos nos Estados Unidos, publica o Agriculture Index, que acompanha contratos futuros de produtos como grãos, pecuária e madeira. São negociações com preços definidos para uma data futura. Na edição de setembro de seu boletim, o item madeira serrada registrou queda de 10,9% em agosto de 2026.
O resultado se refere aos futuros de madeira de coníferas usados como referência no mercado norte-americano. Não equivale a uma queda igual nos preços de todos os produtos de madeira. A análise do CME relaciona o recuo ao enfraquecimento da construção residencial e às incertezas comerciais. Para o exportador brasileiro, o cenário combina barreiras de acesso com dificuldades de demanda, o que torna a recuperação dos pedidos mais desafiadora.
Enquanto isso, Canadá e União Europeia discutem uma aproximação que merece atenção. Em 17 de setembro, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, defendeu uma parceria mais integrada, ampliando a relação já amparada pelo acordo comercial CETA. O formato ainda depende de negociação e os anúncios não detalham os novos volumes de madeira destinados ao bloco.
Se essa aproximação facilitar o acesso e estimular os embarques canadenses, poderá ampliar a oferta em um mercado importante para o compensado brasileiro, por exemplo. A concorrência dependerá dos produtos, das especificações, dos fretes e da demanda europeia. Ainda assim, o movimento reforça a necessidade de acompanhar os concorrentes e desenvolver relações comerciais duradouras. Diversificar destinos exige tempo, conhecimento do comprador e adaptação do produto.
É nesse cenário que fomentar o mercado interno precisa ganhar prioridade. Construção civil, móveis e embalagens oferecem frentes para ampliar o uso da madeira. Transformar esse potencial em demanda requer aproximar produtores, distribuidores, arquitetos, engenheiros e construtoras, difundir aplicações e investir em capacitação. Também exige condições de financiamento e regularidade no fornecimento. O objetivo deve ser construir uma base de consumo que dê maior estabilidade à indústria.
Fortalecer o Brasil como consumidor deve caminhar junto com a preparação para continuar exportando. Na Europa, o EUDR, regulamento voltado a produtos livres de desmatamento, tem calendário definido após os adiamentos. As exigências começam em 30 de dezembro de 2026 para operadores médios e grandes e para micro e pequenos já abrangidos pelo regulamento europeu da madeira, o EUTR. Para os demais micro e pequenos operadores, o prazo é 30 de junho de 2027.
Em atualização de 13 de julho de 2026, a Comissão Europeia apresentou ajustes no escopo e no sistema de informações, mantendo essas datas. O enquadramento do operador e do produto precisa ser conferido com o comprador.
Os pedidos negociados agora, com colocação no mercado europeu prevista a partir do prazo aplicável, já devem ter sua documentação preparada para a due diligence. Isso inclui origem, espécies, legalidade e geolocalização das áreas de produção. Os dados devem comprovar que a madeira não vem de áreas desmatadas nem de exploração que tenha causado degradação florestal após 31 de dezembro de 2020. O operador responsável na UE deverá concluir a diligência e apresentar a declaração exigida antes da importação. Deixar essa organização para dezembro pode comprometer os pedidos fechados hoje.
A competitividade da madeira brasileira dependerá de como o setor articulará essas frentes. Ampliar o consumo interno, diversificar clientes e comprovar a origem dos produtos são passos para reduzir vulnerabilidades e sustentar negócios no longo prazo.



