Indicadores do setor de aparas

Setembro de 2026: aparas perdem fôlego e mercado entra em fase de acomodação

O conjunto de dados referente a setembro de 2026 aponta para uma inflexão no mercado de aparas. Depois de um ciclo de recuperação que se estendeu de abril a agosto, os sinais de perda de ritmo se acumulam: os preços das aparas marrons subiram em menor intensidade, as brancas recuaram, a celulose virou para baixo e o varejo desacelerou de forma expressiva nos segmentos que mais importam para a cadeia. O momento é de acomodação, alinhado ao comportamento histórico do mercado no fim do ano.

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A indústria geral registrou avanço de 0,2% em julho frente a junho, com ajuste sazonal, praticamente estável. Na comparação com julho de 2025, o setor apresentou recuo de 0,5%, e no acumulado do ano mantém crescimento de 1,1%. A produção de bens de consumo, indicador mais diretamente ligado à demanda por embalagens à base de papel, avançou 0,3% na variação mensal, mas recuou 1,8% na comparação interanual, mantendo alta modesta de 0,8% no acumulado do ano. O quadro reforça que a atividade industrial voltada ao mercado final segue sem tração consistente, com o desempenho interanual negativo de bens de consumo sinalizando que a produção de bens embalados opera abaixo do nível do ano anterior. Para a cadeia de papel e aparas, isso confirma que a demanda industrial não está puxando o consumo de material reciclado, deixando a dinâmica de preços das aparas ainda mais dependente do lado da oferta.

O varejo de julho de 2026 registrou crescimento de 1,2% na comparação com julho de 2025, desaceleração relevante frente aos 2,9% de junho. A análise setorial mostra uma virada nos segmentos geradores de aparas. Eletrodomésticos, que vinham firmes ao longo de 2026, recuaram 3,6% na comparação interanual, primeira queda expressiva do segmento no ano. Hipermercados e supermercados avançaram 2,9%, sustentando o abastecimento do varejo alimentar e sendo o principal ponto positivo entre os geradores de aparas marrons. O setor farmacêutico cresceu 4,7%, mantendo desempenho positivo.

No segmento de aparas brancas, livros, jornais, revistas e papelaria recuaram 1,7% na comparação interanual, revertendo a sequência de altas dos meses anteriores. A perda de força de eletrodomésticos e de livros e papelaria no varejo de julho tende a se refletir na geração de aparas ao longo dos próximos meses, dada a defasagem natural entre a atividade no varejo e a disponibilidade de material na cadeia.

No acumulado do ano até julho, o varejo brasileiro registra crescimento de 1,9% frente ao mesmo período de 2025. Entre os principais polos geradores de aparas, São Paulo segue estagnado, com variação de 0,0% no acumulado, mantendo o quadro de ausência de crescimento que preocupa, dado o peso do estado no volume total de material reciclável do País. Minas Gerais avança apenas 0,3% e o Rio Grande do Sul 1,0%, ambos abaixo da média nacional. O Rio de Janeiro cresce 1,9%, em linha com a média do Brasil. Paraná e Santa Catarina seguem como os destaques entre os polos relevantes para o setor papeleiro, com altas de 3,7% e 4,4% respectivamente, sustentando o melhor desempenho da região Sul. A configuração se mantém estável em relação aos meses anteriores: o Sul cresce acima da média enquanto São Paulo, principal centro consumidor de aparas, permanece sem crescimento, o que limita o impacto do varejo nacional sobre a demanda por material nos grandes polos.

O mercado de aparas marrons manteve alta em agosto, porém em menor intensidade, sinalizando perda de fôlego após quatro meses de valorização. O ondulado I foi negociado em média a R$ 1.197,33 por tonelada FOB depósito, com avanço de 1,1% frente a julho. O ondulado II registrou preço médio de R$ 1.096,36 por tonelada FOB depósito, com alta de 1,4% no mês. A desaceleração das altas, depois dos avanços mais expressivos observados entre abril e julho, indica que o ciclo de recuperação começa a arrefecer. O movimento acompanhou apenas um ajuste pontual nos estoques das fábricas, ligado a movimentações internas das unidades, sem alteração relevante no nível de oferta, que permaneceu em linha com o do mês anterior. O comportamento é coerente com o padrão histórico do setor, em que os meses finais do ano tendem a apresentar menor pressão de alta nos preços das aparas marrons.

As aparas brancas recuaram em agosto, com quedas em todas as categorias, interrompendo a sequência de leves altas dos meses anteriores. A branca I foi negociada em média a R$ 2.478,25 por tonelada FOB depósito, com recuo de 0,3% no mês. A branca II registrou preço médio de R$ 1.485,00 por tonelada, com queda de 0,8%. A branca III foi comercializada em média a R$ 1.146,67 por tonelada, com variação de -0,3%. O recuo generalizado, ainda que discreto, marca uma mudança de direção no segmento e é coerente com a retração de 1,7% do varejo de livros e papelaria em julho, que retira suporte da demanda pelo material gráfico. A dinâmica da celulose reforça esse quadro: a queda no custo da fibra virgem tende a reduzir o incentivo das papeleiras à substituição por aparas brancas, pressionando adicionalmente o segmento.

As exportações de kraftliner totalizaram 46.076 toneladas em agosto, volume abaixo da média mensal do ano, de 49.166 toneladas, indicando acomodação dos embarques em patamar mais moderado após o pico do primeiro trimestre. Ainda assim, o volume permanece acima da média mensal de 2025, de 43.222 toneladas, o que mantém o direcionamento da produção ao mercado externo como canal relevante de escoamento ao longo de 2026. Vale observar que a redução dos embarques não implica, necessariamente, maior disponibilidade de material no mercado interno, uma vez que pode refletir uma acomodação da própria produção no período, característica comum nesta época do ano. A leitura mais precisa do efeito sobre a oferta doméstica dependeria do acompanhamento conjunto dos volumes produzidos.

O papel miolo foi negociado em agosto em média a R$ 4.529,43 por tonelada FOB depósito, com variação de -0,2% frente ao mês anterior, praticamente estável. O resultado interrompe a sequência de quatro meses de alta, mas a variação marginal indica acomodação no patamar, e não reversão. O comportamento acompanha a perda de fôlego das aparas marrons, com as quais o miolo manteve trajetória convergente ao longo do ciclo de recuperação. A estabilidade do miolo em agosto reforça a leitura de um mercado de recicláveis à base de papel que, após meses de recomposição, entra em fase de maior equilíbrio.

Comércio Exterior de Aparas

O movimento de importação de aparas superando a exportação, iniciado em junho, se manteve em agosto e já soma três meses consecutivos de saldo negativo. No mês, as importações de aparas totalizaram 2.558 toneladas, contra 1.283 toneladas exportadas, resultando em saldo negativo de 1.275 toneladas. Tanto a exportação quanto a importação cresceram em relação a julho, mas a entrada de material seguiu bastante superior à saída. A persistência desse movimento por três meses reforça a ampliação da presença de material importado no mercado doméstico e consolida o tema como ponto de atenção para os próximos meses.

A leitura integrada dos dados de setembro aponta para um mercado de aparas em transição, saindo do ciclo de recuperação que marcou o segundo e o terceiro trimestres e entrando em fase de acomodação. As marrons ainda sobem, mas em ritmo menor; as brancas já recuaram; a celulose virou para baixo; e o varejo perdeu força justamente nos segmentos geradores de aparas. O quadro é coerente com o padrão histórico do setor, em que o último trimestre do ano tende a ser mais calmo, com menor pressão de alta nos preços. O mercado encerra o terceiro trimestre em posição bem distinta da observada no início do ano, com preços recompostos, mas sem o vigor de alta que caracterizou o meio de 2026.

Colaboradores desta edição: Gabriela Zoli e Lucas Furlan

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Filipe Brumatti de Souza
Engenheiro de Alimentos formado pela UNESP e com MBA em Gestão de Projetos pelo SENAI. É sócio fundador da MAPA.SA Consultoria e Análises Socioambientais e coordenador do Projeto Conexões. E-mail: [email protected]

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