Mato Grosso do Sul e São Paulo concentram hoje a espinha dorsal da produção brasileira de papel e celulose, e, por consequência, desempenham um papel decisivo para que ambos avancem rumo às metas ambiciosas de neutralidade de carbono. Juntos, os dois estados não apenas lideram a fabricação nacional, mas abrigam alguns dos maiores investimentos globais em florestas plantadas, bioprodutos e bioenergia, consolidando cadeias industriais intensivas em inovação ambiental e capacidade de mitigação climática.
São Paulo continua à frente como o maior produtor nacional, com um parque industrial robusto que inclui unidades da Suzano, Klabin, Eldorado Brasil, Sylvamo, Smurfit WestRock e Bracell. Em Mato Grosso do Sul, o setor já é responsável por transformar o estado no segundo maior produtor de celulose do país e no líder nacional em exportações. Em Três Lagoas, Suzano e Eldorado Brasil operam com capacidade conjunta de 5 milhões de toneladas anuais, enquanto a Arauco avança na construção do Projeto Sucuriú, em Inocência, que será a maior fábrica de celulose do mundo quando entrar em operação no final de 2027. Também no estado, a Bracell prepara uma nova planta em Bataguassu, estimada em 2,8 milhões de toneladas por ano.
Esse protagonismo não é apenas econômico: ele está diretamente conectado à agenda climática. O setor de árvores plantadas é hoje um dos pilares da estratégia brasileira de mitigação de emissões, combinando captura de carbono em escala, restauração de áreas degradadas, produção de biomateriais de baixa emissão e geração de energia renovável.
Florestas plantadas captam naturalmente CO₂, e a expansão do cultivo de eucalipto e pinus em áreas antes improdutivas tem contribuído para ampliar a capacidade de sequestro de carbono em ambos os estados, um elemento decisivo para que Mato Grosso do Sul busque a neutralidade já em 2030 e São Paulo até 2050.
No caso paulista, essa ambição foi institucionalizada no programa Compromisso SP Carbono Zero 2050. Segundo Carina Dolabella Pereira, da Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil), a iniciativa esta alinhada à campanha global Race to Zero, da ONU, e estabelece que empresas apresentem inventários de emissões, metas graduais e trajetórias de descarbonização de longo prazo.
De acordo com Carina, a adesão ao programa representa “uma visão de futuro para que o Estado marque sua posição na trajetória de descarbonização”, integrando setores como indústria, agricultura e transportes. Ela explica que o modelo paulista funciona por níveis de reconhecimento (Platina, Ouro, Prata, Bronze e Menção), permitindo que organizações avancem em complexidade conforme ampliam compromissos climáticos. “O objetivo é promover transparência, incentivar a redução de emissões e preparar o setor produtivo para a regulamentação do mercado de carbono”, afirma.
Em Mato Grosso do Sul, onde o horizonte é ainda mais ousado, com meta oficial de neutralidade até 2030, o movimento vem sendo construído por meio de políticas públicas, investimentos privados e uma forte agenda de transição energética. O secretário Jaime Verruck destaca que o estado vive uma transformação acelerada impulsionada por iniciativas que vão desde florestas plantadas até biocombustíveis avançados e economia circular.
Verruck cita a reintegração de cinco milhões de hectares de pastagens degradadas ao processo produtivo nos últimos três anos, agora convertidos para eucalipto, soja e milho. “Essa ação não só otimiza a produção remanescente, como contribui para a redução das emissões de metano. É equivalente ao impacto de dois milhões de hectares de pastagem”, afirma.
O avanço do mercado de carbono também integra a estratégia sul-mato-grossense. O estado foi habilitado para 85 milhões de toneladas de CO₂ equivalente em projetos jurisdicionais REDD+, cuja comercialização deve começar em janeiro. Verruck destaca ainda certificações pioneiras em biomas sensíveis, como o Pantanal, e a entrada de investidores internacionais, especialmente fundos árabes.
Tanto em São Paulo quanto em Mato Grosso do Sul, o setor de papel e celulose desempenha um papel estratégico não apenas pelo potencial industrial, mas pela capacidade de entregar resultados ambientais mensuráveis, seja na restauração produtiva de áreas degradadas, na captura de carbono pelas florestas plantadas, na geração de energia limpa ou no estímulo à bioeconomia.
Embora os ritmos e horizontes temporais sejam diferentes (2030 para MS e 2050 para SP), os dois estados colocam as árvores plantadas no centro de suas estratégias climáticas, com o setor assumindo protagonismo técnico, econômico e ambiental. Como resume Verruck: “Talvez a neutralidade plena ocorra em 2031 ou 2032, mas o importante é que estabelecemos um propósito claro, legítimo e duradouro.”



