Neste final de 2025, o setor madeireiro brasileiro vive um dos períodos mais complexos dos últimos anos. Diversos fatores externos se somaram e formaram uma verdadeira “tempestade perfeita” para as exportações. O principal deles é o tarifaço imposto pelos Estados Unidos, com um aumento de 40% sobre a maioria dos produtos brasileiros exportados ao país, somado aos 10% já em vigor desde o chamado “Dia da Libertação”.
Posteriormente, a conclusão da investigação amparada pela Seção 232 ampliou o impacto sobre o setor ao incluir produtos de base florestal entre os itens considerados estratégicos para a segurança nacional. As medidas passaram a valer em outubro e aplicam tarifas de 10% sobre madeiras serradas e até 25% sobre móveis e componentes, com possibilidade de elevação gradual até 50% em 2026.
Paralelamente, avança a investigação da Seção 301, que permite aos Estados Unidos adotar medidas comerciais contra países considerados desleais em temas ambientais, trabalhistas e de rastreabilidade. No caso brasileiro, o foco está nas cadeias agroflorestais, especialmente em práticas de desmatamento, transparência e sustentabilidade. Esses instrumentos, combinados às tarifas já em curso, criam um ambiente de forte pressão sobre a competitividade da madeira brasileira nos Estados Unidos, historicamente seu principal destino.
Do outro lado do Oceano Atlântico, na Europa, o Regulamento de Combate ao Desmatamento (EUDR), com data de aplicação em 30 de dezembro de 2025 para grandes e médias empresas, traz novas exigências de due diligence, geolocalização e comprovação de origem. Apesar de a Comissão Europeia ter publicado orientações complementares neste ano para facilitar a implementação, as datas de conformidade foram mantidas, o que amplia custos e burocracia para exportadores.
Soma-se a isso a investigação antidumping da União Europeia sobre o compensado de pinus brasileiro, com expectativa de aplicação ainda neste trimestre. As medidas provisórias foram divulgadas e anunciadas tarifas de 6,20% para a maioria das empresas brasileiras.
No campo geopolítico, os conflitos entre Rússia e Ucrânia e no Oriente Médio (Hamas–Israel) seguem gerando instabilidade logística, elevação de fretes e volatilidade cambial. O dólar permanece sensível a cada novo episódio, enquanto os custos de energia, insumos e transporte continuam pressionados em um contexto de demanda internacional menos aquecida.
Em meio a esse quadro, a conversa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizada em 26 de outubro, trouxe um ponto moderado de esperança: os líderes sinalizaram disposição para buscar soluções tarifárias. A possibilidade de bons frutos existe, mas ainda não há clareza sobre prazos nem sobre a profundidade das medidas. O resultado de todos esses vetores é um ambiente de exportações mais caro, complexo e incerto, que exige das empresas brasileiras uma atuação muito mais estratégica do que tática.
A tempestade perfeita
O momento pede leitura realista: os choques são simultâneos e de natureza diversa. Tarifas adicionais nos Estados Unidos alteram as margens de forma imediata; a Seção 232 interfere na previsibilidade de médio prazo; a Seção 301 eleva a incerteza regulatória; o EUDR redefine o padrão de acesso ao mercado europeu; a investigação antidumping sinaliza custos adicionais pontuais sobre o compensado de pinus; as guerras afetam cadeias, prazos e seguros; o comportamento do dólar muda a cada novo fato; e os custos de produção seguem elevados no Brasil.
Essa combinação explica a desaceleração recente dos volumes exportados e a acomodação dos preços em patamares inferiores aos do ciclo anterior. No curto prazo, a trajetória mais provável é de prudência: ajustes finos nas operações, negociações mais conservadoras e maior seletividade de pedidos, evitando assumir compromissos que possam se tornar inviáveis caso o câmbio ou os fretes se alterem de maneira abrupta.
Adaptação e olhar para dentro
Em fases de mar revolto, a melhor decisão raramente é esperar passivamente. O setor já comprovou resiliência em outros ciclos (como o da crise imobiliária de 2008, os gargalos logísticos da pandemia) e agora precisa ativar novamente essa musculatura.
É hora de olhar para dentro das fábricas com lupa: otimizar processos, reduzir desperdícios, revisar contratos de energia, renegociar insumos, encurtar prazos de estocagem e adotar rotinas de custo mais transparentes. Também vale ajustar o mix de produtos a nichos de maior valor agregado, com especificações técnicas sob medida e certificações que abram portas.
A diversificação geográfica ajuda a amortecer riscos: Oriente Médio, América Latina e partes da Ásia mantêm oportunidades específicas, com exigências comerciais e regulatórias distintas das dos mercados tradicionais. Por fim, compliance deixa de ser custo e passa a ser ativo. Antecipar exigências do EUDR e fortalecer a rastreabilidade cria confiança, reduz riscos na hora de vender e diferencia fornecedores que entregam segurança documental junto com a carga.
Perspectivas
Olhando para o início de 2026, a expectativa mais realista não é de recuperação abrupta de volumes ou preços, mas de acomodação em níveis próximos aos de 2024, enquanto o mercado precifica tarifas, novas regras e o risco geopolítico.
Aqui vale a analogia que inspira este artigo: quando a tempestade chega, recolhemos as velas, fechamos as escotilhas e checamos a embarcação por dentro. Não é imobilismo, é estratégia. Ajustamos o rumo, preservamos recursos e mantemos a tripulação alinhada. Quando o tempo firmar, as empresas que atravessaram o período com disciplina operacional, eficiência e relacionamento consistente com seus clientes estarão prontas para acelerar.
A crise atual pede menos bravatas e mais método. O setor madeireiro brasileiro, que há décadas transforma adversidades em aprendizado, tem condições de sair desta fase mais forte e competitivo. Mantemos a esperança de que o diálogo político recente traga alívio nas tarifas; até lá, seguimos com foco em eficiência, qualidade e previsibilidade.



